domingo, 27 de outubro de 2013

Projeto da Monografia, a influência de Garcia Lorca na poesia de Pablo Neruda

A Influência de Garcia Lorca e Antonio Machado na Evolução da poesia de Pablo Neruda

Fundamentação Teórica:
Este trabalho tem como objetivo mostrar o salto qualitativo na vida e na política de Pablo Neruda após sua estada na Espanha. A influência que os poetas republicanos e modernistas espanhóis terão em Neftali Eliécer Ricardo Reyes Basoalto: modificarão o modo de Neruda ver e pensar o mundo. Como a obra de um escritor é reflexo de se modus vivendi, a revolução no espírito de Neruda causada pela Guerra Civil Espanhola vai resultar numa revolução de sua poética, tanto na forma, quanto no conteúdo. José Carlos Rovira1 assinala que a poesia de Neruda é vítima de um tempo implacável (que levará à morte alguns de seus companheiros de letras espanhóis, assassinados ou tombados em combate), que a partir de seu contato com eles, sofrerá, o poeta chileno, uma ruptura estilística; a poesia tende a se fazer coloquial e imaginativa, se afinca em uma realidade histórica e constrói as imagens de maneira realista e ideológica – o poeta assume sua militância no Partido Comunista e cria uma parte de sua poesia a partir destes pressupostos.
Assim, Lopez de Abiada2 observa que Espanha tem, nas memórias e na biografia do poeta, mais citações que qualquer outro lugar, excetuando-se o Chile. Esta influência de Espanha se observa nas próprias palavras de Neruda, em Para Nascer Nasci3, quando fala da morte do amigo, Federico Garcia Lorca: “Há dois Federicos, o da verdade e o da lenda. E os dois são um só. Há três Federicos, o da poesia, o da vida e o da morte. E os três são um só ser. Há cem Federicos, e todos eles cantam. Há Federicos para todo o mundo. A poesia, sua vida e sua morte se repartiam pela terra. Seu canto e seu sangue se multiplicam em cada ser humano. Sua curta vida cresce e cresce. Seu coração destruído estava repleto de sementes: não saberão os que o assassinaram que estavam a semeá-lo, que deitaram raízes, que continuaria florescendo em todos os lugares, em todos os idiomas, cada vez mais sonoro, cada vez mais vivente". O coração assassinado de Lorca continuou a bater no coração poético de seu grande amigo, Neruda. Fica claro que, quer seja na biografia escrita por terceiros sobre Pablo, que seja em sua autobiografia, ele jamais nega, antes reafirma e incorpora Espanha Republicana e seus poetas como Lorca, Miguel Hernandes, Antonio Machado, como influências palpáveis do caminho poético de Pablo Neruda.
Para ratificar, na citada obra de Lopez de Abiada, há uma carta de Neruda, entregue em Paris, a Ángela Figueira Aymerich. Nesta carta, datada de 27 de setembro de 1957, Neruda escreve:

Queridos poetas españoles, aquí me tienen muy cerca de la tierra española y lleno de sufrimientos por no verla y tocarla. Soy un desterrado especial, vivo soñando con España, con la grande y la mínima, la del mapa y la de las callejuelas, soñando con todo el amor que entre vosotros dejé, un desterrado que sólo puede acercarse al aire que perdió. Cuántas veces, de noche, el avión que me conducía lejos sobrevoló vuestra tierra, y yo, acongojado, traté de descifrar las luces que, como luciérnagas, brillaban allá abajo. Eran casas perdidas, pueblos sumergidos, montes oscuros, y, tal vez, rostros amados que no volveré a ver. Mi corazón, allí arriba, volando sintió de nuevo la tierra magnética y se llenó de lágrimas. Poetas españoles, nos ha separado un frío cruel y años pasados como siglos. Nosotros, poetas americanos, queremos renovar la fraternidad y la continuidad de nuestra paralela poesía. Hemos sido separados por errores propios y ajenos, por profundos dolores, por un silencio imposible. La poesía debe volver a unirnos. La poesía debe reconstruir los vínculos rotos, reestablecer la amistad y elevar universalmente nuestro canto. Tal es nuestra tarea. A ella me daré entre mis pueblos. Vosotros diréis vuestra palabra. Y habremos dado así el primer paso, que no por tardío será menos fecundo. Va en este papel mi afecto fraternal y mi confianza en la poesía y en el honor de los poetas.”

Em outra entrevista, com Antonio Collinas, Neruda Voltará a falar de Espanha, e se mostra aborrecido porque alguns poetas espanhóis o tenham tachado de antiespanhol (uma alusão a acusações de Panero, Ridruejo e Rosales, certamente motivados por questões ideológicas):

¿Qué puedo yo decir de España, de sus hombres, de sus tierras? España es una parte muy importante en mi vida: una parte extraordinariamente grave, profunda y decisiva en mi historia personal. Y uno de los reproches -de los muchos reproches [...]- es que me llamen antiespañol. Esta es una confusión lamentable. Una cosa es lo que yo siento por España, por sus hombres y por sus tierras y otra cosa es lo que siento por algunos matices de la vida y de la historia de España. Eso es otra cosa. A lo largo de toda la historia de España -como a lo largo de la historia de todas las naciones sin excepción- hay partes que son predilectas y hay partes que son desagradables. Esto es algo que sentirán los mismos españoles. Y naturalmente en la historia de los hombres existe natural, individual y nacionalmente tal discriminación. Pero mi apego, y mi comprensión, y mi amor hacia España es para mí una cosa absolutamente indiscutible. Por eso me molesta que me reprochen lo contrario.”
Na verdade o que se censurava em Neruda não era seu antiespanholismo; antifranquista e republicano convicto, Neruda recebia uma censura política por suas convicções socialistas trazidas da Espanha (por conta disto vai passar a ser perseguido e chega a ser exilado quando retorna ao Chile). Como observa Hernán Loyola, citado por Lopez de Abiada4, Neruda é uma testemunha que expõe os fatos, nomeia criminosos, relata, denuncia, que pede atenção para todos os martírios espanhóis e que exige castigos do céu e da terra para os traidores.
Este trabalho começa mostrando a influência indelével que a experiência espanhola teve na vida de Pablo Neruda, nos falta ainda pontuar duas coisas: como era o Neruda Pré-Espanha em sua poesia, como a poesia espanhola, principalmente a de Lorca e Antonio Machado, os principais expoentes do modernismo republicano, vão influenciar na obra do Neruda Pós-Espanha.
Neruda Pré-Espanha
Neruda Pré-Espanha é um poeta metafísico, quase panteístico (com alguma influencia de sua mestra na infância, também premio Nobel de literatura, Gabriela Mistral), com inspiração na natureza e na mulher, com muito talento mas com nenhuma preocupação social. Veja este texto de Proêmio, de Cadernos de Temuco5:
Uma rota de sol
E uma luz
E um roseiral.
Nada mais eu pedia
e naquela inquietude
pousaram as sedas da minha branda canção”.
Ou a lírica, na qual não se oculta o panteísmo, na comparação da mulher com a natureza, em seu Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada6:
Casi fuera del cielo ancla entre dos montañas
la mitad de la luna.
Girante, errante noche, la cavadora de ojos.
A ver cuántas estrellas trizadas en la charca.

Hace una cruz de luto entre mis cejas, huye.
Fragua de metales azules, noches de las calladas luchas,
mi corazón da vueltas como un volante loco.
Niña venida de tan lejos, traída de tan lejos,
a veces fulgurece su mirada debajo del cielo.
Quejumbre, tempestad, remolino de furia,
cruza encima de mi corazón, sin detenerte.
Viento de los sepulcros acarrea, destroza, dispersa tu raíz soñolienta.
Desarraiga los grandes árboles al otro lado de ella.
Pero tú, clara niña, pregunta de humo, espiga.
Era la que iba formando el viento con hojas iluminadas.
Detrás de las montañas nocturnas, blanco lirio de incendio,
ah nada puedo decir! Era hecha de todas las cosas.(...)”

Estes belos versos, despolitizados, é verdade, mostravam um Neruda que não era pior que o Neruda Pós-Espanha. Os versos de Vinte Poemas estão dentre os melhores de Neruda, ainda que neles cantem traços românticos tardios, gongóricos, panteístas. Não é um Neruda menor, é um poeta diferente, um escritor ainda incompleto, que tinha apenas a face lírica, faltava-lhe, ainda, a face social, política, inspirada no marxismo. Senão, vejamos este texto retirado de Os Versos do Capitão7, escritos depois da Guerra Civil Espanhola.

El Amor del Soldado

En plena Guerra Civil te llevo la vida
A ser el amor del soldado
Con tu pobre vestido de seda,
Tus uñas de piedra falsa
Te toco caminar por el fuego.

Ven acá vagabunda,
ven a beber sobre mi pecho
rojo rocío.

No querías saber donde andabas,
eras la compañera de baile,
no tenías partido ni patría.

Y ahora a mi lado caminando
Ves que conmigo va la vida
Y que detrás esta la muerte.

Ya no puedes volver a bailar
Con tu traje de seda en sala.

Te vas a romper los zapatos,
Pero vas a crecer en la marcha.
Tienes que andar sobre las espinas
Dejando gotas de sangre.

Besame de nuevo, querida.
Limpia ese fuzil, camarada.”

Para José Carlos Rovira8, a construção poética inicial de Pablo Neruda (de Cadernos de Temuco a Residência na Terra I), com o desenvolvimento dos mitos poéticos iniciais, realiza-se no tempo dos seus amores juvenis, intensificada no momento essencial da passagem dele em Santiago. Em 1924 a editorial Nascimento de Santiago publica os Vinte Poemas, no qual uma sensibilidade adolescente e pós-romântica, numa relação com o leitor que o tempo haveria de aprimorar, com influências que vão de Gabriela Mistral a Gôngora e Quevedo. Ainda não é o Neruda moderno e pós-moderno que nascera em Espanha no Coração. Evolução que o próprio poeta reconhecerá em Memorial de Isla Negra9 e Residência na Terra III10.

El mundo ha cambiado y me poesía ha cambiado. Una gota de sangre caído en estas líneas quedará viviendo sobre ellas, indeleble como el amor.”
A mi patría llegue con otros ojos
Que la guerra me puso
debajo de los mios
Otros ojos quemados
en la hoguera,
salpicados
Por llanto mio y sangre de los otros.”

Constata-se, claramente, como assevera Rovira, não só a mudança na temática, com o comprometimento político do poeta com a Guerra Civil Espanhola; mas também, na forma: os versos cada vez mais soltos, livres, quase em prosa. Um Neruda modernista, claramente influenciado pelos modernistas espanhóis, capaz de compor um poema elogioso a um bandido (Joaquim Murieta, na Barcarola11, numa inspiração bem clara de Federico Garcia Lorca e suas elegias à vida fora da lei dos ciganos.

Neruda e Lorca

A influência da obra de Federico Garcia Lorca (principal poeta republicano espanhol, covardemente fuzilado pelos fascistas, por ser “rojo y maricas”, e depois jogado numa vala coletiva – até hoje o corpo dele não foi encontrado) é confessada por Neruda em Para Nascer Nasci12:
Assim como desde o tempo de Gôngora e Lope não voltara a aparecer na Espanha tanto elán criador, tanta mobilidade de forma e linguagem, desde esse tempo em que os espanhóis do povo beijavam o hábito de Lope de Vega, não se conheceu em língua espanhola uma sedução tão popular tão imensa dirigida a um poeta. Tudo o que tocava, mesmo nas escalas de esteticismo misterioso, ao qual como grande poeta letrado não podia renunciar, sem trair-se, tudo que tocava, enchia-se de profundas essências de sons que chegava até o fundo das multidões. Quando mencionei a palavra esteticismo, não nos equivoquemos: Garcia Lorca era o antiesteta, neste sentido de encher sua poesia e seu teatro de dramas humanos originais do mistério poético. O povo, com maravilhosa intuição, apodera-se de sua poesia que já cana e se cantava como anônima nas aldeias da Andaluzia, mas ele não se lisonjeava em si mesmo esta tendência para se beneficiar, longe disto: buscava uma avidez, dentro e fora de si.
Seu antiesteticismo é, talvez a origem de sua enorme popularidade na América. Desta geração brilhante de poetas como Alberti, Altolaguirre, Cernuda, etc, ele foi, talvez, o único sobre o qual a sombra de Gôngora não exerceu o domínio que em 1927 esterilizou esteticamente a poesia jovem da Espanha (...)”

Esta admiração confessa de Neruda pelo grande amigo, Federico Lorca, refletirá na vida de Neftali, na temática (popular, às vezes mesmo mitológica e lendária, indianista) e na poesia (livre, solta, descompromissada em métrica e rima, por vezes; outras musical como o Romancero Gitano13 de Lorca):

Si vinieron los gitanos,
harian con tu corazón
Collares y anillos blancos
Niño dejadme que baile.
Cuando vengan los gitanos
Te encontrarán sobre el yunque
Con los ojillos cerrados.
Huye luna, luna, luna
Que ya siento sus caballos.
Niño, dejadme, no pises
Mi blanco almidonado.”

Compare com a Barcarola:14

“Ai, canta guitarra do sul na chuva, no sol lancinante

Que lambe os carvalhos queimados pintando-lhes as asas.
Ai, canta racimo de selvas, a terra empapada, os rápidos rios,
O inacabável silêncio da primavera molhada
E que tua canção me devolva a prática em perigo:
Que corram as cordas no vento estrangeiro
Porque meu sangue circula no meu canto se cantas.
Se cantas, ó pátria terrível, no centro dos terremotos
Porque assim necessitas de mim, ressurgida
Porque canta tua boca em minha boca e só o amor ressuscita.

Não sei se morreste e morri: espero sabê-lo e canto este canto.”

O cante jondo, a viola cigana de Lorca, continua ressoando na viola chilensis de Neruda. Transportada da Andaluzia para os Andes, ganhou nova roupagem, novo tempero, novo ritmo, mas nunca renegou sua ascendência.
Para Ático Villas Boas da Silva15, “Lorca estava acima de todos os seguidores dos ismos estéticos literários, pelo simples fato de se postar acima das camisas-de-força de cada um daqueles movimentos. Versátil, sabia aproveitar praticamente as lições de quase todas as tendências e escolas literárias para desembocar no artesanato da palavra, seu ofício maior.” Da mesma maneira, Neruda, seu amigo e companheiro (Lorca fora fuzilado por ser “rojo y maricas”), vai percorrer o mesmo caminho, de ecletismo acima dos ismos literários, aproveitando o exemplo precursor de Federico.

Neruda e Antônio Machado


As influências de Antônio Machado na obra de Neruda não são tão extensas e profundas como as de Garcia Lorca, nem por isto deixam de ter importância, na avaliação do significado da Espanha no poeta chileno, se queremos analisar a transposição, uma espécie de antropofagia (tomando de empréstimo a tese Oswaldiana) nerudiana, da poesia republicana modernista espanhola, para o solo latino-americano (e, dialeticamente, depois influenciando a nova geração de poetas espanhóis), na criação de uma poesia genuinamente, em tema e forma, latino-americana (assim como outras influências, como Rafael Alberti, Miguel Hernandes). A influência de Antônio Machado, que tinha uma poesia panteística e melancólica, como o Neruda inicial, fica claro em Alturas de Macchu Picchu, parte importante do Canto General16, no qual o canto da natureza tem a revivescência de sua poesia panteísta, numa tentativa muito próxima a apresentada por Antonio Machado na Espanha e pela compatriota de Neruda, Gabriela Mistral. Veja o que José Antônio Serrano Seguro fala da obra de Antônio Machado17, sobre o panteísmo, a influência da natureza no intimismo do poeta (o elo que o une à poética de Neruda).
En ese proceso de identificación del alma con las cosas del mundo, adquieren especial relevancia en la poesía de Antonio Machado los elementos que conforman el paisaje. En su paso por el tiempo —decíamos— el poeta (el hombre) se relaciona con las cosas, y éstas —el río, los árboles, el atardecer— adquieren un sentido nuevo, personal, en relación con la experiencia vivida en torno a ellas. Se transfiguran en espejo que refleja los estados del alma. Recuérdese, por ejemplo, las distintas significaciones que pueden sugerir los árboles. En este sentido, puede ser particularmente significativo el proceso que “sufre” uno de estos elementos en su trayectoria poética. Nos referimos al olmo. Las primeras referencias que hace a este árbol son meramente denotativas de su presencia en los parques. En el poema A un olmo seco se inicia el proceso de identificación de su alma con dicho árbol, que continuará de forma más o menos implícita en otros poemas:
¿Dará sus verdes hojas el olmo aquel del Duero?
¿Tienen los viejos olmos algunas hojas nuevas(...)
De los parques las olmeda
son las buenas arboledas
que nos han visto jugar,
cuando eran nuestros cabellos
rubios y, con nieve en ellos,
nos han de ver meditar.”

Vejamos agora a natureza vista como continuidade da subjetividade de Neruda, em Alturas de Macchu Picchu, no qual a apologia incaica é desenvolvida como parte da interioridade do poeta:

Del aire al aire, como una rede vacía,
iba yo entre las calles y la atmosfera, llegando y despidiendo
en el advenimiento del otoño la moneda extendida
de las hojas, y entre las primaveras y las espigas
lo que el más grande amor, como dentro de un guante
que cae, que nos entrega como una larga luna.
Días de fulgor en la intemperie
De los cuerpos: aceros convertidos
al silencio del ácido:
noches deshilachadas hasta la última harina.
estambres agredidos de la patria nupcial”

Ou como em outra paisagem do Canto General:

“Tierra nocturna, a mi ventana

llegabas con tus lábios
para que yo durmiera dulcemente
como cayendo sobre miles de hojas,
de estación a estación, de nido a nido,
de rama a rama, hasta quedarse de pronto
dormido como muerto en tus raíces.”

Se depara em Neruda com o mesmo canto de amor á pátria, não como entidade territorial e política, mas sim como terra, berço, lugar de nascimento, das recordações de infância, dos amores, das amizades, da mesma maneira que é cantada Espanha na poesia de Antônio Machado. Peguemos mais um exemplo deste para continuar a tecer comparações:

La calma és infinita en la desierta plaza,
donde pasea el alma su traza de alma en pena.
El agua brota y brota en la marmórea taza.
En todo el aire en sombra no mas que el agua suena”

Ou nesta:

Como una pompa de jabón al viento

Desgarrada la nube; el arco iris
brillando ya en el cielo,
y en un fanal de lluvia
y en sol el campo envuelto.

Desperté. ¿quién enturbía
los mágicos cristales de mi sueño?
Mi corazón latía
atónito y disperso.

El limonar florido,
el cipresal del huerto
el prado verde, el sol, el agua, el iris.
¡El agua en tus cabellos!

Y todo en la memoría se perdía
como una pompa de jabón al viento.

Nesta amostra, fica claro que ao lado do panteísmo, do louvor à natureza, o derramamento lírico comum a ambos, pós-romântico, é um tração de atração entre a obra nerudiana e a de Machado. Para Giusepe Bellini18; o panteísmo de Neruda, perdura mesmo depois de sua adesão à causa comunista (como o do Republicano e socialista Antônio Machado). “En las odas elementales, celebrando las cosas minúsculas de lo creado, animales, insectos, piedras, mientras afirma el valor de la creacción, del significado, de la sencillez, de la pura belleza, se abre paso también la nota del dolor humano. Frente a los elementos impertubables y eternos, el océano, las piedras, el tiempo, se encuentran todo el universo destinado a la destrucción, que ni la bondad, ni la belleza pueden preservar”. Esta caracterização da obra de Neruda, incluindo o pessimismo, bem podia ser, com pequenas diferenças de nuanças, a caracterização da obra de Antônio Machado.
Por ironia do destino, ambos tiveram destino semelhante: Primeiro Antonio Machado, enfermo, fugindo do fascismo, em precárias condições, na fronteira francesa e, desgostoso com a morte dos amigos fuzilados pelos fascistas, ele não sobrevive à queda do Regime Republicano assassinado e morre poucos dias depois de chegar ao exílio. Neruda, também doente, de câncer na próstata, teve seu fim acelerado pela ascensão da ditadura fascista de Augusto Pinochet. A invasão do Palácio La Moneda, com o fuzilamento do seu amigo Allende, o assassinato de vários amigos nos combates de rua, o fuzilamento de Victor Jarra levaram Neruda a um infarto. Dizem que nos estertores, Neruda agonizava dizendo: “los matan, los matan a todos”. Dificilmente Neruda conseguiria resistir ao esfacelamento do sonho de um Chile socialista e democrático, assassinado, como foi a Espanha Republicana, por uma ditadura fascista. Suas casas de Isla Grande e La Chascona foram saqueadas e livros e memórias foram queimados. Seu funeral foi um imenso protesto contra a ditadura ao qual as pessoas afluíram em massa.

À Guisa de Conclusão

Esta justificativa, aparentemente extensa, é pequena diante do material compulsado (pequena parte do que ainda há a investigar). A extensa obra de Neruda, mais as obras de Lorca e Antonio Machado, e toda a crítica literária destas obras que serve para embasar as comparações pertinentes a este trabalho, fora a parte bibliográfica e histórica sobre os três, já que as idiossicrâncias pessoais têm de ser levadas em conta nas análises, levaram a que a justificativa virasse um mini-roteiro, uma pré-monografia. Assim, fica de guia para a empreitada futura, que nascerá desta temática e da metodologia comparativa adotada.
Por esta sintética análise encontramos primeiro um Neruda jovem, metafísico, lírico e mesmo ultra e pós-romântico, com traços de Gôngora e Quevedo e alguma influência de Gabriela Mistral. A partir deste jovem Neruda, há um momento de transformação, de salto qualitativo, como a lagarta na crisálida: a passagem de Neruda como cônsul na Espanha, sua amizade com Lorca, Miguel Hernandez, Rafael Alberti, toda a jovem poesia espanhola, fora o conhecimento dos movimentos literários vigentes àquela época. Para usar da linguagem dialética-marxista (que se tornará, mais tarde, a ideologia Nerudiana), a acumulação quantitativa de conhecimentos e experiências, levará ao salto, à transformação em Neruda, que se vislumbrará tanto na forma quanto no conteúdo.
Se Pablo Neruda, mesmo após a experiência ibérica mantém ainda um certo panteísmo, este não o levará mais a extremos metafísicos e românticos, mas ao reencontro com o povo (Giusepe Bellini19). Neruda manterá, até a morte, sua face lírica, todavia sem o desespero e a ingenuidade de outras épocas. A guerra, a morte de seus amigos (como Federico Garcia Lorca, covardemente fuzilado), o levará ao comprometimento político social. Tornar-se-á comunista, filiar-se-á ao PCC – Partido Comunista Chileno. Na métrica, como Lorca, a poesia de Neruda várias vezes adotará a liberdade na métrica, o poema prosa quase teatralizado, os temas populares. É um Pablo moderno e pós-moderno, que além de todos os ismos, cria uma poética própria, Nerudiana, que influenciará toda poética latino-americana (e mesmo espanhola) subseqüente.
Terminamos parafraseando as palavras de Lopez de Abiada20, quando afirma que la influência dos poetas espanhóis sobre Neruda não é simplesmente sua mudança de posição política, seu ingresso no PCC ou filiação ideológica, é bem mais profundo do que isto, reflete uma mudança de rumos e temática que o guiará até o fim da vida. Espanha perdurará em Neruda até a morte.
1Rovira, José Carlos; Para Leer a Pablo Neruda, Madrid, Palas Atenea, 1991, www.cervantesvirtual.com, bib_autor, Neruda, Biografia.
2Lópes de Abieda, José Manuel; La experiencia madrileña de Neruda: su evolución ideológica, el cambio de estética y su compromiso frente a España, www.cervantesvirtual.com, hemeroteca, anales de literatura española, publicaciones periódicas, nº 5, 1986-1987.
3Neruda, Pablo; Para Nascer Nasci; Tradução de Rolando Roque da Silva; 8ª edição; Rio de Janeiro; Bertrand Brasil; 1996.
4Lopes de Abiada, José Manuel, Obra citada.
5Neruda, Pablo; Cadernos de Temuco; texto original e tradução de Thiago de Mello, edição e prólogo, Victor Farias, Bertrand Brasil, Rio de Janeiro, 1998;
6Neruda, Pablo; Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada; texto integral e tradução de Domingos Carvalho da Silva; 23ª edição, Rio de Janeiro; José Olímpio Editora, 1999.
7Neruda, Pablo; Os Versos do Capitão; texto integral e tradução de Thiago de Mello, 4ª edição; Bertrand Brasil; Rio de Janeiro, 2000.
8Rovira, José Carlos, Obra citada.
9 Neruda, Pablo; Memorial de Isla Negra; Editorial Oveja Negra; 1982, Bogotá.
10Neruda, Pablo; Residência na Terra; tradução de Paulo Mendes Campos; edição bilíngüe; L&PM Pocket; Porto Alegre, 1998.
11 Neruda, Pablo; Barcarola; Tradução de Olga Savary; L&PM Pocket; Porto Alegre; setembro 2004.
12Neruda, Pablo; Obra citada.
13 Lorca, Federico Garcia; Romancero Gitano in Obra Poética Completa; apresentação Ático Villas-Boas da Mota; tradução William Angel de Mello; edição bilíngüe; 3ª edição – São Paulo; Martins Fontes, 1999.
14 Neruda, Pablo, obra citada.
15 Lorca, Federico Garcia; Obra Poética Completa; apresentação Ático Villas Boas da Motta, tradução William Angel de Mello; edição bilíngüe; 3ª edição; São Paulo; Martins Fontes; 1999.
16 Neruda, Pablo; Canto General; Editorial Contemporánea, colección de bolsillo; Buenos Aires, 2003.
17 Segura, José Antonio Serrano; Estudios y recursos literarios; La Obra Poética de Federico Garcia Lorca; http://jaserrano.com/Machado/, in cervantes virtual, www.cervantes.com
18 Bellini, Giusepe; Viaje al Corazón de Neruda; www.cervantes.virtual.com; biblioteca do autor, pabloneruda_html.
19 Bellini, Giusepe, obra citada.

20 Lópes de Abiada, José Manuel, obra citada.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigado por seu comentário, se preferir pode me contactar por mail, rponciano1971@hotmail.com ou no facebook também, no mesmo e-mail