Agora a monografia, que foi reduzida, virou projeto para o mestrado e vai virar, bem ampliada, a dissertação final.
A influência de Federico
Garcia Lorca
na evolução da Poesia
de Pablo Neruda
Roberto Ponciano
Resumo
O objetivo deste trabalho
é fazer um estudo comparativo da obra do poeta chileno Pablo Neruda,
situando sua poesia dentro do contexto de sua atribulada vida e
mostrar que as mudanças de posição político-ideológica, causadas
principalmente pelo encontro com Federico Garcia Lorca e a Geração
de 27 na Espanha (com a tragédia da Guerra Civil na qual os amigos
de Neruda são presos, assassinados ou exilados) levam a uma mudança
estética e de temática na obra nerudiana, que assim vai se
“contaminar” de Espanha e de Lorca, de maneira antropofágica, ou
seja, Neruda recebe a influência espanhola e a traz para um modo
poético chileno. Assim, o recorte estudado nesta monografia é
exatamente este salto qualitativo dialético (vista a dialética da
maneira hegeliana-marxista, de desenvolvimento do pensamento através
de contradições, de opostos, de superações; aplicação do
materialismo dialético como instrumental para interpretar e
modificar o mundo), no caso de um Neruda inicial, místico e
descompromissado, frente a uma situação limite da Guerra Civil que
o leva a uma superação de seu pensamento inicial, amadurecendo para
o campo oposto de compromisso e engajamento político-social. Isto
ocorrerá na vida do poeta chileno por conta de uma experiência
traumática, mas ao mesmo tempo rica para a história da humanidade,
como foi a Guerra Civil Espanhola (já que foi o prenuncio e o campo
de experimentação da Segunda Grande Guerra, que mudará a face do
mundo), quando Espanha se dividiu em duas metades e o lado “errado”,
a direita fascista e conservadora, venceu a guerra. É com Espanha
no Coração, texto redigido durante a guerra, que se fará toda
a mudança na obra literária de Neruda.
Palavras-chave:
Guerra Civil Espanhola; Mudança estética; Mudança temática;
Sumário
1. INTRODUÇÃO
Esta
monografia tem como objetivos,
mostrar a transformação dos temas e da forma poética de
Neruda, a partir de sua estada na Espanha, durante a Guerra Civil
Espanhola, quando o choque do confronto fará o poeta repensar toda a
sua vida e sua arte; além de analisar a motivação social na poesia
de Neruda, a partir de sua passagem pela Espanha e seu contato com os
jovens poetas da Geração de 27, que influenciarão a
estética nerudiana com o modernismo em voga na Espanha de então;
também comentaremos a estrutura dos poemas de Neruda comparados aos
poemas de Federico Garcia Lorca, o principal poeta modernista
Espanhol; assim como compararemos os temas populares presentes tanto
nos poemas de Lorca, quanto em Pablo Neruda.
Ricardo
Neftali Eliézer Reyes Basoalto, o cidadão do mundo Pablo Neruda
terá várias mudanças em sua vida, a mais significativa, sem sombra
de dúvida, será a sofrida durante sua passagem na Espanha
Republicana, que passará pela Guerra Civil. Este trabalho enfatizará
como esta vivência espanhola transmutará o mundo e os versos de
Neruda, ou seja, o trabalho bordará, em planos paralelos, a mudança
na concepção de mundo versus as mudanças na estética e na
temática do poeta chileno, o qual vivenciará tanto a guerra civil
como o torvelinho da jovem Geração de 27, a mais fecunda
esteticamente e em termos de temática no modernismo espanhol,
usando-se, como exemplo, o mais fecundo entre os fecundos, Federico
Garcia Lorca, o mais influente e famoso dos poetas desta geração.
Amigos desde a chegada
de Neruda a Madrid, chegarão a trabalhar juntos na criação da
revista Caballo Verde. O cerne do trabalho ora exposto é
expor como esta vivência fara com que a estética e a temática de
Lorca seja refletida na obra do amigo Neruda. Como Espanha se
entranhará na obra do poeta chileno, a ponto de ser o lugar com mais
citações em sua obra, depois do Chile, uma segunda pátria,
adotiva, que deixará uma marca indelével na obra poética posterior
nerudiana.
Será
usada, como forma de provar a tese apresentada, uma pequena biografia
literária de Neruda mais a comparação da obra anterior e posterior
do poeta, assim como a comparação da temática e da estética de
Neruda com a obra e a estética de Lorca, mostrando os lugares-comuns
na produção de ambos, como, por exemplo, a adoção dos motivos
populares de inspiração nos poemas: a Barcarola de Neruda é
inspirada nas aventuras de um bandoleiro comum chileno; O Cante
Jondo de Lorca é inspirado na vida aventureira dos ciganos, povo
perseguido e discriminado na Espanha de então (e também na Espanha
franquista). Ao final, na conclusão, estará a poesia de Neruda
transformada em canto social e de denúncia.
2. OS PRINCÍPIOS DA POESIA DE PABLO NERUDA
Pablo Neruda é, antes
de chegar à Espanha, na construção inicial de sua poesia, um poeta
metafísico, panteísta (com alguma influência de sua mestra na
infância, a também prêmio Nobel de literatura, Gabriela Mistral),
com inspiração na natureza e na mulher, com muito talento, mas com
pouca preocupação com a temática social. Como exemplo, o texto
abaixo, de Proêmio, poesia de Cadernos de Temuco (Neruda;
1998, p.27): “Uma rota de sol e uma luz e um roseiral./ Nada
mais eu pedia e naquela inquietude/ pousaram as sedas da minha branda
canção”.
O poema referido
reflete as preocupações iniciais do jovem Neruda. Um poeta pobre,
que parte para Santiago para estudar literatura (contra a vontade
paterna, que o queria engenheiro), que é extremamente tímido e
avesso às badalações, que veste roupas negras e escreve versos ora
místicos, ora panteístas, ora românticos, extremamente exagerados
em seus arroubos líricos, versos estes para as irmãs de seus
companheiros de universidade e de boemia. Não há nenhum traço que
indique que ele será um poeta militante, engajado política e
socialmente, como em sua história pessoal das décadas posteriores,
de militância política assumida no Partido Comunista Chileno, do
qual chega a ser senador e candidato à Presidência. Ricardo Neftali
Eliézer Reyes Basoalto, um jovem que para escrever poesia vai cunhar
um pseudônimo transformado depois em nome, Pablo Neruda. Como o pai
de Ricardo não o queria estudando poesia ou escrevendo poemas, mas
sim engenheiro, advogado, ou outra profissão que prometesse melhor
futuro; por conta desta reprovação paterna, o jovem poeta vai tomar
de empréstimo o nome de um poeta checo. O interessante desta anedota
é que o Neruda original não chegou a ter a metade da fama daquele
que lhe tomou de empréstimo o nome. Nosso Neruda, o poeta chileno,
nesta época pouco se imiscui na política, ele não se infiltra em
nenhum movimento de protesto organizado, nenhuma marcha de
trabalhadores, nenhum ato socialista, nenhuma greve, não toma parte
em sindicatos ou partidos políticos, o máximo que faz é escrever
poemas em jornais estudantis de cunho anarquista (mas não textos
políticos), em suma, ele não representa nenhuma ameaça à ordem
reinante no Chile. Está bem distante de ser o poeta subversivo do
futuro, é antes um jovem absorto na literatura e procurando publicar
seus livros e fazer sucesso com eles. Suas obras vão refletir, nesta
época, as leituras apaixonadas de poetas espanhóis como Gôngora e
Quevedo, Bécquer, Garcilaso de La Vega e de hispano-americanos como
Rubén Darío, Gabriela Mistral. Numa dualidade entre o misticismo
panteísta e o lirismo-romântico, a obra nerudiana ainda não tem a
marca do político-social em seus primeiros livros.
2.1 Amadurecimento da visão do mundo
Nesta
época da juventude do poeta, nos anos 20 do século passado, Neruda
é de uma poesia primaveril, juvenil, onírica e panteísta. Neste
tempo o poeta vive principalmente as sensações mais diretas que
vida lhe dá, numa relação direta com a natureza, absorto na
contemplação dos ritmos vitais, da música do universo. Na década
de 20, Neruda não tem nenhum posicionamento filosófico definido e
nenhum engajamento político social, o máximo que Neruda se permite
é uma aproximação a círculos estudantis anarquistas em Santiago
(dos quais não tomará parte como ativista, senão como um
simpatizante à parte). A natureza e as mulheres são seu principal
material inspirador; dotado, que era, de uma sensibilidade incomum e
sensualidade sempre constante, forte, com uma ousadia acima da moral
da época. No texto supramencionado vislumbramos um pouco do lirismo
do poeta, ainda que, em Cadernos de Temuco, ele seja pouco
mais que um adolescente. A poética nerudiana, todavia, amadurecerá,
florescendo pouco a pouco. Já no livro Vinte poemas de amor e uma
canção desesperada, vê-se um poeta que, ainda que continue não
engajado em lutar por mudanças sociais, em termos de forma, vive uma
grande maturidade na parte estética. Não parece o livro de um jovem
escritor, ainda principiante nas letras, mas sim a obra de um poeta
seguro esteticamente em seus experimentos e ousadias na linguagem e
na forma. Com este livro, Neruda alcançará, ainda muito jovem, fama
e prestígio literário, mesmo entre os críticos mais exigentes, que
vislumbram no jovem poeta um talento inato.
Vejamos
este outro texto lírico, no qual não se oculta o panteísmo, na
comparação da mulher com a natureza, em um livro artisticamente bem
mais elaborado, que é o Vinte poemas de amor e uma canção
desesperada.
“Casi fuera del cielo
ancla entre dos montañas la mitad de la luna.
Girante, errante noche, la cavadora de ojos.
A ver cuántas estrellas trizadas en la charca.
Hace una cruz de luto entre mis cejas, huye.
Fragua de metales azules, noches de las calladas luchas,
mi corazón da vueltas como un volante loco.
Niña venida de tan lejos, traída de tan lejos,
a veces fulgurece su mirada debajo del cielo. ”
(Neruda; 1999, p. 23):
Estes belos versos,
despolitizados, é verdade, mostravam um Neruda que não era pior que
o Neruda Pós-Espanha. Os versos de Vinte poemas estão dentre
os melhores de Neruda, ainda que neles cantem traços românticos
tardios, gongóricos (Gôngora fora um dos poetas prediletos de
Neruda na adolescência), com jogos de palavras e exagero de figuras
de linguagem, com um panteísmo esotérico. Neruda não era um
católico praticante, seu panteísmo não se traduziu numa
religiosidade confessa, como o de Gabriela Mistral, sua evocação da
natureza antes, traz a marca do divino sem definir claramente a
figura de uma determinada divindade. Se Deus está na poesia da
Neruda, em nenhum momento ele expressa isto claramente, mas o ritmo
que o poeta capta na natureza é um ritmo que transcende um mero
naturalismo narrativo e explode em cores místicas, de um esoterismo
que busca o metafísico, os significados esotéricos, para além da
matéria. Neruda traz em toda sua obra a marca de sua infância
passada no interior do Chile, quando passeava com seu pai de
locomotiva, não só por Temuco, mas por toda a cordilheira andina
chilena e encantava-se com a imponência da selva andina. Esta
vivência, afastado das grandes cidades, isolado no interior do país,
em contato permanente com uma América ainda indomada, vai brotar por
toda a vida do poeta em seus escritos, mesmo em sua fase mais
militante.
Para
José Carlos Rovira, um dos mais importantes e respeitados
nerudistas, a infância de Neruda em Temuco, o contato estreito com a
natureza selvagem chilena vai imprimindo no poeta a impressão
fortíssima de uma natureza selvagem e indomada, na qual explodem
fenômenos de raríssima beleza, dentro da selva andina. Veja no
anexo, o texto extraído de Rovira, José Carlos; Para leer a
Pablo Neruda, 1991, do qual retiramos um pequeno trecho.
En el
principio fue la soledad de Temuco, la estación de ferrocarril donde
trabajaba su padre, la costa cercana de puerto Saavedra, la
naturaleza deshabitada, la flor del copihue, el ruido de los trenes o
su silencio, el rumor del mar o todos los sonidos de la naturaleza,
agolpados a las palabras que se van aprendiendo para llamar a cada
cosa por su nombre. (...) La infancia en Temuco es un aprendizaje de
soledad y naturaleza; (...) En Confieso que he vivido narró el poeta
ampliamente todas las sorpresas de aquella infancia: la naturaleza
que le provoca «una especie de embriaguez», los pájaros y su
canto, los insectos, o los juegos infantiles. (...)
(Rovira; 1991,
p. 57).
Nota-se
nas palavras deste importante crítico que a construção poética
inicial de Pablo Neruda, de Cadernos de Temuco até Vinte poemas
de amor, tem uma unidade essencial, baseada na natureza, na busca
do eu interior, no fascínio e na exaltação pela mulher. É um
poeta em desenvolvimento, em busca insaciável, vivendo a vida com
intensidade interior e a registrando em seus poemas. Há uma linha
condutora, com o desenvolvimento dos mitos poéticos iniciais
realizados no tempo dos seus amores juvenis, intensificada no momento
essencial da passagem dele em Santiago, quando começa a tomar
contato com uma outra realidade, que não a vivida em sua infância
em Temuco. Pablo Neruda crava seus primeiros acordes, em seus poemas
iniciais há a falta ainda das notas político-sociais, mas as outras
notas não são menos belas ou impressionam menos, pela força e pela
vivacidade da poesia. O poeta carrega consigo Temuco e a natureza do
Chile, é o que ele mesmo diz em Confieso que he vivido:
“El copihue rojo es la
flor de la sangre, el copihue blanco es la flor de nieve... En un
temblor de hojas atravesó el silencio la velocidad de un zorro, pero
el silencio es la ley de estos follajes... Apenas el grito lejano de
un animal confuso... La intersección penetrante de un pájaro
escondido... El universo vegetal susurra apenas hasta que una
tempestad ponga en acción toda la mística terrestre.
Quien no conoce el bosque chileno, no conoce este
planeta.
De aquellas tierras, de aquel barro, de aquel silencio,
he salido yo a andar, a cantar por el mundo (Neruda; Julio de 2005,
p 12).
Nestas
palavras do próprio poeta sobre o bosque chileno, tiramos a prova
concreta das matizes panteístas e místicas do Neruda inicial que,
combinadas com a lírica sensual-erótica da exaltação à mulher
são a base no qual são estruturadas as suas primeiras obras. Em
1924 a editorial Nascimento,
de Santiago, publica os Vinte poemas de
amor e uma canção desesperada, no
qual se vislumbra uma sensibilidade visceral, pós romântica, numa
relação direta com o leitor que o tempo haveria de aprimorar, com
influências que vão de Gabriela Mistral a Gôngora e Quevedo. Ainda
não é o Neruda moderno e pós-moderno que nascerá no livro Espanha
no Coração. Evolução realizada em
livros como Memorial de Isla Negra
e Residência na Terra III,
como o próprio reconhece em Confieso
que he vivido: El mundo ha cambiado y
mi poesía ha cambiado. Una gota de sangre
caída en estas líneas quedará viviendo sobre ellas, indeleble como
el amor (Neruda, Pablo, 2005, p.37).
Ainda
não haviam lágrimas, nem dores no caminho de Neruda antes de sua
ida a Espanha. O jovem poeta, já famoso e popular, começa a dar os
primeiros passos na vida cultural em Santiago, aproveita-se de suas
amizades iniciais e de seu prestígio de jovem prodígio para
conseguir uma colocação como Cônsul e é designado para a
Birmânia, país no qual viverá praticamente no ostracismo, recluso
na pequena localidade para o qual foi mandado e onde terminará os
livros Residência na Terra I e Segunda Residência na Terra,
altamente místicos e, poderíamos dizer, existencialistas, no
sentido mais formal do termo, já que a preocupação do poeta é com
sua “vida interior”, com seu “eu interior” apenas e tão
somente. Esta é a tríade que caracteriza a fase inicial de Neruda:
Lirismo, baseado na figura da mulher; panteísmo, com adoração da
natureza e, por último, esta preocupação mística-esotérica, num
torvelinho, num turbilhão de emoções que a solidão num país com
uma cultura completamente diferente (a qual Neruda não tentou
desvendar ou compreender) vai levar o poeta.
2.2 O poeta e sua passagem pelo Oriente
Neruda
já tinha lançado quatro livros em 1926: Crepusculario.
Santiago, Ediciones Claridad, 1923;
Veinte poemas de amor y una canción
desesperada. Santiago, Nascimento,
1924; Tentativa del hombre infinito.
Santiago, Nascimento, 1926; El habitante
y su esperanza. Novela.
Santiago, Nascimento, 1926. Como o próprio poeta falava, ele se
refugiava nos livros com a ferocidade de um tímido, mas conseguiu
algum prestígio, fama e certo reconhecimento nos meios literários e
culturais, principalmente com os Vinte
Poemas, que serão fartamente
premiados. Como já citado, o poeta pobre e interiorano vai usar do
prestígio e do conhecimento alcançados para começar uma carreira
diplomática. Seus amigos intercederam por ele junto ao Ministro das
Relações Exteriores do Chile e o poeta será nomeado Cônsul do
Chile em Rangoon, uma região extrema da Birmânia, onde passará uma
obscura vida de burocrata, reduzido a assinatura de pequenos papéis
relativos a exportação de chá do Chile para o Oriente. Ainda que
Neruda houvesse abraçado uma carreira que tem relação com a
política, isto não o levou a criar uma consciência social, na
verdade o diplomata era mais um burocrata responsável por assinar os
papéis de importação de chá para a Birmânia do que um
representante político chileno. Suas funções consulares à época
eram bastante reduzidas e ele se entregou a uma experimentação, que
esteve bem longe de ser mística. Neruda terá experiência com
várias mulheres orientais e, nos momentos em que a sua carreira
diplomática deixava, viajava e explorava os povoados do Oriente, em
busca não de experimentações místicas, mas de contato humano.
Estas visitas não tinham caráter esotérico ou religioso, é
impressionante a dicotomia que há na poesia desta época, com
arroubos místicos e a visão materialista direta do mundo. Neruda
não se encanta com o Oriente, só consegue ver miséria, tristeza,
abandono, no lugar no qual outros poderiam ver o fervor místico.
Pelo contrário, o cônsul vai fazer uma relação de efeito-causa e
vai depreender o misticismo dos povos orientais de uma necessidade
de filosofia estóica de vida, para sobreviver se submetendo a tanta
miséria. Isto não o leva a uma atitude de revolta ou de
contestação, mas o fato de ele romper as cortinas místicas e
enxergar a realidade material concreta, determinada socialmente e não
religiosamente, já é o primeiro passo que possibilitará o
nascimento do Neruda engajado e militante do futuro. Veja o que
Rovira, José Carlos, fala da poesia Nerudiana desta época:
En
1927 comienza la biografía consular del poeta. A través de ella,
otra naturaleza, la de Oriente, se pone ante sus ojos, para ser la
base de una nueva experiencia poética. En 1927, es nombrado cónsul
en Batavia (Java); en el 31, en Singapur. Son cuatro años que
configuran una nueva construcción en el quehacer literario de
Neruda, años de viajes, naturaleza, amores, y años, sobre todo, de
definición de un mundo profundamente original que hace entrar al
poeta en una dimensión diferente.” (Rovira,
1991, p. 34).
A
poesia de Neruda desta época, Residência na Terra e parte de
Segunda Residência na Terra, será ainda mais mística,
esotérica, interiorizada, preocupada em definir o poeta como um ser
humano em busca de sua essência existencialista, que não está, de
maneira nenhuma, relacionada a um papel social coletivo, pelo
contrário, prefere caminhar pelos labirintos da busca mística, do
onírico, do panteísmo, ainda que mantenha um traço lírico erótico
que vai perdurar como linha tênue de costura em toda a poesia de
Neruda que fala do amor. Como já observado, há uma dicotomia entre
o cônsul que já divisa a miséria no meio do fervor místico e o
poeta que se interioriza e constrói um pensamento individualista,
como uma forma de proteção àquele Oriente que o assusta, o
atemoriza. Pablo Neruda, em nenhum momento vai conseguir se adaptar à
vida na Birmânia. Ao contrário do que aconteceu na Espanha, Neruda
será apenas um trabalhador, obrigado a fazer uma passagem pelo
Oriente, vendo tudo com olhos de turista acidental, em nenhum momento
ele vai conseguir se inserir no contexto daquela realidade tão
diferente da que havia em sua terra natal
Alguns
críticos, como Saul Yurkievich vão considerar esta obra de Neruda
no Oriente, Residência na Terra, como obra de vanguarda, nela
o poeta começará a fazer a ruptura com o passado, já que haverá
uma renovação profunda das concepções e formas, com relação a
seus primeiros poemas. Seu isolamento no Oriente fará com que ele
busque no místico e na interiorização das emoções, nas imagens
anímicas, o suporte para sua poesia, o que vai diferenciar bastante
de sua anterior poesia lírica panteísta. Vejamos o que diz um
crítico, Saúl Yurkievich, in A través de la trama.
Residencia
en la tierra integra, junto con Trilce de César Vallejo y Altazor de
Vicente Huidobro, la tríada de libros fundamentales de la primera
vanguardia literaria en Hispanoamérica. Posee todos los atributos
que caracterizan a la ruptura vanguardista. Surge íntimamente ligado
a la noción de crisis generalizada y, promueve un corte radical con
el pasado. Participa en la renovación profunda de las concepciones,
las conductas y las realizaciones artísticas. Cambio de percepto y
cambio de precepto van a la par.
(Yurkievich, Santiago, 1984, p 5). Veja
o restante do texto, nos anexos.
Assim,
Residência na Terra pode ser considerado até certo ponto um
livro niilista, porque fala do vazio, do ser submergido no mistério
da existência, do naufrágio da vida. O poeta cônsul na Birmânia
escreve uma obra com cunho existencialista sem ter aderido a nenhuma
escola de vanguarda. Esta obra de Neruda, assim como a primeira parte
da Segunda vão fazer parte da evolução de sua arte, ainda
que não ficassem entre as obras pelas quais ele tinha mais apreço,
o próprio poeta as considerava mais como indicativas das mudanças
temáticas e estéticas do que propriamente como obras cruciais na
sua trajetória, marcos de mudança essenciais apenas para que sejam
captadas as guinadas que serão promovidas, ocorridas entre a fase
que vai dos poemas iniciais até a primeira parte da Segunda
Residência e, depois, a virada estética temática que vai
acontecer a partir da segunda parte desta mesma obra. É o poeta
vivenciando a experiência do Oriente de forma desencontrada e
desesperadora. Ao mesmo tempo em que viaja misticamente em suas
poesias, refletindo o orientalismo ao redor, é a fase de maior
confusão sentimental na vida do poeta, uma fase promíscua na qual
ele se submerge numa volúpia carnal, se aproveita das delícias da
milenar arte do sexo cultuada pelo oriente. Terá um caso passional
com uma nativa, que o abandonará numa cena tragicômica, mas terá
uma série de outros casos e, ou relações sexuais sem grande
ligação afetiva. Assim, com esta vida altamente erotizada, não é
de se estranhar que mesmo na fase mais orientalista de seus textos,
não deixe de aparecer a face sensual em seus poemas, mas numa
sensualidade sórdida, como assevera Saúl Yurkievitch, na obra já
citada:
Con
referencia a la escala humana, Neruda opera un rebajamiento hacia los
seres y actividades sin prestigio, practica un rescate poético de lo
prosaico, de la experiencia ordinaria, de lo basto y grueso y hasta
de lo degradante. En el plano de las manifestaciones corporales, ese
descenso se presenta como crudeza somática, como ampliación
descarada del decible corporal, como franqueza física y sobre todo
sexual. (Yurkievitch, Santiago, 1984).
Constata-se
que há uma clara relação da vida conturbada de Neruda no Oriente,
de sua reação psicológica de interiorização para se defender do
mundo que considera hostil (ainda que, contraditoriamente participe
ativamente deste mundo) e da poesia que escreve nesta época. Não é
mais o texto lírico do poeta adolescente e pós-adolescente, é o
texto de um homem maduro que tomou contato com o lado escuro do
mundo, com o submundo, com as perversões e que as transcreveu em
seus poemas, como o fizeram Walt Whiltman, James Joyce e Baudelaire.
Com isto, Pablo Neruda consegue, com seus poemas escritos no Oriente,
colocar-se ao lado da vanguarda mais progressista, em termos
estéticos, em todo o mundo, mesmo que alijado geograficamente da
revolução cultural que acontece na Europa. A experiência
orientalista de Neruda o deixa pronto para o próximo passo na sua
evolução poética.
3. NERUDA E SUA PASSAGEM PELA ESPANHA
3.1 Neruda e a influência da poética de Garcia Lorca
O
poeta Pablo Neruda, ou melhor, o cônsul Ricardo Eliézer, chega a
Espanha em 1934, para um cargo em Barcelona. Em Madri travará
contato com vários poetas da geração de 27, entre eles Alberti,
García Lorca, Aleixandre, Miguel Hernández, Gerardo Diego, Cernuda,
e, ainda que fosse chileno, portanto, estrangeiro; sua estreita
amizade com eles o fará participar ativamente das mudanças
estéticas, culturais e sociais patrocinadas pelos inovadores poetas
de Espanha como se mais um poeta nativo fosse.
Depois da terrível solidão por que
passou no Oriente, o poeta chileno vê a Espanha como um lar, uma
nova pátria, um lugar que adotou e pelo qual foi adotado. Em sua
biografia, Neruda diz repetidamente que em Madrid, na sua casa da rua
do Mercado, foi feliz. Veja esta citação
do próprio poeta:
Pocos poetas han sido tratados como yo en España..."
confidencia Neruda a Alfredo Cardona Peña "Encontré una
brillante fraternidad de talentos y un conocimiento pleno de mi obra.
Y yo, que había sido durante muchos años martirizado por la
incomprensión de las gentes, por los insultos y la indiferencia
maliciosa, drama de todo poeta auténtico en nuestros países me
sentí feliz." (Apud, Citación del libro de E. Rodríguez
Monegal, "El Viajero Inmóvil", Yurkievich, p. 15).
O
encontro com Garcia Lorca e a amizade iniciada com ele em 1933,
depois a estada de Neruda em Madrid, a partir de 1934, vão
carinhosamente ganhar um lugar perpétuo na alma de Neruda. A
estética de Espanha começará, pouco a pouco a mudar a poesia dele,
e o poeta chega ao ponto de fundar e dirigir uma revista, Caballo
Verde, na qual escreverão os
principais poetas, tanto da geração de 27 já citada, como os da
geração de 98, como Antônio Machado, este também amigo pessoal do
poeta chileno. Segundo López de Abieda:
Las editoriales de la revista Caballo Verde para la
Poesía demuestran la íntima correspondencia entre Neruda y los
surrealistas españoles. La imaginación de Neruda se arrebola
arrebatada por la vehemencia española. El cambio de registro, que
también tiene que ver con el cese de la temporada infernal, la
superación del ensimismamiento angustioso, la recuperación del gozo
vital y de la solidaridad humana, es notorio en la parte final de
Residencia en la tierra (Abieda, López de, 1986, p 15).
Neruda, um chileno,
dirige uma publicação espanhola com a nata dos poetas nativos. Além
de ser influenciado pelos espanhóis, Neruda irá também fazer
escola e influenciar jovens poetas como Miguel Hernández. Espanha e
Neruda se confundem e se mesclam, em determinados momentos, o poeta
que aprende Espanha, começa também a ensinar Espanha e é adotado
por ela, fazendo parte de seu destino comum, sem se negar a
participar dele, inclusive tomando partido na época da Guerra Civil.
Fica
claro que, quer seja na biografia escrita por terceiros, quer seja em
sua autobiografia, Neruda jamais nega, antes reafirma e incorpora a
Espanha Republicana e seus poetas como Lorca, Miguel Hernández,
Antonio Machado, como influências palpáveis do caminho poético de
Pablo Neruda. Lorca, em especial foi influência avassaladora. Ao se
conhecerem, se identificaram um com outro, nascendo uma amizade com
grande convívio, só interrompida com o assassinato do poeta andaluz
Lorca. A vida de Lorca, com sua poética ligada aos andaluzes
(Cancionero Gitano), aos ciganos, aos oprimidos, aos bandoleiros, aos
marginalizados, às mulheres reprimidas; assim como a companhia de
teatro mambembe que dirigiu, enfim, tudo fará com que o poeta
andino modifique a sua maneira de ver a poética, seus temas
tornar-se-ão menos herméticos e líricos e se “contaminarão”
de povo, da gente do cotidiano. Para ratificar, na citada obra de
López de Abiada, há uma carta de Neruda, entregue em Paris, a
Angela Figueira Aymerich, na qual o poeta descreve como a Espanha
faz parte de sua vida, de sua alma, de seu coração, como a Espanha
está em seus sonhos. A íntegra desta
carta está nos anexos, segue um pequeno trecho:
Queridos poetas
españoles, aquí me tienen muy cerca de la tierra española y lleno
de sufrimientos por no verla y tocarla. Soy un desterrado especial,
vivo soñando con España, con la grande y la mínima, la del mapa y
la de las callejuelas, soñando con todo el amor que entre vosotros
dejé, un desterrado que sólo puede acercarse al aire que perdió
(...) (Abiada, 1984, p. 12).
Em outra entrevista,
com Antonio Collinas, Neruda voltará a falar da Espanha, e se mostra
aborrecido porque alguns poetas espanhóis o tenham tachado de
anti-espanhol (uma alusão a acusações de Panero, Ridruejo e
Rosales, escritores espanhóis não simpáticos à República, que
criticaram a poesia de Neruda, Espanha no Coração, como se
ela fosse contra o povo espanhol e não contra Franco, posição esta
tomada por eles, certamente motivada por questões ideológicas), já
que havia tomado partido pró República. Na verdade, a crítica
feita de um suposto antiespanholismo de Neruda, resume-se a uma
crítica política, já que Neruda era na verdade antifranquista e
ser contra Franco não representava ser anti-Espanha.
A
influencia da obra de Federico Garcia Lorca (principal poeta
republicano espanhol, covardemente fuzilado pelos fascistas, por
supostamente ser “rojo y maricas” – referência à amizade de
Lorca com os republicanos e ao homossexualismo – e depois jogado
numa vala coletiva) é confessada por ele mesmo em Para Nascer
Nasci:
Garcia Lorca era o
antiesteta, neste sentido de encher sua poesia e seu teatro de dramas
humanos originais do mistério poético. (...)Seu antiesteticismo é,
talvez a origem de sua enorme popularidade na América. Desta geração
brilhante (...) ele foi, talvez, o único sobre o qual a sombra de
Gôngora não exerceu o domínio que em 1927 esterilizou
esteticamente a poesia jovem da Espanha. (Neruda, Pablo, 1987, p 87).
Antiesteticismo
que Neruda adotará desde então, que fará o poeta espanhol escrever
odes às cebolas e aos gatos, poemas sobre sinos e uvas, um livro
inteiro de poemas não metrificados, dentre os mais importantes de
sua obra, que foi o Canto Geral, fica, então, claro que
Neruda adotou positivamente esta oposição antiesteticista e com
soluções bem à Lorca, libertou seus poemas das grades anteriores
dos esteticismos pré-modernistas.
Esta admiração
confessa de Neruda pelo grande amigo, Federico Lorca, refletirá na
vida de Neftali, na temática (popular, por vezes mesmo mitológica e
lendária, indianista) e na poesia (livre, solta, descompromissada em
métrica e rima, por vezes; outras, musical, como o Romancero
Gitano de Lorca):
Si vinieron los gitanos,
harían con tu corazón
Collares y anillos blancos
Niño dejadme que baile.
(...)Huye luna, luna, luna
Que ya siento sus caballos.
Niño, dejadme, no pises/Mi blanco almidonado. (Lorca,
p. 134, 1999)
Compare-se
com a Barcarola:
Ai, canta guitarra do sul na chuva, no sol lancinante
Que lambe os carvalhos queimados pintando-lhes as asas.
Ai, canta racimo de selvas, a terra empapada, os rápidos
rios,
O inacabável silêncio da primavera molhada. (Neruda,
2001, p. 204).
Vemos, em ambos os
textos, a mesma musicalidade, o mesmo ritmo pulsante, vivo, a mesma
liberdade poética e estética, também a mesma liberdade temática.
Se no Cancionero Gitano, Garcia Lorca destaca as façanhas dos
ciganos, povo perseguido na Espanha, Neruda, na Barcarola, vai
cantar as peripécias de um bandoleiro, de um justiceiro popular. As
duas obras vão exaltar a vida fora dos padrões morais e legais
normais. Este consideramos o melhor exemplo da influência temática
de obra de Neruda, sem falar na poética musicada, muito semelhante.
O Cante Jondo, a
viola cigana de Lorca, continua ressoando na viola chilensis de
Neruda. Transportada da Andaluzia para os Andes, ganhou nova
roupagem, novo tempero, novo ritmo, mas nunca renegou sua
ascendência. Não só no anti-esteticismo. Vejam a musicalidade de
ambos os poetas. Se o poema de Lorca parece a viola de um cantor
andaluz, o violão de Neruda não fica atrás, como uma zamba chilena
ressonante. Ambos os textos parecem cantados, não é um
anti-esteticismo que apela para soluções sempre não rimadas, os
versos de ambos tem uma musicalidade intrínseca que dá a unidade e
o formato aos poemas. Neruda em seus versos cantará, assim como
cantava, em seus versos, Lorca, a musicalidade é mais um dos traços
de Espanha que o poeta chileno carregará para o resto da vida.
Para Ático Villas Boas
da Silva, importante crítico brasileiro de Federico Garcia Lorca:
Lorca estava acima de todos os seguidores dos ismos
estéticos literários, pelo simples fato de se postar acima das
camisas-de-força de cada um daqueles movimentos. Versátil, sabia
aproveitar praticamente as lições de quase todas as tendências e
escolas literárias para desembocar no artesanato da palavra, seu
ofício maior. (Ático, 1999, p. 10).
Da mesma maneira,
Neruda, seu amigo e companheiro, vai percorrer o mesmo caminho, de
ecletismo acima dos movimentos literários da época, usando e
abusando deles, sem se render a nenhum, vanguardas como dadaísmo,
cubismo, surrealismo, futurismo, aproveitando o exemplo precursor de
Federico. O que se notará no Neruda de então é não só a mudança
na temática, com o comprometimento político do poeta com a Guerra
Civil Espanhola e com os temas populares, tomados de empréstimo à
Lorca; mas também, na forma: os versos cada vez mais soltos, livres,
quase em prosa, por vezes, outras musicais, como o Cante Jondo. Um
Neruda modernista, claramente influenciado pelos modernistas
espanhóis, capaz de compor um poema elogioso a um bandido (Joaquim
Murieta, na Barcarola), numa inspiração bem clara de Federico
Garcia Lorca e suas elegias à vida fora da lei dos ciganos. O Neruda
anterior, místico e panteísta, lírico e sensual continuará a
existir, mas não será mais determinante, aparecerá ora aqui, ora
ali nos poemas. Sua temática existencialista anterior cederá passo
a uma temática mais popular, mais próxima do homem do povo, do
cotidiano, do dia a dia, dos problemas sociais; assim como a forma se
livrará das influência anteriores de maior rigor formal, já que
Neruda fora árduo leitor de Gôngora e Quevedo e de outros poetas
formalistas, ou de derramamentos de figuras de linguagem bem
românticas, caminhando para um texto mais direto, quase coloquial,
espécie de poema-prosa, inventário das estórias e dos anseios do
povo chileno, como no Canto Geral; de outras vezes, surgem poemas
musicais, que embora não estruturados em rima, possuem uma dinâmica
musical intrínseca que os fazem ser espécies de canções a serem
declamadas em ritmo musicado, da mesma maneira que fazia,
anteriormente, o poeta andaluz, Federico Garcia Lorca.
3.2 O sofrimento do poeta com o choque da guerra
Vimos
que a imaginação de Neruda será arrebatada pela efervescência
cultural da Espanha de então. Uma mudança estética que tem que ver
com o fim de sua solidão no Oriente, a superação das angústias
religiosas, uma recuperação do gozo da vida e da solidariedade
humanas. Neruda, nesta época da Espanha Republicana,
pré-Guerra Civil, era um homem feliz, absorvido por seus trabalhos
literários, entre eles a direção da revista Caballo Verde e
pelas amizades espanholas, que o carregavam de um café para outro,
como se ele fora um animal raro trazido de uma terra distante, mas
que o envolviam com uma terna e profunda amizade. Veja como o próprio
poeta fala desta época, em Confieso que he vivido:
"Toda esa época de
antes de la guerra tiene para mí un recuerdo como de racimo cuya
dulzura ya se va a desprender, tiene una luz como la del rayo verde
cuando el sol cae en el horizonte marino y se despide con un destello
inolvidable.".(Neruda, 2001, p. 75).
Entretanto, toda esta
felicidade sucumbirá diante das primeiras noticias que simbolizam
para o poeta, e para todo o povo espanhol, a origem de toda a grande
tragédia da Guerra Civil: estala uma insurreição encabeçada por
Franco; logo no início da Guerra, com apenas um mês de começada,
Federico Garcia Lorca é assassinado, fuzilado em sua Granada que
tanto amou (até hoje o corpo do grande poeta não foi encontrado), o
poeta e dramaturgo, irmanado com Neruda através de uma amizade
profunda e eterna. Esta execução bestial, fascista, irracional, de
um dos maiores escritores do século XX, representa bem a insanidade
da guerra feita pelos fascistas comandados por Franco contra a
república eleita pelo voto democrático. Era a velha espanhola,
ultraconservadora, realista, que não queria morrer, era o velho se
levantando contra o novo e assassinando, nesta rebelião, toda uma
geração pensante de uma nova Espanha que se erguia. A vitória de
Franco levará a Espanha a um atraso de décadas que colocará o país
como um dos últimos em termos de desenvolvimento na Europa (ainda
hoje em dia, Espanha se recente dos anos de ditadura franquista que
brecaram o seu desenvolvimento).
Nestes
dois grandes acontecimentos trágicos interligados, o Assassinato de
Federico Garcia Lorca e a Insurreição franquista, que dá início à
Guerra Civil, está a raiz de España en Corazón, livro
escrito por Pablo Neruda durante a Guerra Civil, livro de combate,
impresso no front e proibido na Espanha Franquista, e que assinala a
grande viragem, a grande metamorfose do jovem Neruda sem grandes
compromissos sociais para o Neruda maduro, profundamente comprometido
com as causas sociais. Este livro é um grito de dor e espanto.
Neruda não fica neutro, desde o início da guerra, o Cônsul Ricardo
Reyes, como é chamado na correspondência oficial da época se
transforma no poeta Pablo Neruda e não pede permissão oficial para
tomar partido a favor dos republicanos nesta guerra. Lorca foi
fuzilado; Miguel Hernández, preso em combate, morre no cárcere;
Antônio Machado, exilado, morre ao chegar à França. Os amigos de
Neruda estão sendo presos, mortos em combate, ou mesmo assassinados,
fuzilados. Em meio a esta situação brota a obra já citada, de
tomada de posição política e mudança de temática, com total
comprometimento social, Espanha no Coração:
(...)pero de cada niño muerto sale un fusil con
ojos,/pero de cada crimen nacen balas/que os hallarán un día el
sitio del corazón./(...)Preguntaréis: ¿por qué su poesía/no nos
habla del sueño, de las hojas,/de los grandes volcanes de su país
natal?/¡Venid a ver la sangre por las calles,/venid a ver la sangre
por las calles!(Neruda, 2001, p 92).
Uma gota de sangue
havia caído na poesia de Pablo Neruda e far-se-ia indelével,
acompanhando o poeta para todo o sempre. O consulado do Chile em
Madrid é fechado pelo governo de Arturo Alessandri, Ricardo Eliézer
será afastado de suas funções diplomáticas por ter tomado
partido, mas não desiste de lutar. Junto com outros escritores e
intelectuais funda uma aliança de ajuda à causa republicana, em
Paris. Realiza vários congressos de ajuda e recolhe dinheiro pelo
mundo à fora. Viaja várias vezes para Espanha, correndo o risco de
ser preso e se compromete como verdadeiro combatente, como
“brigadista”, como eram chamados os voluntários republicanos na
guerra contra Franco. Com a entrada da Luftware alemã, a aviação
hitlerista do lado franquista, e de 50 mil soldados vindos de
Marrocos, transportados por barcos fascistas para o estreito de
Gilbratar, a guerra pende para o lado fascista e os republicanos,
acuados, entre as tropas franquistas e o mar parecem destinados ao
fuzilamento.
Neste
meio tempo, as condições políticas mudam no Chile. A frente
popular ganha as eleições, com o professor radical Pedro Aguirre
Cerda à frente, como presidente da república e recoloca Neruda como
responsável novamente pelas funções diplomáticas na Espanha. O
Cônsul Ricardo Eliézer até hoje tem a gratidão eterna do povo
espanhol. É ele que toma o problema do exílio nas mãos e consegue
refúgio para mais de 40 mil espanhóis republicanos derrotados, cujo
destino era a morte certa. Toda esta experiência traumática de dor,
morte, perda, solidariedade, comprometimento, faz com que Neruda
reveja suas posições diante do mundo. A Guerra Civil Espanhola será
a ante-sala da Segunda Grande Guerra, nela os fascistas treinarão os
métodos de combate usados para assolar a Europa, nela também os
resistentes treinarão sua resistência nas brigadas voluntárias
internacionais. O mundo depois se dividirá em duas durante a grande
guerra, mas, durante a época do grande confronto, Neruda já terá
tomado uma posição enérgica, terá se tornado um poeta militante e
carregará isto não só para a sua vida prática, mas também para
os seus textos, que incorporarão na sua temática a nova opção
marxista que ele fará.
4. MUDANÇA IDEOLÓGICA – NERUDA VIRA À ESQUERDA
4.1 O marxismo na vida do poeta
Neruda não se torna
comunista ou marxista na Espanha, embora observe com simpatia, a
movimentação do PSOE (na época o partido marxista), que lhe
pareceu o partido mais organizado e com mais condições de comandar
a resistência ao franquismo. Fala com algum desdém dos anarquistas,
a quem classifica de desorganizados e sem comando, e caminha, então,
para uma futura definição político e filosófica, o que mudará
completamente sua vida e seus versos.
Pablo Neruda, como
veremos, tornar-se-á, ao chegar ao Chile, depois da Guerra Civil
Espanhola, marxista, militante do partido comunista, senador chileno
e candidato à presidência da república. Só que esta virada não
acontecerá de uma só vez. Seus amigos espanhóis não eram
propriamente militantes, com exceção de Miguel Hernández, que foi
preso ao combater e morreu na prisão. Ela se dará paulatinamente,
conforme iam sucedendo os combates na Espanha e Neruda ia se
envolvendo com os republicanos e, dentre estes, mostrando simpatia
pelos comunistas. Isto o leva a ter uma imagem muito positiva do
movimento comunista internacional, de tal forma que Neruda
considerava os comunistas os únicos a estarem realmente em condições
de se baterem com sucesso contra Franco. O que não aconteceu no
entanto. Neruda em sua biografia joga a culpa nas outras organizações
republicanas que, para ele, não estariam à altura do enfrentamento
da guerra, muito descentralizadas, sem comando, sem uma ideologia
firme. Era, sem ele saber, o passo definitivo para a sua futura
decisão de se tornar não mais um simpatizante, mas um ativo membro
do movimento comunista internacional.
Federico
Garcia Lorca, ainda que tivesse uma concreta simpatia pelos
republicanos, jamais militou em nenhuma organização política, será
preso em casa e fuzilado sem julgamento, de maneira sumária, em uma
praça de sua querida Granada. Antônio Machado, outro amigo do poeta
chileno, também simpático aos republicanos, não toma parte na
guerra, procura o exílio, caminhando ao largo dos combates, mas
acaba morrendo doente, ao chegar à fronteira com a França. Neruda
não terá nenhuma militância político-partidária na Espanha, seu
trabalho de militância dar-se-á através de seus escritos, do livro
Espanha no Coração, numa sociedade de defesa da República
Espanhola, que coleta fundos no mundo inteiro para a guerra contra
Franco. Depois, na parte final da guerra, de volta ao trabalho
consular, é ele que consegue o transporte e os vistos para exilar
40 mil combatentes espanhóis junto com suas famílias. Estes
combatentes teriam perecido, não fosse a intervenção do Cônsul
Ricardo Eliézer, já que praticamente derrotados, viam-se cercados
entre o mar e as tropas de Franco. A ida para o Chile, que os
acolherá como segunda pátria, os salva do pelotão de fuzilamento,
em massa.
Biógrafos
críticos de Neruda como José Manuel López de Abiada, nos mostram
que Neruda, na época da guerra, publicou seu primeiro poema
politicamente comprometido, na revista Azul,
bancada pela Aliança de Intelectuais Antifascistas e dirigida
por Rafael Alberti e María Teresa León. Por causa de sua opção
republicana foi alijado do seu cargo diplomático e passou a residir
na França, para defender publicamente a República. Neruda fundou e
dirigiu, ao regressar ao Chile, a Aliança dos Intelectuais para a
Defesa da Cultura. Sua poesia sofre uma mudança significativa de
forma, tornara-se quase coloquial para ser instrumento de transmissão
de suas idéias, de maneira que fosse clara para todos os homens do
povo, ou seja, os trabalhadores e os despossuído (o proletariado,
como fala Marx, aqueles que possuem única e tão somente a sua força
de trabalho para sobreviver, como os metalúrgicos, os mineiros, os
ferroviários). O cotidiano passa a ser tema de sua obra. Nesta fase
se observa um grande humanismo, a sede de justiça, o descuidar de
seus próprios sofrimentos e a solidariedade com os padecimentos
alheios, principalmente o da classe trabalhadora, explorada. Mas
Neruda ainda não é o comunista do PCC, ele diz em uma entrevista
para o Morales Álvares, ao chegar ao Chile em 1937:
No Yo
no soy comunista. Ni socialista. Ni nada.
Soy, simplemente, escritor. Escritor libre, que ama la libertad con
sencillez. Amo al pueblo. Pertenezco a él porque de él vengo. Por
ello soy antifascista. Mi adhesión al pueblo no peca de ortodoxia ni
de sometimiento. (Manuel, 1984, apud,
Abiada, 1987, 232).
Nesta
época, a sua amizade com comunistas assumidos como Alberti, González
Tuñón, Serrano Plaja e Prados, terá uma paulatina e constante
influência. Influência esta que nos permite afirmar que o poema
“España pobre por culpa de los ricos” é um exemplo
evidente da nova concepção marxista nascente: a violência, a
grosseria da linguagem e as imprecações condicionam, em boa parte,
os argumentos materialistas dialéticos: O materialismo dialético,
uma filosofia que casa a dialética hegeliana, do movimento das
contradições como ferramenta de evolução do progresso, com o
materialismo antigo; tentando superar as limitações que o antigo
materialismo possuía, de ver a matéria como algo mecânico e não
explicar, por exemplo, filosoficamente o pensamento, as idéias.
Assim o materialismo dialético tenta harmonizar o melhor de duas
escolas de pensamento, a dialética, que vem da Grécia e que antes
era a arte de argumentar, que vai se transformar em Hegel no
movimento dos contrários, tese-antítese em permanente superação,
mas que sempre esteve a serviço da escola idealista de filosofia;
com a escola materialista de pensamento, a qual começa na Grécia,
com Demócrito, com Leucipo, com Epicuro (de quem Marx era fã) e sua
fixação na matéria, na realidade. Neruda adere completamente ao
materialismo, ainda que sua poesia carregue sempre traços de
metafísica pelo panteísmo de seus versos.
O materialismo
dialético por sua vez leva ao materialismo histórico, que é uma
concepção filosófica que leva a crer que as leis econômicas são
as que regem a sociedade, e que o restante, o jurídico, o
administrativo, a arte, tudo, em última instância se submete à
maneira pela qual uma sociedade está organizada em sua forma e modo
de produção. Que a exploração do homem pelo homem não é
natural, mas dada social e historicamente na sociedade de classe, e
que é possível então se fazer uma passagem para uma sociedade sem
classes através de uma revolução da classe dos despossuídos
(proletariado) contra a classe possuidora (burguesia). Esta revolução
então levaria a uma nova forma de produção, socialismo, cujo
objetivo final é uma sociedade sem classes, comunismo. Neruda aderiu
a estas idéias e passou a defendê-las não só em seus discursos e
escritos políticos, mas, algumas vezes em suas próprias poesias
(Canto Geral).
Nos
poemas de Terceira Residência na Terra, estes elementos já
se encontram presentes no poema Espanha pobre por culpa dos ricos.
É esta evolução, já presente na passagem de Neruda pela
Espanha, que vai se cristalizar, quando o poeta regressar ao Chile e
começar uma prolífica atividade de militante político, os seus
livros e seus poemas farão parte ativa desta militância e Neruda
será perseguido então não só por sua atividade como parlamentar,
mas também por sua atividade artística. O Canto Geral, por exemplo,
ficará, durante anos, proibido no Chile.
4.2 A estética social e socialista de Pablo Neruda
Viemos estudando todos
os passos da evolução do poeta chileno Pablo Neruda. Desde os seus
primeiros poemas juvenis, líricos e panteístas, até a sua fase
místico-erótica-oriental, e chegamos ao momento de virada de seus
textos e sua consciência, à dor profunda, à gota de sangue em suas
páginas, como ele mesmo dizia. A convivência com a geração de 27,
a influência da amizade e da poética de Garcia Lorca (ponto central
desta monografia), o assassinato de Lorca e a morte de outros amigos
de Neruda. A ferida aberta, misturada com a experiência poética
levarão a um corte na obra do poeta. Há o Neruda pré-Espanha e o
Neruda pós-Espanha. Já estudamos a vida e a obra do poeta
anteriormente à sua estada em Madri, depois vimos o drama da guerra
e a confluência poética com os jovens poetas republicanos, agora
estamos desenvolvendo o Neruda marxista, já na sua volta ao Chile,
para entendermos como e qual profundamente foi mudada a poesia
nerudiana.
Neruda,
logo após retornar para o Chile, depois de vivenciar e presenciar a
Segunda Grande Guerra, na Europa, ver a devastação e o papel
da resistência comunista ao nazi-fascismo, toma definitivamente
partido. Filia-se ao PC chileno. Antes de se filiar, em 4 de março
de 1944, Neruda é eleito senador chileno pelas províncias de
Tarapacá e Antofagasta, filia-se ao Partido Comunista em junho,
antes, em maio, havia recebido o prêmio nacional de literatura do
Chile. Em setembro escreve alturas de Macchu Pichu, parte integrante
do seu afamado Canto Geral. Este poema, é um dos mais interessantes
do livro, já que nele podemos confrontar ambos os Nerudas, o velho e
o novo, que convivem nele. Na natureza exuberante de Macchu Picchu o
poeta sente que chegou ao ventre do planeta, se deixa seduzir pelo
magnetismo da última cidadela inca. Então, o poema de resistência,
em um livro de militância é escrito com exuberante panteísmo,
lembrando os versos mais primaveris do Neruda que andava de
locomotiva em Temuco.
Nesta época viaja por
toda América Latina, não só como escritor, mas já como militante
comunista, dando conferências e palestras, participa do comício de
Luís Carlos Prestes em São Januário. Não é mais simplesmente o
poeta Pablo Neruda que participa de atividades políticas, é agora o
senador comunista, o militante Pablo Neruda que também é escritor.
Uma tomada de posição radical que o poeta manterá até o fim da
vida, militando no PC chileno até a morte, logo após a morte de
Salvador Allende, o poeta morre de câncer na próstata, clamando,
nos seus delírios, por seus companheiros assassinados pela ditadura
recém construída de Augusto Pinochet.
As
poesias nerudianas desta época, como Canto Geral, As Uvas e o
Vinho, Barcarola, Versos do Capitão, terão uma temática
social, por vezes mesmo socialista, motivos populares, elegias de
heróis anônimos do povo, uma ligação afetiva com a classe
operária, a louvação de todos os heróis e mártires
latino-americanos (Canto Geral), e chegarão a uma
simplificação estética que levara Neruda quase ao coloquial. Isto
terá uma resposta negativa de parte da crítica, que acusa o poeta
de não fazer arte, mas simplesmente discurso político. Neruda
responde trabalhando, com mais afinco e, consegue, mesmo levando à
frente uma árdua militância política, continuar a publicar novos
poemas e livros. Canto Geral, foi escrito em meio a uma grande
perseguição política, já que em 1948, o Partido Comunista Chileno
foi proibido e Neruda teve sua prisão decretada. Na fuga do Chile,
foi escondido por anônimos heróis do povo, ficando meses escondido
na casa de um simples operário, em Valparaíso. Depois escapou pelos
Andes, com auxílio de militantes do PC Chileno e traficantes.
Terminou sua obra no exílio, publicando o seu livro mais famoso,
Canto Geral, no México em 1950. O livro terá uma recepção
calorosa em toda a América e será vendido no Chile clandestinamente
como um desafio à ditadura.
Devemos,
todavia, notar que mesmo no livro de poemas mais famoso de Neruda,
Canto Geral, o poeta mantém a exuberância das figuras de
linguagem e, ainda que se declarasse materialista, por ser marxista,
dentro desta mesma obra militante vemos de maneira bem clara o
panteísmo vivo de Alturas de Macchu Pichu, ou dos poemas sobre a
origem da América e um lirismo apaixonado quando fala das mulheres
que lutaram pela liberdade da América. O Neruda marxista,
materialista dialético, comunista, o “velho Neruda”, não vai
jamais abrir realmente mão de todo o manancial lírico do jovem
Neruda, os traços do Neruda inicial vão se manter como raízes da
árvore frondosa que se tornou o Neruda maduro. Este é o grande
encanto da poesia nerudiana, manter o frescor da juventude, das
figuras de linguagem, da retórica inicial, não abrir mão da
musicalidade e da beleza, mesmo quando fala de coisas duras, de
agruras como a vida dos mineiros de carvão de Antofagasta.
Isto
levará a que Neruda seja amado pelo povo chileno e visto como algo
mais do que um simples escritor. Sua indicação ao prêmio nobel foi
festejada por todos os chilenos, mesmo os reacionários, não era
somente o poeta das mulheres, mas o poeta de uma nação, que cantava
as alegrias e dores dela, a beleza de sua natureza, a esperança de
um futuro mais justo, a denúncia dos crimes e das injustiças, um
profeta que percorreu todo o Chile para fazer o levantamento de suas
dores e que tentou, a sua maneira, diminuir o lamento dos
trabalhadores. Veja este belo exemplo de sua dedicação ao povo
chileno, extraído de Canto Geral:
Soy nada más que un poeta: os amo a todos,
ando errante por el mundo que amo:
en mi patria encarcelan mineros
y los soldados mandan a los jueces.
Pero yo amo hasta las raíces
de mi pequeño país frío.
Si tuviera que morir mil
veces allí quiero morir:
si tuviera que nacer mil
veces, allí quiero nacer,
(...)No quiero que vuelva la sangre
a empapar el pan, los
frijoles,la música: quiero que venga conmigo el minero, la niña, el
abogado, el marinero,
el fabricante de muñecas,
que entremos al cine y
salgamos a beber el vino más rojo.
Yo no vengo a resolver nada.
Yo vine aquí para cantar y para que cantes conmigo.
(Neruda, 2001, p. 345).
Ironicamente, Neruda
que viu Espanha ser assassinada pelos franquistas, passará por um
processo semelhante na sua terra natal. Em 1973, Salvador Allende seu
amigo pessoal, presidente do Chile é assassinado no Palácio la
Moneda, defendendo o mandato presidencial (a versão oficial fala que
Allende se suicidou). Neruda já estava bastante debilitado e doente.
Neruda já estava debilitado e doente, por esta razão havia
renunciado a seu cargo de embaixador, designado fora antes pelo amigo
Allende, em favor de sua também amiga, Gabriela Mistral. O golpe
militar contra Allende agravou o estado de saúde de Neruda, que, no
entanto, continuou a trabalhar escrevendo denúncias contra o golpe
(que foram salvos da repressão de Pinochet pela esposa de Neruda,
Matilde Urrutia). Com a morte dos amigos amados e esta atividade
forçada sua doença piorou e, nos estertores, em delírio, clamava
pelos amigos assassinados e dizia, los matam a todos! O funeral de
Neruda foi a última manifestação livre no Chile do já
generalíssimo Pinochet. A ditadura não ousou reprimir a
manifestação popular de carinho pelo poeta que era o retrato do
Chile, milhares de pessoas acompanharam o poeta que, como em seu
desejo manifestado em seu poema, foi enterrado no amado solo chileno,
onde mil vezes desejava morrer, onde mil vezes desejava nascer,
eternamente chileno, tesouro nosso, todavia, de todos os que são
povo, pueblo, latino-americano.
5. Conclusão
Neste trabalho ficaram
expostas, de forma cronológica, as várias fases do poeta Pablo
Neruda. Do jovem tímido e metafísico, ao diplomata burocrata no
Oriente, ao Cônsul em Madrid, futuro militante comunista, ficou
traçada a linha de evolução do pensamento do escritor. Como
partimos da afirmação de que a obra de um escritor é influenciada
por sua vida, por suas experiências, sonhos, desejos, alegrias,
frustrações, tramas, realizações, fizemos a co-relação entre as
diversas experiências tidas por Neruda na vida e como elas se
refletiram na sua obra. Mas não só isto, pois senão cairíamos num
biografismo estreito. Mostramos também as influências poéticas, as
escolas, os movimentos de vanguarda da época que vão influenciar a
forma e a estética de Neruda.
Todavia,
uma experiência é central na vida do Poeta. Esta experiência é
sua estada na Espanha, da qual retiramos o poema: Espanha no
Coração, que está colocado no anexo, e que vai demonstrar uma
transformação radical, uma mudança tanto na estética quanto na
temática do poeta, uma nova tomada de rumo. Ligado à Espanha não
só pelas amizades; da qual Garcia Lorca fora preponderante, já que
Neruda o considerava irmão de coração; mas pela arte, Neruda
participará, como se espanhol fora, nos destinos literários da
Geração de 27, chegando mesmo, ele que era chileno, a dirigir uma
das mais importantes publicações modernistas da Espanha, junto com
Rafael Alberti, a revista Caballo Verde.
Esta experiência
estética de mesclar sua poesia latino-americana (que já havia sido
influenciada por Gôngora e Quevedo, leituras juvenis do poeta) com a
poesia mais revolucionária (tanto na forma, quanto no conteúdo) da
Espanha, levará a que os textos nerudianos se aproximem muito, com
relação à forma do poema, aos textos dos escritores modernistas
espanhóis. Dentre estes escritores revolucionários espanhóis, o
mais significativo e influente era, exatamente, o melhor amigo de
Neruda, seu irmão de coração: Federico Garcia Lorca. Desta
amizade, na vida real e literária, surgirá uma influência mútua.
De Lorca, Neruda tomará a poética popular e de cunho social (ainda
que a obra de Garcia Lorca não tivesse cunho socialista), mas também
tomará o verso livre e branco, a musicalidade, o elogio às heróis
anônimos do povo. Como o próprio Neruda falou, a guitarra de
Andaluzia de Lorca continuará a tocar depois da morte do poeta
espanhol, já que seus versos influenciarão toda a sua geração.
Neruda, chileno de nascimento, é espanhol, todavia, em grande parte
de sua poética. Lorca não influenciará somente a Neruda; a Geração
de 27 da Espanha, com certeza ecoará no florescimento da nova poesia
latino-americana, não por coincidência, que acontecerá quase
concomitantemente a esta época.
Ficou
explícito na monografia que o grande marco na vida do poeta, a
estada na Espanha, a Geração de 27, a poesia e a amizade de Lorca,
a Guerra Civil, são catalisadores de uma mudança que desembocará
num Neruda Múltiplo. O Neruda dos Vinte Poemas não é um
Neruda menor ou pior do que o Neruda de A Uva e o Vento, é
somente um poeta mais completo, um poeta que agregou à face lírica
uma outra face, social e política. Não há como deixar de se
emocionar com a beleza estética na forma e no conteúdo dos versos
dos Vinte Poemas, ainda que neles não fique caracterizada
nenhuma militância social. Mas a face lírica, panteísta,
interiorizada de Neruda não sumirá, somente trabalhará em
conjunto, em textos como os do Canto Geral, já que o tempo
inteiro Neruda cantará a natureza com riqueza de adjetivos e com uma
profundidade metafísica.
Ao
contrário do que diziam alguns críticos, a nova face, social e
socialista, de Neruda, herdada da Guerra Civil Espanhola, não
restringiu a visão do poeta; ele não se tornou restrito ou apenas
utilitarista, conseguiu manter o capricho na forma. Continuou a
escrever sobre a mulher, o desejo, a natureza, constantes na sua
temática e ainda acrescentou outras faces, numa poesia realmente de
vanguarda, em odes que foram capazes de louvar até a cebola, uma das
paixões do poeta andino. Pablo Neruda, vimos pela monografia aqui
apresentada, se transforma, se completa, amadurece com a Espanha e
com a influência de Lorca e da Geração de 27, tornando-se o poeta
latino-americano mais influente do século XX, trazendo sempre, em
sua natureza chilena, Espanha no coração.
6. Referência Bibliográfica
Lópes
de Abieda, José Manuel; La experiencia madrileña de
Neruda: su evolución ideológica, el cambio de estética y su
compromiso frente a España, Instituto Cervantes, anales de
literatura española, publicaciones periódicas, nº 5, 1986-1987,
215 pp.
Lorca,
Federico Garcia; Romancero gitano in Obra Poética
Completa; apresentação Ático Villas-Boas da Mota; tradução
William Angel de Mello; edição bilíngüe; 3ª edição – São
Paulo; Martins Fontes, 1999, 637 pp.
Neruda,
Pablo; Para nascer nasci; Tradução de Rolando Roque
da Silva; 8ª edição; Rio de Janeiro; Bertrand Brasil; 1996, 376
pp.
______________;
Cadenos de temuco; texto original e tradução de Thiago de
Melloa, edição e prólogo, Victor Farias, Bertrand Brasil, Rio de
Janeiro, 1998, 139 p.
______________; Vinte
poemas de amor e uma canção desesperada; texto integral e
tradução de Domingos Carvalho da Silva; 23ª edição, Rio de
Janeiro; José Olímpio Editora, 1999, 135 pp.
_______________;
Os versos do capitão; texto integral e tradução de Thiago
de Mello, 4ª edição; Bertrand Brasil; Rio de Janeiro, 2000, 127
pp.
________________;
Memorial de isla negra; Editorial Oveja Negra; 1982, Bogotá, 153
p.
________________;
Residência na terra; tradução de Paulo Mendes Campos;
edição bilíngüe; L&PM Pocket; Porto Alegre, 1998, 185 pp.
_________________
Barcarola; Tradução de Olga Savary; L&PM Pocket; Porto
Alegre; setembro 2004, 210 pp.
_________________;
Confieso que he vivido, Pehuén Editores, Santiago – Chile,
primeira edición, julio de 2005, 415 pp.
__________________; Canto
Geral, Bertrand Editores Brasil, Rio de Janeiro, 200, 584 pp.
Rovira,
José Carlos; Para leer a Pablo Neruda, Madrid, Palas
Atenea, 1991, 85 pp.
Yurkievich,
Saúl; in A través de la Trama, in Muchnik
Editores, Santiago, 1984, 115 pp.
7. ANEXOS
Trecho de Rovira, José
Carlos; Para leer a Pablo Neruda, Madrid, Palas Atenea, 1991, p.36.
En el principio fue la
soledad de Temuco, la estación de ferrocarril donde trabajaba su
padre, la costa cercana de puerto Saavedra, la naturaleza
deshabitada, la flor del copihue, el ruido de los trenes o su
silencio, el rumor del mar o todos los sonidos de la naturaleza,
agolpados a las palabras que se van aprendiendo para llamar a cada
cosa por su nombre. (...) La infancia en Temuco es un aprendizaje de
soledad y naturaleza; (...) En Confieso que he vivido narró el poeta
ampliamente todas las sorpresas de aquella infancia: la naturaleza
que le provoca «una especie de embriaguez», los pájaros y su
canto, los insectos, o los juegos infantiles. (...) La narración de
infancia tiene un bellísimo momento en su primera llegada al mar, en
un vapor a lo largo del río Imperial: (....)«Cuando estuve por
primera vez frente al océano quedé sobrecogido. Allí entre dos
grandes cerros (el Huilque y el Maule) se desarrollaba la furia del
gran mar. No sólo eran las inmensas olas nevadas que se levantaban a
muchos metros sobre nuestras cabezas, sino un estruendo de corazón
colosal la palpitación del universo».
Pablo Neruda es un poeta
que ha reflexionado ampliamente sobre su poesía y sobre su
biografía, hasta el punto de resultar imprescindibles sus textos en
prosa para adentrarnos en su mundo poético. (...) De los textos
anteriores surge la imagen de un adolescente débil, ensimismado,
solitario, en continua sorpresa ante diferentes naturalezas que se
sitúan ante sus ojos. La prehistoria poética de Neruda se
desarrolla además en clave de soledad, tristeza, amargura, dolor,
desesperación, etc., como contraseñas adolescentes de mundo poético
que se gesta también en re ación a un referente continuo de la
naturaleza (mar, lluvia, insectos, etc.).
Entre 1920 y 1923 se
genera Crepusculario, cuyas resonancias, desde el título, al
modernismo y al decadentismo europeo son evidentes. El tiempo
biográfico de Crepusculario (Santiago, ediciones Claridad, 1923)
coincide con el final de su estancia en Temuco y su traslado a
Santiago para seguir estudios de francés en el Instituto Pedagógico.
Se trata de una obra que está plenamente integrada en un mundo
adolescente de sensaciones que quieren dar cuenta del propio vivir
(...). En 1923, Neruda escribe El hondero entusiasta, que se
publicará sin embargo diez años más tarde. El poeta narró las
circunstancias de creación de la obra años después: «En 1923,
tuve una curiosa experiencia. Había vuelto tarde a mi casa en
Temuco. Era más de medianoche. Antes de acostarme, abrí las
ventanas de mi cuarto. El cielo me deslumbró. Era una multitud
pululante de estrellas. Vivía todo el cielo. La noche estaba recién
lavada, y las estrellas antárticas se desplegaban sobre mi cabeza.
Me agarró una embriaguez de estrellas, sentí un golpe celeste. Como
poseído, corrí a mi mesa, y apenas tuve tiempo de escribir, como si
recibiera un dictado. Al día siguiente, leí, lleno de gozo, mi
poema nocturno. Es el primero de El hondero entusiasta... Me movía
en una nueva forma como nadando en mis verdaderas aguas. Estaba
enamorado y a El hondero... siguieron torrentes y ríos de versos
amorosos...». En 1925 aparece en la Editorial Nascimento Tentativa
de hombre infinito, que es la obra que cierra este conjunto de
incitaciones poéticas que conforman la prehistoria nerudiana. En
Tentativa aparece claramente diseñado un mundo propio y
profundamente original que, en alguna medida, cumple el papel de
génesis del lenguaje de las Residencias. La obra es un conjunto de
fragmentos mediante los que el poeta nos entrega una parcela de su
mundo de la infancia, de su naturaleza, junto a la conciencia de su
enfrentamiento con el espacio y el tiempo.
La construcción poética
inicial, con el desarrollo de los primeros mitos poéticos, se
realiza al tiempo que la escritura del amor juvenil, intensificada en
el momento esencial de su estancia en Santiago. En 1924, en junio, la
editorial Nascimento de Santiago publica los Veinte poemas de amor y
una canción desesperada, libro escrito a lo largo de 1923 en su
mayor parte, del que habían aparecido ya algunos poemas en la
revista Claridad. Los Veinte poemas significan, sobre todo, un
ejemplo para entender la fortuna literaria de Neruda, su conexión en
1924 con una sensibilidad adolescente y posromántica, una relación
con el lector que el tiempo se habría de encargar de acrecentar.”
Trecho de Saúl
Yurkievich, in A través de la Trama, in Muchnik Editores, Santiago,
1984, p.87.
Residencia en la tierra
integra, junto con Trilce de César Vallejo y Altazor de Vicente
Huidobro, la tríada de libros fundamentales de la primera vanguardia
literaria en Hispanoamérica. Posee todos los atributos que
caracterizan a la ruptura vanguardista. Surge íntimamente ligado a
la noción de crisis generalizada y, promueve un corte radical con el
pasado. Participa en la renovación profunda de las concepciones, las
conductas y las realizaciones artísticas. Cambio de percepto y
cambio de precepto van a la par. Neruda acomete una revolución
instrumental porque promueve una revolución mental. Su arte impugna
la imagen tradicional del mundo, contraviene sobre todo la altivez
teocéntrica y la vanidad antropocéntrica del humanismo idealista; e
impugna el mundo de la imagen: la mímesis realista, la visión
perspectivista, la representación progresiva y cohesiva, la
figuración simétrico-extensiva, la composición concertante, la
expresión estilizada, el arte de la totalidad armónica
(...) Residencia en la
tierra se ocupa de una mudanza íntima, de un cambio de mentalidad
que conlleva una crisis raigal de valores. Refleja ese estallido de
los marcos familiares, de vida y de referencia que trastorna la
estabilidad del orden preindustrial (comarcano, aldeano, rural,
artesanal), que trastoca el mundo solariego de las relaciones
personalizadas, las solidaridades seculares de la comunidad local
sometidas ahora al embate de un proceso que masifica y uniformiza
aceleradamente. Neruda no adhiere a la modernolatría futurista, no
participa de la vanguardia eufórica (la del primer Huidobro, la de
los ultraístas), aquella que alaba las conquistas del mundo moderno,
la que asume los imperativos del programa tecnológico. (...) Aunque
ella aparezca a veces, en la literalidad, se manifieste en la
ambientación de ciertos poemas donde tierra baldía equivale a
contexto urbano, no vale la pena inventariar en Neruda los signos de
contemporaneidad explícita. Su modernidad, como la de Vallejo, está
interiorizada. Hay que buscarla en su tumor de conciencia, en su
representación de la vida fraccionada, del hombre escindido que
sufre un doloroso divorcio entre mente y mundo. Su modernidad se
detecta en las relaciones dislocadas por una angustiosa inadaptación
a la precariedad, a la insignificancia, a la intrascendencia de una
vida alineada, acechada por las incertidumbres fundamentales (origen,
condición, destino, sentido).
Desde el comienzo,
Residencia en la tierra dice acerca de la sumergida lentitud, de lo
informe, de lo confuso pesando, haciéndose polvo, del rodeo
constante, del vasto desorden, de naufragio en el vacío. Dice la
astenia, la duración átona, la pura espectativa de una existencia
expectante sólo con respecto a su propio existir, sumida por la
lasitud en días de débil tejido -acaecer que no se entrama, que no
se tensa-, entre materias desvencijadas. Esta existencia está
desnuda, fuera del orbe laboral, de toda motivación utilitaria, sin
razón suficiente, abierta a su circunstancia solitaria, a un
acontecer sin conexión, sin cauce, no encausado, no conduscente.
Trecho do livro, Terceira
Residência, de Pablo Neruda, p.57.
España en el Corazón
“España en el corazón
Explico algunas cosas
Preguntaréis: ¿Y dónde
están las lilas?
¿Y la metafísica
cubierta de amapolas?
¿Y la lluvia que a
menudo golpeaba
sus palabras llenándolas
de agujeros y pájaros?
Os voy a contar todo lo
que me pasa.
Yo vivía en un barrio de
Madrid, con campanas,
con relojes, con árboles.
Desde allí se veía el
rostro seco de Castilla
como un océano de cuero.
Mi casa era llamada la
casa de las flores,
porque por todas partes
estallaban geranios:
era una bella casa con
perros y chiquillos.
Raúl, ¿te acuerdas?
¿Te acuerdas, Rafael?
Federico, ¿te acuerdas
debajo de la tierra,
te acuerdas de mi casa
con balcones en donde
la luz de junio ahogaba
flores en tu boca?
¡Hermano, hermano!
Todo eran grandes voces,
sal de mercaderías,
aglomeraciones de pan
palpitante,
mercados de mi barrio de
Argüelles con su estatua
como un tintero pálido
entre las merluzas:
el aceite llegaba a las
cucharas,
un profundo latido de
pies y manos llenaba las calles,
metros, litros, esencia
aguda de la vida,
pescados hacinados,
contextura de techos con
sol frío
en el cual la flecha se
fatiga,
delirante marfil fino de
las patatas,
tomates repetidos hasta
el mar.
Y una mañana todo estaba
ardiendo
y una mañana las
hogueras
salían de la tierra
devorando seres,
y desde entonces fuego,
pólvora desde entonces,
y desde entonces sangre.
Bandidos con aviones y
con moros,
bandidos con sortijas y
duquesas,
bandidos con frailes
negros bendiciendo
venían por el cielo a
matar niños,
y por las calles la
sangre de los niños
corría simplemente, como
sangre de niños.
¡Chacales que el chacal
rechazaría,
piedras que el cardo seco
mordería escupiendo,
víboras que las víboras
odiarían!
¡Frente a vosotros he
visto la sangre
de España levantarse
para ahogaros en una sola ola
de orgullo y de
cuchillos!
Generales traidores:
mirad mi casa muerta,
mirad España rota:
pero de cada casa muerta
sale metal ardiendo en vez de flores,
pero de cada hueco de
España sale España,
pero de cada niño muerto
sale un fusil con ojos,
pero de cada crimen nacen
balas
que os hallarán un día
el sitio del corazón.”
Preguntaréis: ¿por qué
su poesía no nos habla del sueño, de las hojas,
de los grandes volcanes
de su país natal?
¡Venid a ver la sangre
por las calles,
venid a ver la sangre por
las calles,
venid a ver la sangre por
las calles!
Un blog prometedor, Roberto, porque veo que eres un profesor interesado en la investigación literaria e histórica y eso, siempre, da categoría a un curso de español. Tu monografía seguro que tendrá una recepción muy importante gracias a que lo has colocado en tu blog. me gusta mucho, promete que será un vehículo para los filólogos que navegamos en la Red. Yo también he trabajado ese período, y algo encontrarás en mi blog. Debes intentar probar recursos digitales, introducir fotos, diapositivas, audios... porque en la Red encontrarás muchos documentos de diversos formatos súper atractivos para tu área de investigación.
ResponderExcluirNecesito que publiques tu Plan de trabajo en el blog, para comentarlo. Avísame cuanto antes para evaluarte.