A Influência de Garcia Lorca e
Antonio Machado na Evolução da poesia de Pablo Neruda
Fundamentação Teórica:
Este trabalho tem como objetivo mostrar o salto qualitativo na vida e
na política de Pablo Neruda após sua estada na Espanha. A
influência que os poetas republicanos e modernistas espanhóis terão
em Neftali Eliécer Ricardo Reyes Basoalto: modificarão o modo de
Neruda ver e pensar o mundo. Como a obra de um escritor é reflexo de
se modus vivendi, a revolução no espírito de Neruda causada pela
Guerra Civil Espanhola vai resultar numa revolução de sua poética,
tanto na forma, quanto no conteúdo. José Carlos Rovira1
assinala que a poesia de Neruda é vítima de um tempo implacável
(que levará à morte alguns de seus companheiros de letras
espanhóis, assassinados ou tombados em combate), que a partir de seu
contato com eles, sofrerá, o poeta chileno, uma ruptura estilística;
a poesia tende a se fazer coloquial e imaginativa, se afinca em uma
realidade histórica e constrói as imagens de maneira realista e
ideológica – o poeta assume sua militância no Partido Comunista e
cria uma parte de sua poesia a partir destes pressupostos.
Assim, Lopez de Abiada2
observa que Espanha tem, nas memórias e na biografia do poeta, mais
citações que qualquer outro lugar, excetuando-se o Chile. Esta
influência de Espanha se observa nas próprias palavras de Neruda,
em Para Nascer Nasci3,
quando fala da morte do amigo, Federico Garcia Lorca: “Há dois
Federicos, o da verdade e o da lenda. E os dois são um só. Há três
Federicos, o da poesia, o da vida e o da morte. E os três são um só
ser. Há cem Federicos, e todos eles cantam. Há Federicos para todo
o mundo. A poesia, sua vida e sua morte se repartiam pela terra. Seu
canto e seu sangue se multiplicam em cada ser humano. Sua curta vida
cresce e cresce. Seu coração destruído estava repleto de sementes:
não saberão os que o assassinaram que estavam a semeá-lo, que
deitaram raízes, que continuaria florescendo em todos os lugares, em
todos os idiomas, cada vez mais sonoro, cada vez mais vivente".
O coração assassinado de Lorca continuou a bater no coração
poético de seu grande amigo, Neruda. Fica claro que, quer seja na
biografia escrita por terceiros sobre Pablo, que seja em sua
autobiografia, ele jamais nega, antes reafirma e incorpora Espanha
Republicana e seus poetas como Lorca, Miguel Hernandes, Antonio
Machado, como influências palpáveis do caminho poético de Pablo
Neruda.
Para ratificar, na citada obra de Lopez de Abiada, há uma carta de
Neruda, entregue em Paris, a Ángela Figueira Aymerich. Nesta carta,
datada de 27 de setembro de 1957, Neruda escreve:
“Queridos poetas españoles, aquí me
tienen muy cerca de la tierra española y lleno de sufrimientos por
no verla y tocarla. Soy un desterrado especial, vivo soñando con
España, con la grande y la mínima, la del mapa y la de las
callejuelas, soñando con todo el amor que entre vosotros dejé, un
desterrado que sólo puede acercarse al aire que perdió. Cuántas
veces, de noche, el avión que me conducía lejos sobrevoló vuestra
tierra, y yo, acongojado, traté de descifrar las luces que, como
luciérnagas, brillaban allá abajo. Eran casas perdidas, pueblos
sumergidos, montes oscuros, y, tal vez, rostros amados que no volveré
a ver. Mi corazón, allí arriba, volando sintió de nuevo la tierra
magnética y se llenó de lágrimas. Poetas españoles, nos ha
separado un frío cruel y años pasados como siglos. Nosotros, poetas
americanos, queremos renovar la fraternidad y la continuidad de
nuestra paralela poesía. Hemos sido separados por errores propios y
ajenos, por profundos dolores, por un silencio imposible. La poesía
debe volver a unirnos. La poesía debe reconstruir los vínculos
rotos, reestablecer la amistad y elevar universalmente nuestro canto.
Tal es nuestra tarea. A ella me daré entre mis pueblos. Vosotros
diréis vuestra palabra. Y habremos dado así el primer paso, que no
por tardío será menos fecundo. Va en este papel mi afecto fraternal
y mi confianza en la poesía y en el honor de los poetas.”
Em outra entrevista, com Antonio Collinas, Neruda Voltará a falar de
Espanha, e se mostra aborrecido porque alguns poetas espanhóis o
tenham tachado de antiespanhol (uma alusão a acusações de Panero,
Ridruejo e Rosales, certamente motivados por questões ideológicas):
“¿Qué puedo yo decir de España, de sus hombres, de sus
tierras? España es una parte muy importante en mi vida: una parte
extraordinariamente grave, profunda y decisiva en mi historia
personal. Y uno de los reproches -de los muchos reproches [...]- es
que me llamen antiespañol. Esta es una confusión
lamentable. Una cosa es lo que yo siento por España, por sus hombres
y por sus tierras y otra cosa es lo que siento por algunos matices de
la vida y de la historia de España. Eso es otra cosa. A lo largo de
toda la historia de España -como a lo largo de la historia de todas
las naciones sin excepción- hay partes que son predilectas y hay
partes que son desagradables. Esto es algo que sentirán los mismos
españoles. Y naturalmente en la historia de los hombres existe
natural, individual y nacionalmente tal discriminación. Pero mi
apego, y mi comprensión, y mi amor hacia España es para mí una
cosa absolutamente indiscutible. Por eso me molesta que me reprochen
lo contrario.”
Na verdade o que se censurava em Neruda não
era seu antiespanholismo; antifranquista e republicano convicto,
Neruda recebia uma censura política por suas convicções
socialistas trazidas da Espanha (por conta disto vai passar a ser
perseguido e chega a ser exilado quando retorna ao Chile). Como
observa Hernán Loyola, citado por Lopez de Abiada4,
Neruda é uma testemunha que expõe os fatos, nomeia criminosos,
relata, denuncia, que pede atenção para todos os martírios
espanhóis e que exige castigos do céu e da terra para os traidores.
Este trabalho começa mostrando a influência indelével que a
experiência espanhola teve na vida de Pablo Neruda, nos falta ainda
pontuar duas coisas: como era o Neruda Pré-Espanha em sua poesia,
como a poesia espanhola, principalmente a de Lorca e Antonio Machado,
os principais expoentes do modernismo republicano, vão influenciar
na obra do Neruda Pós-Espanha.
Neruda Pré-Espanha
Neruda Pré-Espanha é um poeta metafísico, quase panteístico (com
alguma influencia de sua mestra na infância, também premio Nobel de
literatura, Gabriela Mistral), com inspiração na natureza e na
mulher, com muito talento mas com nenhuma preocupação social. Veja
este texto de Proêmio, de Cadernos de Temuco5:
“Uma rota de sol
E uma luz
E um roseiral.
Nada mais eu pedia
e naquela inquietude
pousaram as sedas da minha branda canção”.
Ou a lírica, na qual não se oculta o panteísmo, na comparação da
mulher com a natureza, em seu Vinte Poemas de Amor e Uma Canção
Desesperada6:
“Casi fuera del cielo ancla entre dos montañas
la mitad de la luna.
Girante, errante noche, la cavadora de ojos.
A ver cuántas estrellas trizadas en la charca.
Hace una cruz de luto entre mis cejas, huye.
Fragua de metales azules, noches de las calladas luchas,
mi corazón da vueltas como un volante loco.
Niña venida de tan lejos, traída de tan lejos,
a veces fulgurece su mirada debajo del cielo.
Quejumbre, tempestad, remolino de furia,
cruza encima de mi corazón, sin detenerte.
Viento de los sepulcros acarrea, destroza, dispersa tu raíz
soñolienta.
Desarraiga los grandes árboles al otro lado de ella.
Pero tú, clara niña, pregunta de humo, espiga.
Era la que iba formando el viento con hojas iluminadas.
Detrás de las montañas nocturnas, blanco lirio de incendio,
ah nada puedo decir! Era hecha de todas las cosas.(...)”
Estes belos versos, despolitizados, é verdade, mostravam um Neruda
que não era pior que o Neruda Pós-Espanha. Os versos de Vinte
Poemas estão dentre os melhores de Neruda, ainda que neles cantem
traços românticos tardios, gongóricos, panteístas. Não é um
Neruda menor, é um poeta diferente, um escritor ainda incompleto,
que tinha apenas a face lírica, faltava-lhe, ainda, a face social,
política, inspirada no marxismo. Senão, vejamos este texto retirado
de Os Versos do Capitão7,
escritos depois da Guerra Civil Espanhola.
“El Amor del Soldado
En plena Guerra Civil te llevo la vida
A ser el amor del soldado
Con tu pobre vestido de seda,
Tus uñas de piedra falsa
Te toco caminar por el fuego.
Ven acá vagabunda,
ven a beber sobre mi pecho
rojo rocío.
No querías saber donde andabas,
eras la compañera de baile,
no tenías partido ni patría.
Y ahora a mi lado caminando
Ves que conmigo va la vida
Y que detrás esta la muerte.
Ya no puedes volver a bailar
Con tu traje de seda en sala.
Te vas a romper los zapatos,
Pero vas a crecer en la marcha.
Tienes que andar sobre las espinas
Dejando gotas de sangre.
Besame de nuevo, querida.
Limpia ese fuzil, camarada.”
Para José Carlos Rovira8,
a construção poética inicial de Pablo Neruda (de Cadernos de
Temuco a Residência na Terra I), com o desenvolvimento dos mitos
poéticos iniciais, realiza-se no tempo dos seus amores juvenis,
intensificada no momento essencial da passagem dele em Santiago. Em
1924 a editorial Nascimento de Santiago publica os Vinte Poemas, no
qual uma sensibilidade adolescente e pós-romântica, numa relação
com o leitor que o tempo haveria de aprimorar, com influências que
vão de Gabriela Mistral a Gôngora e Quevedo. Ainda não é o Neruda
moderno e pós-moderno que nascera em Espanha no Coração.
Evolução que o próprio poeta reconhecerá em Memorial de
Isla Negra9
e Residência na Terra III10.
“El mundo ha cambiado y me poesía ha cambiado. Una gota de
sangre caído en estas líneas quedará viviendo sobre ellas,
indeleble como el amor.”
“ A mi patría llegue con otros ojos
Que la guerra me puso
debajo de los mios
Otros ojos quemados
en la hoguera,
salpicados
Por llanto mio y sangre de los otros.”
Constata-se, claramente, como assevera Rovira, não só a mudança na
temática, com o comprometimento político do poeta com a Guerra
Civil Espanhola; mas também, na forma: os versos cada vez mais
soltos, livres, quase em prosa. Um Neruda modernista, claramente
influenciado pelos modernistas espanhóis, capaz de compor um poema
elogioso a um bandido (Joaquim Murieta, na Barcarola11,
numa inspiração bem clara de Federico Garcia Lorca e suas
elegias à vida fora da lei dos ciganos.
Neruda e Lorca
A influência da obra de Federico Garcia Lorca (principal poeta
republicano espanhol, covardemente fuzilado pelos fascistas, por ser
“rojo y maricas”, e depois jogado numa vala coletiva – até
hoje o corpo dele não foi encontrado) é confessada por Neruda em
Para Nascer Nasci12:
“Assim como desde o tempo de Gôngora e Lope não voltara a
aparecer na Espanha tanto elán criador, tanta mobilidade de forma e
linguagem, desde esse tempo em que os espanhóis do povo beijavam o
hábito de Lope de Vega, não se conheceu em língua espanhola uma
sedução tão popular tão imensa dirigida a um poeta. Tudo o que
tocava, mesmo nas escalas de esteticismo misterioso, ao qual como
grande poeta letrado não podia renunciar, sem trair-se, tudo que
tocava, enchia-se de profundas essências de sons que chegava até o
fundo das multidões. Quando mencionei a palavra esteticismo, não
nos equivoquemos: Garcia Lorca era o antiesteta, neste sentido de
encher sua poesia e seu teatro de dramas humanos originais do
mistério poético. O povo, com maravilhosa intuição, apodera-se de
sua poesia que já cana e se cantava como anônima nas aldeias da
Andaluzia, mas ele não se lisonjeava em si mesmo esta tendência
para se beneficiar, longe disto: buscava uma avidez, dentro e fora de
si.
Seu antiesteticismo é, talvez a origem de sua enorme popularidade
na América. Desta geração brilhante de poetas como Alberti,
Altolaguirre, Cernuda, etc, ele foi, talvez, o único sobre o qual a
sombra de Gôngora não exerceu o domínio que em 1927 esterilizou
esteticamente a poesia jovem da Espanha (...)”
Esta admiração confessa de Neruda pelo grande amigo, Federico
Lorca, refletirá na vida de Neftali, na temática (popular, às
vezes mesmo mitológica e lendária, indianista) e na poesia (livre,
solta, descompromissada em métrica e rima, por vezes; outras musical
como o Romancero Gitano13
de Lorca):
“Si vinieron los gitanos,
harian con tu corazón
Collares y anillos blancos
Niño dejadme que baile.
Cuando vengan los gitanos
Te encontrarán sobre el yunque
Con los ojillos cerrados.
Te encontrarán sobre el yunque
Con los ojillos cerrados.
Huye luna, luna, luna
Que ya siento sus caballos.
Niño, dejadme, no pises
Mi blanco almidonado.”
Compare com a Barcarola:14
“Ai, canta guitarra do sul na chuva, no sol lancinante
Que lambe os carvalhos queimados pintando-lhes as asas.
Ai, canta racimo de selvas, a terra empapada, os rápidos rios,
O inacabável silêncio da primavera molhada
E que tua canção me devolva a prática em perigo:
Que corram as cordas no vento estrangeiro
Porque meu sangue circula no meu canto se cantas.
Se cantas, ó pátria terrível, no centro dos terremotos
Porque assim necessitas de mim, ressurgida
Porque canta tua boca em minha boca e só o amor ressuscita.
Não sei se morreste e morri: espero sabê-lo e canto este canto.”
O cante jondo, a viola cigana de Lorca, continua ressoando na viola
chilensis de Neruda. Transportada da Andaluzia para os Andes, ganhou
nova roupagem, novo tempero, novo ritmo, mas nunca renegou sua
ascendência.
Para Ático Villas Boas da Silva15,
“Lorca estava acima de todos os seguidores dos ismos estéticos
literários, pelo simples fato de se postar acima das
camisas-de-força de cada um daqueles movimentos. Versátil, sabia
aproveitar praticamente as lições de quase todas as tendências e
escolas literárias para desembocar no artesanato da palavra, seu
ofício maior.” Da mesma maneira, Neruda, seu amigo e companheiro
(Lorca fora fuzilado por ser “rojo y maricas”), vai percorrer o
mesmo caminho, de ecletismo acima dos ismos literários, aproveitando
o exemplo precursor de Federico.
Neruda e Antônio Machado
As influências de Antônio Machado na obra de Neruda não são tão
extensas e profundas como as de Garcia Lorca, nem por isto deixam de
ter importância, na avaliação do significado da Espanha no poeta
chileno, se queremos analisar a transposição, uma espécie de
antropofagia (tomando de empréstimo a tese Oswaldiana) nerudiana, da
poesia republicana modernista espanhola, para o solo latino-americano
(e, dialeticamente, depois influenciando a nova geração de poetas
espanhóis), na criação de uma poesia genuinamente, em tema e
forma, latino-americana (assim como outras influências, como Rafael
Alberti, Miguel Hernandes). A influência de Antônio Machado, que
tinha uma poesia panteística e melancólica, como o Neruda inicial,
fica claro em Alturas de Macchu Picchu, parte importante do
Canto General16,
no qual o canto da natureza tem a revivescência de sua poesia
panteísta, numa tentativa muito próxima a apresentada por Antonio
Machado na Espanha e pela compatriota de Neruda, Gabriela Mistral.
Veja o que José Antônio Serrano Seguro fala da obra de Antônio
Machado17,
sobre o panteísmo, a influência da natureza no intimismo do poeta
(o elo que o une à poética de Neruda).
“En ese proceso de identificación del alma con las cosas del
mundo, adquieren especial relevancia en la poesía de Antonio Machado
los elementos que conforman el paisaje. En su paso por el tiempo
—decíamos— el poeta (el hombre) se relaciona con las cosas, y
éstas —el río, los árboles, el atardecer— adquieren un sentido
nuevo, personal, en relación con la experiencia vivida en torno a
ellas. Se transfiguran en espejo que refleja los estados del alma.
Recuérdese, por ejemplo, las distintas significaciones que pueden
sugerir los árboles. En este sentido, puede ser particularmente
significativo el proceso que “sufre” uno de estos elementos en su
trayectoria poética. Nos referimos al olmo. Las primeras referencias
que hace a este árbol son meramente denotativas de su presencia en
los parques. En el poema A un olmo seco se inicia el proceso de
identificación de su alma con dicho árbol, que continuará de forma
más o menos implícita en otros poemas:
¿Dará sus verdes hojas el olmo aquel del Duero?
¿Tienen los viejos olmos algunas hojas nuevas(...)
De los parques las olmeda
son las buenas arboledas
que nos han visto jugar,
cuando eran nuestros cabellos
rubios y, con nieve en ellos,
nos han de ver meditar.”
Vejamos agora a natureza vista como continuidade da subjetividade de
Neruda, em Alturas de Macchu Picchu, no qual a apologia
incaica é desenvolvida como parte da interioridade do poeta:
“Del aire al aire, como una rede vacía,
iba yo entre las calles y la atmosfera, llegando y despidiendo
en el advenimiento del otoño la moneda extendida
de las hojas, y entre las primaveras y las espigas
lo que el más grande amor, como dentro de un guante
que cae, que nos entrega como una larga luna.
Días de fulgor en la intemperie
De los cuerpos: aceros convertidos
al silencio del ácido:
noches deshilachadas hasta la última harina.
estambres agredidos de la patria nupcial”
estambres agredidos de la patria nupcial”
Ou como em outra paisagem do Canto General:
“Tierra nocturna, a mi ventana
llegabas con tus lábios
para que yo durmiera dulcemente
como cayendo sobre miles de hojas,
de estación a estación, de nido a nido,
de rama a rama, hasta quedarse de pronto
dormido como muerto en tus raíces.”
Se depara em Neruda com o mesmo canto de amor á pátria, não como
entidade territorial e política, mas sim como terra, berço, lugar
de nascimento, das recordações de infância, dos amores, das
amizades, da mesma maneira que é cantada Espanha na poesia de
Antônio Machado. Peguemos mais um exemplo deste para continuar a
tecer comparações:
“La calma és infinita en la desierta plaza,
donde pasea el alma su traza de alma en pena.
El agua brota y brota en la marmórea taza.
En todo el aire en sombra no mas que el agua suena”
Ou nesta:
“Como una pompa de jabón al viento
Desgarrada la nube; el arco iris
brillando ya en el cielo,
y en un fanal de lluvia
y en sol el campo envuelto.
Desperté. ¿quién enturbía
los mágicos cristales de mi sueño?
Mi corazón latía
atónito y disperso.
El limonar florido,
el cipresal del huerto
el prado verde, el sol, el agua, el iris.
¡El agua en tus cabellos!
Y todo en la memoría se perdía
como una pompa de jabón al viento.
Nesta amostra, fica claro que ao lado do panteísmo, do louvor à
natureza, o derramamento lírico comum a ambos, pós-romântico, é
um tração de atração entre a obra nerudiana e a de Machado. Para
Giusepe Bellini18;
o panteísmo de Neruda, perdura mesmo depois de sua adesão à causa
comunista (como o do Republicano e socialista Antônio Machado). “En
las odas elementales, celebrando las cosas minúsculas de lo creado,
animales, insectos, piedras, mientras afirma el valor de la
creacción, del significado, de la sencillez, de la pura belleza, se
abre paso también la nota del dolor humano. Frente a los elementos
impertubables y eternos, el océano, las piedras, el tiempo, se
encuentran todo el universo destinado a la destrucción, que ni la
bondad, ni la belleza pueden preservar”. Esta caracterização
da obra de Neruda, incluindo o pessimismo, bem podia ser, com
pequenas diferenças de nuanças, a caracterização da obra de
Antônio Machado.
Por ironia do destino, ambos tiveram destino semelhante: Primeiro
Antonio Machado, enfermo, fugindo do fascismo, em precárias
condições, na fronteira francesa e, desgostoso com a morte dos
amigos fuzilados pelos fascistas, ele não sobrevive à queda do
Regime Republicano assassinado e morre poucos dias depois de chegar
ao exílio. Neruda, também doente, de câncer na próstata, teve seu
fim acelerado pela ascensão da ditadura fascista de Augusto
Pinochet. A invasão do Palácio La Moneda, com o fuzilamento do seu
amigo Allende, o assassinato de vários amigos nos combates de rua, o
fuzilamento de Victor Jarra levaram Neruda a um infarto. Dizem que
nos estertores, Neruda agonizava dizendo: “los matan, los matan a
todos”. Dificilmente Neruda conseguiria resistir ao esfacelamento
do sonho de um Chile socialista e democrático, assassinado, como foi
a Espanha Republicana, por uma ditadura fascista. Suas casas de Isla
Grande e La Chascona foram saqueadas e livros e memórias foram
queimados. Seu funeral foi um imenso protesto contra a ditadura ao
qual as pessoas afluíram em massa.
À Guisa de Conclusão
Esta justificativa, aparentemente extensa, é pequena diante do
material compulsado (pequena parte do que ainda há a investigar). A
extensa obra de Neruda, mais as obras de Lorca e Antonio Machado, e
toda a crítica literária destas obras que serve para embasar as
comparações pertinentes a este trabalho, fora a parte bibliográfica
e histórica sobre os três, já que as idiossicrâncias pessoais têm
de ser levadas em conta nas análises, levaram a que a justificativa
virasse um mini-roteiro, uma pré-monografia. Assim, fica de guia
para a empreitada futura, que nascerá desta temática e da
metodologia comparativa adotada.
Por esta sintética análise encontramos primeiro um Neruda jovem,
metafísico, lírico e mesmo ultra e pós-romântico, com traços de
Gôngora e Quevedo e alguma influência de Gabriela Mistral. A partir
deste jovem Neruda, há um momento de transformação, de salto
qualitativo, como a lagarta na crisálida: a passagem de Neruda como
cônsul na Espanha, sua amizade com Lorca, Miguel Hernandez, Rafael
Alberti, toda a jovem poesia espanhola, fora o conhecimento dos
movimentos literários vigentes àquela época. Para usar da
linguagem dialética-marxista (que se tornará, mais tarde, a
ideologia Nerudiana), a acumulação quantitativa de conhecimentos e
experiências, levará ao salto, à transformação em Neruda, que se
vislumbrará tanto na forma quanto no conteúdo.
Se Pablo Neruda, mesmo após a experiência ibérica mantém ainda um
certo panteísmo, este não o levará mais a extremos metafísicos e
românticos, mas ao reencontro com o povo (Giusepe Bellini19).
Neruda manterá, até a morte, sua face lírica, todavia sem o
desespero e a ingenuidade de outras épocas. A guerra, a morte de
seus amigos (como Federico Garcia Lorca, covardemente fuzilado), o
levará ao comprometimento político social. Tornar-se-á comunista,
filiar-se-á ao PCC – Partido Comunista Chileno. Na métrica, como
Lorca, a poesia de Neruda várias vezes adotará a liberdade na
métrica, o poema prosa quase teatralizado, os temas populares. É um
Pablo moderno e pós-moderno, que além de todos os ismos, cria uma
poética própria, Nerudiana, que influenciará toda poética
latino-americana (e mesmo espanhola) subseqüente.
Terminamos parafraseando as palavras de Lopez de Abiada20,
quando afirma que la influência dos poetas espanhóis sobre Neruda
não é simplesmente sua mudança de posição política, seu
ingresso no PCC ou filiação ideológica, é bem mais profundo do
que isto, reflete uma mudança de rumos e temática que o guiará até
o fim da vida. Espanha perdurará em Neruda até a morte.
1Rovira,
José Carlos; Para Leer a Pablo Neruda, Madrid, Palas Atenea, 1991,
www.cervantesvirtual.com,
bib_autor, Neruda, Biografia.
2Lópes
de Abieda, José Manuel; La experiencia madrileña de Neruda: su
evolución ideológica, el cambio de estética y su compromiso
frente a España, www.cervantesvirtual.com,
hemeroteca, anales de literatura española, publicaciones
periódicas, nº 5, 1986-1987.
3Neruda,
Pablo; Para Nascer Nasci; Tradução de Rolando Roque da Silva; 8ª
edição; Rio de Janeiro; Bertrand Brasil; 1996.
4Lopes
de Abiada, José Manuel, Obra citada.
5Neruda,
Pablo; Cadernos de Temuco; texto original e tradução de Thiago de
Mello, edição e prólogo, Victor Farias, Bertrand Brasil, Rio de
Janeiro, 1998;
6Neruda,
Pablo; Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada; texto
integral e tradução de Domingos Carvalho da Silva; 23ª edição,
Rio de Janeiro; José Olímpio Editora, 1999.
7Neruda,
Pablo; Os Versos do Capitão; texto integral e tradução de Thiago
de Mello, 4ª edição; Bertrand Brasil; Rio de Janeiro, 2000.
8Rovira,
José Carlos, Obra citada.
9
Neruda, Pablo; Memorial de Isla Negra; Editorial Oveja Negra; 1982,
Bogotá.
10Neruda,
Pablo; Residência na Terra; tradução de Paulo Mendes Campos;
edição bilíngüe; L&PM Pocket; Porto Alegre, 1998.
11
Neruda, Pablo; Barcarola; Tradução de Olga Savary; L&PM
Pocket; Porto Alegre; setembro 2004.
12Neruda,
Pablo; Obra citada.
13
Lorca, Federico Garcia; Romancero Gitano in Obra Poética Completa;
apresentação Ático Villas-Boas da Mota; tradução William Angel
de Mello; edição bilíngüe; 3ª edição – São Paulo; Martins
Fontes, 1999.
14
Neruda, Pablo, obra citada.
15
Lorca, Federico Garcia; Obra Poética Completa; apresentação Ático
Villas Boas da Motta, tradução William Angel de Mello; edição
bilíngüe; 3ª edição; São Paulo; Martins Fontes; 1999.
16
Neruda, Pablo; Canto General; Editorial
Contemporánea, colección de bolsillo; Buenos Aires, 2003.
17
Segura, José Antonio Serrano; Estudios y
recursos literarios; La Obra Poética de Federico Garcia Lorca;
http://jaserrano.com/Machado/,
in cervantes virtual, www.cervantes.com
18
Bellini, Giusepe; Viaje al Corazón de
Neruda; www.cervantes.virtual.com;
biblioteca do autor, pabloneruda_html.
19
Bellini, Giusepe, obra citada.
20
Lópes de Abiada, José Manuel, obra citada.
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