quinta-feira, 17 de julho de 2014

O mel é mais doce que o sangue, Lorca e Dalí.

Federico Garcia Lorca e Salvador Dali, o poético e o pictórico - O mel é mais doce que o sangue
Resumo
O objeto desta dissertação é mostrar é fazer a correlação entre as influências que o principal poeta espanhol da Geração de 1927, Federico García Lorca era receber do movimento surrealista, e principalmente do pintor Salvador Dalí, e as influências que por sua vez o grupo de poetas de 1927, e principalmente Lorca, irão ter sobre o grande pintor surrealista espanhol. As relações de mão de dupla entre a estética poética e pictórica, os temas comuns como: subconsciente, morte, escatologia (evocativo de passividade anal), noite, agonia, dor, sonho, ritmo, musicalidade.
A idéia principal é discutir o papel do pictórico na poesia, e como o poema, que se relaciona com o onírico e a imagem mais que a prosa, pode ser expressão escrita de uma pintura, ou mesmo de um filme - Buñuel, O cão andaluz. Buñuel, e principalmente Dalí deixarão marcas indeléveis na obra artística de Federico García Lorca.

The object of this dissertation is to show is to correlate the influences that the main Spanish poet of the Generation of 1927, Federico García Lorca was receiving the surrealist movement, and especially the painter Salvador Dalí, and which in turn influences the group of poets 1927, and especially Lorca, will have on the great Spanish surrealist painter. Relations between handheld dual poetic and pictorial aesthetics, common themes as: subconscious, death, eschatology, night, agony, pain, dream, rhythm, musicality.
The main idea is to discuss the role of pictorial poetry, and how the poem, which relates to the dream and the image more than prose, written expression can be a painting, or even a movie - Buñuel, The Andalusian Dog . Buñuel, Dalí and mostly leave indelible marks on the artistic work of Federico García Lorca.

Palavras-chave: Poética, Pictórico, Mudança estética; Mudança temática; Dali, Lorca.
INTRODUÇÃO:

Federico Garcia Lorca é o principal poeta da geração de 27 na Espanha, Geração que foi a mais fecunda do século XX, em que pese estar espremida entre as duas grandes guerras e uma Guerra Civil (que foi o prólogo da Segunda Grande Guerra Mundial, e onde Hitler pode ensaiar suas táticas de Guerra Relâmpago, foi na Guerra Civil Espanhola que a força aérea alemã ensaio suas estratégias de bombardeio aéreo). Esta geração de 27 esteve dividida entre a tradição e a modernidade, entre a agonia da perdida glória espanhola, e a busca de novos arquétipos humanísticos, artísticos e estéticos. O marco de princípio desta geração é a comemoração do nascimento de Luis de Gôngora, poeta cultista tradicional, representante da glória perdida espanhola, e o elogio ao passado espanhol perdido; de outro lado, a busca de uma poesia mais direta, que recebesse influência da estética modernista e seus experimentalismo, como o verso branco sem rimas, ou a temática popular e a pesquisa da linguagem coloquial popular e vulgar.
Lorca foi, sem dúvida, o mais avançado destes vanguardistas na poesia, recebendo influxo fortíssimo da poesia dos povos marginalizados da Andaluzia, inclusive dos ciganos, e da arte pictórica, sendo o grande poeta surrealista da Espanha, que foi a maior ousadia vanguardista desta geração, incorporar o movimento da pintura e do cinema, a sinestesia do sonho e do subconsciente, e os temas agônicos, a morte, a perda, a dor, a loucura, o desespero. Na formação surrealista de Lorca destaca-se sua amizade e vida em comum com Salvador Dali na residência dos estudantes. A influência recíproca e os experimentos vanguardísticos que ambos fizeram juntos, nossa dissertação vai trabalhar a relação entre o pictórico e o poético na obra de Lorca, a influência que o movimento surrealista e os experimentalismos feitos em conjunto com Salvador Dali vão implementar em sua obra.
Neste texto, vamos brevemente elucidar o que foi a Geração de 27 para entrarmos no tema principal, que é um dos influxos mais fertéis na criação de Lorca, que foi a influência do surrealismo de Dalí em sua temática e estética.
Vamos trabalhar a relação temática recíproca, além da ideia Lorquiana de transformar a poesia em imagem, não só pictórica, mas do movimento, incorporando a novidade da época que era o cinema, recordando que além da Dali, Buñuel fazia parte do círculo de amizades de Lorca, ainda que não desfrutasse da mesma amizade, perspassando para a relação de temas recorrentes de Federico/Dali: morte, lua, amor trágico, dor, pesar, lua, escatologia, passividade anal, masturbação, homossexualismo, caveiras, subconsciente, sonho, sono. A relação entre os dois poetas, inclusive amorosa em que ninguém sabe efetivamente a que ponto houve o envolvimento. As cartas e os depoimentos, a convivência em comum, levam a supor que houve um envolvimento amoroso. Todavia, é controverso até que ponto chegou esta relação. Para Lorca a homossexualidade sempre foi percebida de forma contraditória e conflitiva. Para alguns, Lorca e Dalí nunca teriam chegado a um encontro amoroso, a efetivamente terem uma relação sexual. Baseando-se nos relatos de Dalí, Lorca estaria disposto a relação amorosa, mas Dalí tería fugido de suas incursões. Os quadros masturbatórios de Dalí, e a própria relação que ele teve com sua mulher por toda a vida, Gaia, em que não há a posse amorosa, mas somente a atividade onanista, deixam dúvidas sobre efetivamente qual era o grau de envolvimento erótico entre ambos. E a própria crítica das obras, com o tema da homossexualidade latente, com idealização do corpo feminino, escatologia masturbatória, levam a inflexão de que Dalí desempenhou um papel homossexual passivo por toda sua vida, tendo ou não tido relações amorosos homossexuais. Ressaltamos que como a temática homossexual vai se refletir no pictórico e no poético, é de extrema necessidade citá-la na relação de amizade e influência entre os dois, mas dizer que efetivamente, com as documentações existentes, com os relatos e cartas, nada além do envolvimento afetivo se pode afirmar categoricamente, não há provas contudentes das práticas eróticas entre Dalí e Lorca.


LORCA, DALI E A GERAÇÃO DE 1927

Afinal, o que foi a Geração de 27 na Espanha, qual seu significado? Optamos por definir a Geração de 1927 como um conjunto de escritores, pintores e até cineastas (Buñuel, por exemplo) que nasceram em anos próximos, tiveram formação intelectual com influências semelhantes e tiveram por base guias canônicos comuns. Lorca é desta geração o escritor mais influente, ao mesmo tempo que é o mais espanhol por sua temática e seu destino, é o mais local, o que mais absorve a temática regional, de sua terra natal, Andaluzia incluindo o idioma dos ciganos em seu Cante Jondo. Andaluzia é um dos locais de maior influência árabe na Espanha, assim, na poética de Lorca, também há, de forma indireta, reflexos do arabismo andaluz, da cultura árabe que durante séculos dominou a Península Ibérica, e que refletirá na poesia de Lorca não só no léxico, mas no ritmo e na temática. Não à toa, Lorca será o poeta espanhol da Geração de 27 que mais influenciará os árabes.
O significado da Geração de 27 na Espanha transcende a questão meramente estética, é uma geração de intelectuais que busca entender o lugar da nação, após a perda da hegemonia da antiga metrópole e império colonial. É chamada de Geração de 27, por terem nascido em anos próximos, terem recebido formação intelectual com influência semelhante, e tiveram por base literária ícones comuns, o espanhol Gôngora e o latino-americano Rubem Dario. Como eram todos jovens, renovaram a linguagem literária, com o uso do coloquial e do popular, ao mesmo tempo que iam buscar palavras perdidas ou não descobertas da Espanha popular, e criaram cânones libertários e renovadores não só na poesia, mas também no teatro, com o próprio Lorca, no cinema com Luis Buñuel e nas artes plásticas com Salvador Dalí. A geração constitutuiu-se como tal após o manifesto da comemoração do nascimento de Luis de Góngora e Argote, que foi considerado o poeta por excelência, pela limpidez de seu verso, focado no equilíbrio sem os exageros románticos. Esta geração criou relações pessoais e políticas, tinham consciência de serem um grupo, criando e escrevendo em revistas literárias comuns – Caballo Verde, Revista Sevillana Grecia, etc – e em atitudes estéticas e políticas coletivas, assim, a temática popular e espanholista era comum a obra de quase todos.
Temáticas da geração de 27: esta geração, ao mesmo tempo que fazia a apologia do equilíbrio e da simplicidade, acabou enovelada em contradições do seu próprio tempo, em que a dialética marxista causava grande impacto na estética literária (ainda que o grupo não tivesse nenhum escritor que seguisse uma estética de influência marxista), é que a confrontação de classes sociais e as revoltas populares, que inspiraram inclusive a República, acabavam por se impor no tom de crítica social de muitas obras, e no inconformismo dos costumes, tanto na atitude anti-burguesa pessoal e de vida, quanto no experimentalismo estético. Assim, eram temas da geração de 27, sempre em contradição:
1) o equilíbrio e a contradição; de um lado o equilíbrio buscado na poesia de Góngora, um verso límpido, fluido, sem os exageros românticos; de outro lado as contradições que assolam a própria Espanha, em suas lutas para sair da influência feudal e se modernizar, com a pressão da classe trabalhadora, que elege um governo socialista.
2) o intelectual e o sentimental; De um lado a busca de um equilíbrio e da eliminação das influências românticas, vistas como decadentes e burguesas; de outro lado, o retorno do lírico, na transcrição dos cantos populares.
3) Pureza de sentimentos e revolução (inclusive política); De um lado a busca de sentimentos estáveis e sem arroubos, de outro os sentimentos revolucionários, inclusive os trágicos (presença recorrente da morte);
4) Cânon culto e influência estética e linguística popular; Uma das maiores contradições da Geração de 27, que se inaugura como corrente fazendo a apologia do Góngora e do cultismo; logo em seguida, até pelos compromissos políticos, esta geração vai se contaminar dos temas e da estética popular, o que era completamente estranho ao cânon culto original;
5) Universalismo e internacionalismo versus o espanholismo (ultraísmo), ou seja a busca de uma glória e de uma identidade perdida que na verdade ninguém sabia onde buscar, apologia de Mancha e Andaluzia, do local e do particular universalizados, devido à debilidade da classe dominante, da burguesia espanhola, a nova identidade era buscada na vida e na linguagem das classes populares e marginalizadas;
6) Tradição e respeito aos clássicos e renovação e experimentalismo nos modelos literários; A Geração de 1927 vai chegar ao experimentalismo extremo com a mescla entre a pintura de Dalí, o cinema de Buñuel e a pintura de Lorca, o pictorismo e o surrealismo expressos na poesia, o surrealismo será o avant garde dos experimentalismos desta geração.
Vê-se que o movimento se move em contradição hegeliana, na negação da negação, sempre em tensão dialética entre o passado e o futuro, a ruptura e a tradição, a busca de um novo caminho e o reconhecimento do ser espanhol. Isto, em lugar de levar a uma estagnação, levou a uma grande riqueza de formas, já que todos os eânones não eram fixos, havia um experimentalismo em busca do que seria esta nova identidade. Na verdade, o movimento refletia o momento da própria Espanha, um signo de uma contradição de um sentimento nostálgico de um passado perdido, e as rupturas revolucionárias que acabarão por gestar a República, o tragicismo dos poemas de Lorca, acabariam profeticamente por prenunciar a tragédia a qual sucumbirá a jovem República e a própria tragédia pessoal do jovem escritor.
Em Dalí, um pintor, nem todas as características da Geração de 1927 são expressas, das características da Geração, só o experimentalismo, a busca de uma nova estética para esta nova geração espanhola. Dalí vai do impressionismo e do dadaísmo, cubismo, em rápida e franca evolução, para o surrealismo. Nele as características sociais são extremamente frágeis, mesmo os quadros com temas mais "políticos", pintados durante a Guerra Civil e que retratariam o horror, são mais surrealistas do que propriamente quadros de uma temática realista social. Dalí trilha um caminho estético diferenciado com relação à estética da Geração de 1927, e vai ser influência, marco, para os poetas que vão influenciar a ruptura temática e de formas através do surrealismo.
Influências e modelos literários da Geração de 27

A geração de 27 receberá a influência passadista de Góngora e do cultismo, ou seja, de limpeza e elegância nos versos, de jogos de palavras sem arrebatamento românticos; contraditoriamente, receberá também a influência de Gustavo Adolfo Bécquer, e sua poesia pós romántica, que ainda que tenha lirismo, tem comedimento em seu sentimentalismo e influência da poesia francesa pós romântica; por último, Ruben Dario e as inovações pós modernas, o poeta latino-americano que mais influenciou Espanha, mas que dialogava com toda a vanguarda europeia.
A Geração de 27 também sofreu a influência de Antônio Machado e da assim chamada Geração de 98, geração esta que também vivia a contradição entre o ultraísmo e a busca de um novo cânone espanhol. Geração está que influenciará muito a geração de 27 por vários fatores, a maiores destes poetas está vivo e conviverá com os novos poetas de geração de 27, vivem as mesmas contradições históricas da Espanha no início do século XX e enfrentam problemas estéticos de renovação e de temática semelhantes. Além de Antônio Machado, irão influenciar a Geração de 27 Ortega e Gasset, Ramón Gomes de la Sierra, Juan Ramón Jimenez. Assim, a elegância e a limpeza nos versos, musicais e sem exageros ou desesperos românticos é síntese de todas estas influências.
A geração de 1927, a partir destas influências vai cada vez mais fazendo uma poesia mesclada, “impura”, para além dos cânones que a inspiraram, se distanciando das vanguardas e dos experimentalismos e se aproximando do engajamento e do compromisso Político (Lorca, Miguel Hernández). Também surge o surrealismo, aproximando a poesia da pintura, mas também do subconsciente, do onírico, do pictórico, há o casamento da geração literária com o cinema e a pintura através das relações estéticas e da amizade (as vezes agressiva e contraditória) entre Lorca, Dali e Buñuel, que moraram juntos na residência dos estudantes em Madrid, em 1920, há rumores e evidências inclusive de um caso de amor entre Lorca e Dalí, a homossexualidade de Lorca tão discutida, teria expressão trágica na sua poesia (Ode a Walt Whitman), dado que ele sofreu todo tipo de perseguição e constrangimento por conta dela, e foi citada inclusive na sua execução - morto por ser "rojo y maricas" pelos fascistas . O surrealismo será o experimento mais vanguardista da Geração de 27, incorporando à estética espanhola o onírico, o subconsciente, o sonho, a agonia, o diálogo com Thanatos e Eros.
O grupo se reuniu como Geração no natalício dos 300 anos de falecimento de Luis de Gôngora, a partir daí começou a influenciar toda a literatura e a arte espanhola. Em Málaga, resultado deste encontro e manifesto, a revista Litoral, dirigida por Emílio Prados e Manuel de Altolaguirre, publicou um número especial em homenagem a poesia deste grupo de poetas. Por conta desta revista, Ignácio Sánchez Mejía, famoso toureiro espanhol, os convida a ir a Sevilha ler seus poemas numa tertúlia literária aberta ao público. Compareceram neste evento: Federico Garcia Lorca, Rafael Albertí, Jorge Guillén, Dámaso Alonso e Gerardo Diego. A partir daí o grupo se torna conhecido e influente em toda Espanha e lança várias revistas, seus livros obtém relativo sucesso e a Geração de 1927 passa a ditar o novo cânone literário, através das revistas literárias e de suas obras, passam a ser a estética a ser seguida a partir daí.
Importante ressaltar que esta geração não se fixou somente na poesia, foi uma geração que trabalhou em todas as áreas das artes. Além do trabalho de poesia, houve ensaístas como Damaso Alonso (também prolífico poeta), Pedro Salinas, dramaturgos como García Lorca y Alejandro Casona; Buñuel, que era cineasta e artistas plásticos, influenciados por estes poetas com os quais conviveram na residência de Madrid: Almada Negreiros, Manuel Ángeles Ortiz, John Armstrong, Maurice Asselin, Rafael Barradas, Juan Bonafé, Francisco Bores, Norah Borges, Pancho Cossío, Salvador Dalí, Robert y Sonia Delaunay, Francesc Domingo, Apelles Fenosa, Pedro Flores, Luis Garay, Federico García Lorca, Gabriel García Maroto, Ramón Gaya, Ismael González de la Serna, Juan Gris (muere en 1927), Marcel Gromaire, José Gutiérrez Solana, Wladislaw Jahl, Cristóbal Hall, Manolo Hugué, Maruja Mallo, Joan Miró, José Moreno Villa, Jesús Olasagasti, Santiago Ontañón, Benjamín Palencia, Joaquín Peinado, Santiago Pelegrín, Pablo Picasso, Gregorio Prieto, Pere Pruna, Olga Sacharoff, Alberto Sánchez, Ángeles Santos, Pablo Sebastián, Josep de Togores, José María Ucelay, Adriano del Valle, Daniel Vázquez Díaz, Esteban Vicente y Hernando Viñes.
Os artistas plásticos que foram influenciados ou tiveram relação com esta geração se moveram entre o cubismo, o neo-clasicismo, a figuração líricas, os realismos de novo tipo e o surrealismo, estes "ismos", nas palabras de Eugenio Carmona, são como «um repertorio de que podem extrair soluções específicas para problemas concretos». Com nomes relacionais a geração de 27 como os de Dalí, Miró e Picasso, mostram a extensão e a influência desta geração. Sendo que no caso específico de Dalí, por suas relações extreitas com Lorca, tanto Dalí vai tentar transplantar a poesia para os quadros: o onírico, o subconsciente, a morte, o trágico, a escatologia, a solidão; quanto Lorca vai tentar transplantar o pictórico para a poesia: o movimento, a poesia como imagem ora estática, ora movimento (cinema Buñuel-Dali, o Cão Andaluz), a poesia retratando o movimento sem disfarces. Formas e temas confundem-se na fase surrealista de Lorca.
1936 – 1939 – GUERRA CIVIL ESPANHOLA

Em 1936 estala a Guerra Civil Espanhola, através de um golpe de cunho fascista, conservador-monarquista e de direita, contra a República Democraticamente eleita. De um lado, os Republicanos, socialistas, anarquistas e comunistas, que haviam sido eleitos democraticamente, lutam para manter o Governo legítimo. Do outro lado, monarquistas, falangistas (um movimento de cunho fascista) e golpistas conservadores de todos os matizes se organizam para dar um golpe militar. Os dois lados se enfrentam numa guerra civil de 3 anos, que dividirá a Espanha em duas, e será a antessala da Segunda Grande Guerra Mundial. Hitler pode treinar livremente sua tática de Blietkrieg (Guerra Relâmpago), bombardeando cidades indefesas: Guernica, obra-prima de Picasso, é retrato trágico e genial deste período, a tragédia traduzida na pintura (o que também é revolucionário em estética e como temática: o horror e a dor expressos como estética plástica, a arte como arma de luta social). Pela primeira vez na história há o uso de bombardeios aéreos e a luftwalf alemã pode impunemente atacar posições não só militares, mas também civis dos republicanos. Soldados fascistas italianos entram regularmente na Espanha e lutam ao lado de Franco. Do outro lado os republicanos recebem o apoio das brigadas internacionalistas, voluntários socialistas e comunistas do mundo inteiro que se entregam de corpo e alma em defesa da jovem república assassinada, é que é uma das mais belas páginas de solidariedade da história da humanidade.
A maior parte da Geração de 1927 posicionou-se ao lado da República, não que todos fossem miliantes políticos, mas a própria estética deste período levava a que muitos poetas deste período fossem identificados com a nova Espanha, por exemplo, Lorca e seu teatro mambembe. Lorca é assassinado, Miguel Hernández baleado em combate, morre na prisão; Antônio Machado (da Geração de 98) morre a caminho do exílio, num campo de concentração francês. Salinas, Cernuda e Emílio Prados, exilados, morrerão fora da sua terra natal; Rafael Albertí volta no fim de sua vida. Apenas Aleixandre, Damaso Alonso e Gerardo Diego permanecerão na Espanha. Lorca foi a vítima mais famosa da Ditadura Fascista que seria instalada por Franco. Como dissemos anteriormente, Lorca fora identificado com a República, por conta de seus inúmeros amigos socialistas e de seu grupo teatral popular, “La Barraca”, que interpretava peças para o povo de forma mambembe, durante a República. Ainda que não fosse um militante político, havia em seus livros um claro compromisso estético com ideais de emancipação. Quando estalou a Guerra Civil, fugiu de Madrid por achar que ficaria mais seguro em sua terra natal, Andaluzia. Ledo engano, à sua finca foram dois estranhos que o vigiavam, por conta desta incursão, ele fugiu e se escondeu na casa de um amigo falangista. Depois de dois dias escondido, foi delatado e capturado por um grupo de milícia fascista, levado a um terreno baldio, acredita-se atrás do cemitério da cidade, foi sentenciado a morte sem julgamento, por ser “rojo y maricas” e executado com uma gurpo de militantes sócialistas. Foi a morte mais famosa da crueldade fascista dos golpistas franquistas. Até hoje não foi encontrado o corpo do mais famoso e mais talentoso dos poetas da Geração de 1927.
A República resistirá ainda três anos em luta contra o fascismo, mas o isolamento da República, com a retirada inclusive da ajuda soviética, por conta da pressão internacional, decidirá a guerra para o lado dos golpistas. A tragédia franquista da Espanha prenuncia a tragédia que se abaterá por toda a Europa, a tentativa de um governo democrático socialista derrubado a força, fará com que a Espanha entre num período de isolamento político-econômico, e que refletirá em suas artes, A maior parte dos grandes artistas desta geração viverá no exílio, alguns só retornarão à Espanha após a morte de Franco. As décadas de isolamento levarão ao atraso não só no campo econômico, mas durante o período de Franco, não haverá uma geração tão fértil e criativa capaz de tornar Espanha universal, como foi a Geração criada no início do século XX.

DALI E LORCA, O PCTÓRICO E O POÉTICO - O MEL É MAIS DOCE QUE O SANGUE

Lorca e Dalí influenciaram-se reciprocamente. Ambos se conheceram na residência dos estudantes em 1922. Dalí, mais novo, tinha 19 anos, Lorca, mais velho e socialimente mais desenvolto tinha 23, uma forte atração recíproca os aproximou. O poeta era brilhante socialmente e logo ficou fascinado pelo pintor tímido que usava roupas de dândi inglês, ambos se tornaram companheiros inseparáveis entre 1923 e 1928. Relação expressa no poema Ode a Salvador Dalí e no quadro, O mel é mais doce que o sangue. Quando ambos se conheceram, Lorca já era um poeta conhecido, que vinha da interpretação fracassada da sua peça Malefício da Mariposa, mas que não afetará seu prestígio poético. Dalí ainda é um poeta iniciante, praticamente desconhecido, saindo da fase impressionista e entrando no cubismo. Faziam parte de um grupo social mais amplo de amigos, inclusive de boemia, que incluía ainda Pepín Bello e Buñuel.
Lorca e Dalí vão estreitar amizade e passar alguns verões juntos entre 1923-1925. Neste período Lorca escreva a peça Mariana Piñeda e o Romancero Gitano, que só farão aumentar seu prestígio. Dalí, por sua vez, pintará Natureza morta e Convite ao sono, obra esta que já conta com os valores surrealistas que o farão famoso. Em 1926, Dalí adere de vez ao surrealismo, mas esta pasagem, se dá em convívio pessoal com Lorca, e ambos se influenciaram mutuamente na temática, assumiram compromisso com o experimentalismo e ir mais além dos limites da arte formal. Além da amizade e da relação erótico-amorosa entre ambos, os une na vida e na arte, a temática da morte. Tanto um quanto outro tinham fixação por ela, Lorca, a cantará continudamente em seus versos, e chegará a simular seu próprio funeral desfilando num féretro em Andaluzia, fazendo mesmo da obsessão da morte um culto. Dalí ficou famoso por sua obsessão e medo da morte, ao pintar era uma forma catártica de desafiá-la, por isto também a obsessão com o tempo, cronos, que inevitavelmente vai corroendo a natureza e a nossa vida. Vejamos um poema sobre a morte, de Lorca, que exemplifica bem o que dissemos.
La luna y la muerte1

La luna tiene dientes de marfil.
¡Qué vieja y triste asoma!
Están los cauces secos,
los campos sin verdores
y los árboles mustios
sin nidos y sin hojas.
Doña Muerte, arrugada,
pasea por sauzales
con su absurdo cortejo
de ilusiones remotas.
Va vendiendo colores
de cera y de tormenta
como un hada de cuento
mala y enredadora.

O que se nota no poema, além da recorrência da morte, da lua, da noite, da tormenta, é a naturalidade com relação à morte. Ainda que a morte tenha um absurdo cortejo, ela passeia por salgueiros (árvore associada a cemitérios), mas o ritmo curto e musical do poema, a forma, contrasta com o ritmo curto, telegráfico quase elétrico, nos poemas de Lorca a morte vibra, e só falta cantar e dançar. O tragicismo da morte, contrasta com seu colorido, ainda que um colorido de tormentas. Vemos claramente que os temas que aparecerão na poesia de Dalí já se encontram plasmados na poesia de Lorca, quase como quadros não pintados. Em 1926 Dalí adere definitivamente ao surrealismo. O contato entre eles, mesmo quando distantes, através de cartas, é constante e continuado. Dalí está em Figueiras e Lorca em sua amada Granada. Em 1927, Lorca Dalí voltam a se encontrar em Figueiras e Cadaques, na casa dos pais de Dalí, logo após, Mariana Piñeda é encenada e o cenário é desenhado por Salvador Dalí. Cabeça de Dalí sobreposta a de Lorca faz parte do cenário, como se ambas fossem uma única, este é um tema recorrente que aparece até na pintura de Dalí e que também é desenhado por Lorca (que faz vários desenhos, alguns ilustram seus livros de poesia). Estas cabeças sobrepostas são interpretadas como amizade e influência recíproca, mas também são vistas por muito biógrafos como retratos do envolvimento amoroso de ambos, é fato que tanto Dalí é fascinado pela poesia e pela figura de Lorca, da qual confessou em sua biografia sentir uma certa inveja pelo brilho social; quanto Lorca é fascinado pela arte e também pela figura, incluindo o corpo do jovem Dalí. Em sua auto-biografia Dali relata que teria resistido a várias investidas de Lorca.
Entre 1928 e 1929 acontecerá a ruptura entre ambos. Dalí vai se encontrar com Buñuel, e vai ser incentivado por este a desprezar Lorca. Buñuel tem um irmão homossexual, o homossexualismo numa Espanha conservadora e ultra-católica pode se transformar num drama social, Buñuel despreza e hostiliza Lorca por sua homossexualidade e encoraja Dalí a fazer o mesmo. Em 1928, Dalí vai fazer uma crítica atacando o Romancero Gitano de Lorca, por seu 'populismo' artístico; por sua vez, Lorca vai se aproximar, em sua viagem a Nova Iorque do artista plástico Aladrén. Dalí critica Lorca por esta aproximação por considerar Aladrén um artista "sofrível", todavia, alguns biógrafos consideram que razões também sentimentais teriam levado à crítica tão feroz de Dalí. Em 1929, Dalí e Buñuel filma o Cão andaluz, filme que levará ao afastamento entre Lorca e Dalí. Ainda que Buñuel não admita, o nome de Cão andaluz é uma referência feroz e direta à Lorca, que estaria sendo hostilizado e ridicularizado por Buñuel por ser o poeta ser gay. Cão era o apelido que os estudantes madrileños perjorativamente davam, na residência dos estudantes, aos vindos do sul. Lorca e Dalí só se veriam após 1929 em 1935, um ano antes da morte do poeta. Depois de tão prolongada e intensa convivência, é óbvio que este afastamento atesta uma ruptura da proximidade e da intimidade entre ambos. Quando se reveem em 1935, Lorca conhece Gala, mulher de Dalí, a peça Yerma é encenada, com ruidoso sucesso. Gala fica impressionada com Lorca e o convida para ir a París estar com eles, mas Lorca recusa. Depois, este episódio será lembrando com remorsos por Dalí, que não se conforma por não ter insistido para que Lorca fosse com eles para París, e sente culpa pela morte de Lorca, a quem considera um de seus mortos queridos, Dalí considera que se tivesse insistido talvez o poeta tivesse ido a París e isto teria evitado sua morte. É lógico que esta conjectura de Dalí é apoiado mas no sentimento de estima e até de amor que sentia por Lorca, que por qualquer fato objetivo, Dali não tem absolutamente nada que ver com a morte de Federico. Mas Dalí dizia que "Lorca for fuzilado por engano. O caos espanhol me transtornou e os monstros da Guerra Civil invadiram minha tela". Aqui, duas observações nossas, a primeira, não concordamos que Lorca tenha morrido por engando, ele foi uma vítima intencional trágica de uma ditadura de cunho fascista que o odiava duplamente: por seus pendores socialistas e por ser gay. O segundo, já prenunciamos, a de que mesmo no auge da Guerra Civil espanhola a pintora de Lorca continuou sendo mais surrealista que engajada, a guerra civil entrou mais como monstro, terror e morte do que como guerra, realidade social, Dalí tomava o lado das vítimas, não o lado de uma das facções em disputa, como outros artistas tomaram.
Para entender melhor a relação entre o pictórico e o poético, vamos fazer uma comparação das figuras estéticas inscritas tanto no poema, Ode a Salvador Dali, quanto no quadro, O mel é mais doce que o sangue, que foram feitas, ambas as obras, no auge da relação íntima de amizade e ou amorosa dentre ambos, que confluiu para uma relação de parceria estética. Vejamos o poema:
ODA A SALVADOR DALÍ2

Una rosa en el alto jardín que tú deseas.
Una rueda en la pura sintaxis del acero.
Desnuda la montaña de niebla impresionista.
Los grises oteando sus balaustradas últimas.

Los pintores modernos en sus blancos estudios,
cortan la flor aséptica de la raíz cuadrada.
En las aguas del Sena un ice-berg de mármol
enfría las ventanas y disipa las yedras.

El hombre pisa fuerte las calles enlosadas.
Los cristales esquivan la magia del reflejo.
El Gobierno ha cerrado las tiendas de perfume.
La máquina eterniza sus compases binarios.

Una ausencia de bosques, biombos y entrecejos
yerra por los tejados de las casas antiguas.
El aire pulimenta su prisma sobre el mar
y el horizonte sube como un gran acueducto.

Marineros que ignoran el vino y la penumbra,
decapitan sirenas en los mares de plomo.
La Noche, negra estatua de la prudencia, tiene
el espejo redondo de la luna en su mano.

Un deseo de formas y límites nos gana.
Viene el hombre que mira con el metro amarillo.
Venus es una blanca naturaleza muerta
y los coleccionistas de mariposas huyen.

* * *

Cadaqués, en el fiel del agua y la colina,
eleva escalinatas y oculta caracolas.
Las flautas de madera pacifican el aire.
Un viejo dios silvestre da frutas a los niños.

Sus pescadores duermen, sin ensueño, en la arena.
En alta mar les sirve de brújula una rosa.
El horizonte virgen de pañuelos heridos,
junta los grandes vidrios del pez y de la luna.

Una dura corona de blancos bergantines
ciñe frentes amargas y cabellos de arena.
Las sirenas convencen, pero no sugestionan,
y salen si mostramos un vaso de agua dulce.

* * *

¡Oh, Salvador Dalí, de voz aceitunada!
No elogio tu imperfecto pincel adolescente
ni tu color que ronda la color de tu tiempo,
pero alabo tus ansias de eterno limitado.

Alma higiénica, vives sobre mármoles nuevos.
Huyes la oscura selva de formas increíbles.
Tu fantasía llega donde llegan tus manos,
y gozas el soneto del mar en tu ventana.

El mundo tiene sordas penumbras y desorden,
en los primeros términos que el humano frecuenta.
Pero ya las estrellas ocultando paisajes,
señalan el esquema perfecto de sus órbitas.

La corriente del tiempo se remansa y ordena
en las formas numéricas de un siglo y otro siglo.
Y la Muerte vencida se refugia temblando
en el círculo estrecho del minuto presente.

Al coger tu paleta, con un tiro en un ala,
pides la luz que anima la copa del olivo.
Ancha luz de Minerva, constructora de andamios,
donde no cabe el sueño ni su flora inexacta.

Pides la luz antigua que se queda en la frente,
sin bajar a la boca ni al corazón del bosque.
Luz que temen las vides entrañables de Baco
y la fuerza sin orden que lleva el agua curva.

Haces bien en poner banderines de aviso,
en el límite oscuro que relumbra de noche.
Como pintor no quieres que te ablande la forma
el algodón cambiante de una nube imprevista.

El pez en la pecera y el pájaro en la jaula.
No quieres inventarlos en el mar o en el viento.
Estilizas o copias después de haber mirado,
con honestas pupilas sus cuerpecillos ágiles.

Amas una materia definida y exacta
donde el hongo no pueda poner su campamento.
Amas la arquitectura que construye en lo ausente
y admites la bandera como una simple broma.

Dice el compás de acero su corto verso elástico.
Desconocidas islas desmiente ya la esfera.
Dice la línea recta su vertical esfuerzo
y los sabios cristales cantan sus geometrías.

* * *

Pero también la rosa del jardín donde vives.
¡Siempre la rosa, siempre, norte y sur de nosotros!
Tranquila y concentrada como una estatua ciega,
ignorante de esfuerzos soterrados que causa.

Rosa pura que limpia de artificios y croquis
y nos abre las alas tenues de la sonrisa
(Mariposa clavada que medita su vuelo).
Rosa del equilibrio sin dolores buscados.
¡Siempre la rosa!

* * *

¡Oh, Salvador Dalí de voz aceitunada!
Digo lo que me dicen tu persona y tus cuadros.
No alabo tu imperfecto pincel adolescente,
pero canto la firme dirección de tus flechas.

Canto tu bello esfuerzo de luces catalanas,
tu amor a lo que tiene explicación posible.
Canto tu corazón astronómico y tierno,
de baraja francesa y sin ninguna herida.

Canto el ansia de estatua que persigues sin tregua,
el miedo a la emoción que te aguarda en la calle.
Canto la sirenita de la mar que te canta
montada en bicicleta de corales y conchas.

Pero ante todo canto un común pensamiento
que nos une en las horas oscuras y doradas.
No es el Arte la luz que nos ciega los ojos.
Es primero el amor, la amistad o la esgrima.

Es primero que el cuadro que paciente dibujas
el seno de Teresa, la de cutis insomne,
el apretado bucle de Matilde la ingrata,
nuestra amistad pintada como un juego de oca.

Huellas dactilográficas de sangre sobre el oro,
rayen el corazón de Cataluña eterna.
Estrellas como puños sin halcón te relumbren,
mientras que tu pintura y tu vida florecen.

No mires la clepsidra con alas membranosas,
ni la dura guadaña de las alegorías.
Viste y desnuda siempre tu pincel en el aire
frente a la mar poblada de barcos y marinos.

Este poema, composto em versos alexandrinos clássicos, ainda que sem rima, atestam o ideal artístico inovador de Lorca, para a época. No poema, ainda que haja apologia de Dalí, impresiona a ausência de sentimentalismo e a fluidez da forma "desnuda a montanha de névoa impressionante", a poesia como arte plástica, pictórica, e o verso como pinceladas. O poema, em versos, o que é no quadro, o manifesto anti-artístico de Dalí, a "santa objetividade", do jovem Dalí, anterior ao surrealismo. A arte despida de sentimentos (que mostramos anteriormente está nos ideais da Geração de 1927 desde o manifesto gongórico), razão-luz-geometria (que efetivamente, na fase surrealista seriam superados pelo inconsciente-noite-disformismo). Fase ainda de formação do que viria a ser o Dalí surrealista, o quadro já inclui componentes que apontam para o surrealismo, analisemos o quadro, que exibiremos abaixo:
A crítica não apreciou a tela, que tem uma história baseada na amiga louca de Dalí chamada Lídia. Dalí em Lorca estavam em Cadaques, local idílico em litorâneo, em companhia de Lídia e do artista Eugênio d´Ors. O filho de Lídia levou Eugênio, que tinha fobia a alto-mar, a uma pescaria em alto mar. Eugênio voltou mareado e assustado. Lídia brigou com o filho, que revoltou-se, dizendo que a mãe defende alguém que não era do seu sangue, ela disse a frase que denominou o quadro: "o mel é mais doce que o sangue". A presença de Lídia, que por vezes ficava completamente fora da realidade, já que era esquizofrênica, serviu de pano de fundo para exercitar o surrealismo tanto em Dalí quanto em Lorca, uma arte para além da objetividade.
O quadro, que não agradou a crítica, é um Dalí pré-surrealista, mas já margeando esta temática, com influência cubista, é dividido numa diagonal com um plano de fundo montanhoso, agulhas fincadas produzem a impressão de espelhos, um corpo feminino escultório remete à metafísica, a figuração do quadro nos faz lembrar Miró. Aliás, Miró considera esta obra a primeira obra surrealista de Dalí. Alguns críticos preferem catalogar esta obra como a fase "Lorca", de Dalí, aparecem superpostas as cabeças de Lorca e Dalí (o que era muito comum nos desenhos de ambos deste período), sugerindo a ligação, confluência intelectual e relação erótica entre ambos. A cabeça de Lorca aparece como um busto caído na área, sugerindo decepação e morte (temática recorrente de ambos). Lorca é comparado nas pinturas de Dalí a São Sebastião, o que tem um componente erótico sádico homossexual, o corpo nu e flechado do santo, como referência a auto-imolação martírico (o que no caso de Lorca resultaria profético). As cabeças justapostas sugerem também que são almas gêmeas, o envolvimento amoroso, platônico ou erótico, ninguém sabe ao certo. A morte explode no carro, com cadáveres de burro em putrefação, esqueleto de burro, as cabeças decepadas, a angústia, o agon da morte para quem vive, que além de ser um tema recorrente, é um tema surrealista, já que dialoga com as pulsões freudianas, libido, Eros x Thanatos. Dalí e Lorca tinham paixão pela temática da morte, assim como pavor de morrer, esta obsessão/fobia, chegaria ao ponto de Lorca representar seu funeral pelas ruas de Granada, uma forma de catarse artística da morte, amor/obsessão pelo objeto de fobia.
Dalí seria no quadro Pólux, o imortal dos dióscuros, mas jorram fios-de-sangue da cabeça de ambos. Lorca em seu poema fará a apologia da obra de Dalí, e se referencia neste quadro, na mulher morta (e a obsessão edipiana de ambos pelo corpo feminino sem chegar à posse sexual). A mulher morta representa o conflito erótico-sexual, da mulher interditada que não deve ser possuída, a própria relação de Lorca com Gala, que vai ser após sua mulher da vida inteira, e a quem Dalí se submete, sem que haja posse sexual da mulher. A partir desta obra, Dalí volta-se para a pesquisa do inconsciente e mergulha no surrealismo. Logo após esta obra surge o grande masturbador (1929), é uma fase fálica e escatológica, que estão relacionados à tensão que surgiu da relação de ambos sobre a posse sexual. Se não sabemos ao certo até onde chegou a ligação erótica, os quadros poderiam ser uma catarse da relação sexual não concretizada, e os quadros refletiriam também a fixação onanista de Lorca, que na relação amorosa com Gala não chegava à posse sexual, mas à visão do corpo da esposa, sucedia a masturbação. Esta fase escatológica/onanista foi criticada pelos próprios surrealistas, que temiam uma crítica negativa ao movimento, Gala, que na época era esposa de Paul Eluard, teve como missão, pedir a Dali que suavizasse sua obsessão escatológica (que sugere o caráter sexual passivo anal).
Todos estes conflitos eróticos de Dali e Lorca são aqui relatados não como dados biográficos, mas porque são refletidos em suas obras, e tem função tanto na junção dos dois, quanto na separação contenciosa que se deu. Após Dali filmar O Cão Andaluz com Buñuel, que instigou a Dalí a rejeitar Lorca por conta das investidas homossexuais deste, ridicularizando as características homossexuais de Lorca, houve um rompimento na amizade, com reflexos traumáticos para Lorca. Além da rejeição, Dalí ridicularizava o antigo parceiro de arte e convívio afetivo/erótico. Nas memórias de Dalí, ele relata que Lorca o procurava sexualmente e este sempre o rejeitava. Não sabemos até que ponto o relato unilateral é fidedigno, só podemos ir até onde a documentação nos deixa chegar.
A partir de 1930, já em París, para se juntar aos surrealistas Renê Margrite, Paul Eluard, e Gala (que nesta época era esposa de Eluard), Dalí vai se juntar ao movimento, mergulhando na pesquisa do subconsciente, do sono e do sonho, dos estados oníricos da alma. Como já relatamos. Gala tem, como já relatamos, a missão de freiar a obsessão escatológica de Dali nos quadros. Dalí se apaixona por Gala e faz tudo para seduzi-la. A relação é como o movimento, surrealista. Gala, linda, acaba abandonando Eluard (que continua amigo e vai conviver com ambos) por um jovem Dalí que é, segundo ele mesmo relata, virgem em relação a sexo com mulheres. O contraditório da relação, é que a ligação edipiana é bem nítida. Gala e Dalí não são um casal em que há o ato sexual, pelo menos não o de posse, como relatado na sua arte e em sua biografia, Dalí se excita com gala, mas chega ao êxtase através da masturbação, e é Gala quem conduz o casal, administrando a arte e a carreira de Dalí. A vida imitou a arte neste caso. A figura feminina reincidente nos quadros de Dalí, seriam a interiorização em si do feminino, do desejo de ser como a mulher.
Em París e com Gala Dalí faz a passagem completa para o surrealismo, que não é o objeto deste estudo e termina sua fase de influência lorqueana, que, todavia, estará em sua obra o resto da vida (noite, sono, soño, morte), já que na temática de Lorca já estão muito dos temas caros aos surrealistas e a Dalí em especial. Fora a ligação afetiva-amorosa que marcará a obra de ambos.
Como resposta à obra O cão andaluz, Lorca realizou, na sua fase Nova-iorquina, com Emílio Armero, o roteiro para o filme Viagem à lua. Um roteiro para um filme completamente incomum, que só foi redescoberto na década de 80, nos Estados Unidos, junto aos pertences do mexicano Emilio Armero. O roteiro do filme ganhou sua primeira edição crítica, na Espanha, só em 1994. Foi filmado, pouco depois, em duas diferentes versões: a de Javier Martín Domínguez, de 1997, e a de Frederic Amat, de 1998. Neste trabalho faremos a crítica somente do roteiro, sem entrar na polissemia das versões filmadas.
Segue o roteiro:
Viaje a la Luna
(1929)
1
Cama blanca sobre una pared gris. Sobre los paños surge un baile de números 13 y 22. Desde dos empiezan a surgir hasta que cubren la cama como hormigas diminutas.
2
Una mano invisible arranca los paños.
3
Pies grandes corren rápidamente con exagerados calcetines de rombos blancos y negros.
4
Cabeza asustada que mira fija un punto y se disuelve sobre una cabeza de alambre con un fondo de agua.
5
Letras que digan Socorro Socorro Socorro con doble exposición sobre un sexo de mujer con movimientos de arriba abajo.
6
Pasillo largo recorrido por la máquina con ventana de final.
7
Vista de Broadway de noche con movimientos de tic-tac. Se disuelve en el anterior.
8
Seis piernas oscilan con gran rapidez.
9
Las piernas se disuelven sobre un grupo de manos que tiemblan.
10
Las manos que tiemblan sobre una doble exposición de un niño que llora.
11
Y el niño que llora sobre una doble exposición de una mujer que la da una paliza.
12
Esta paliza se disuelve sobre el pasillo largo otra vez, que la máquina recorre con rapidez.
13
Al final un gran plano de un ojo sobre una doble exposición de peces, y se disuelve sobre el siguiente.
14
Caída rápida por una montaña rusa en color azul con doble exposición de letras de Socorro Socorro.
15
Cada letrero de Socorro Socorro se disuelve en la huella de un pie.
16
Y cada huella de pie en un gusano de seda sobre una hoja en fondo blanco.
17
De los gusanos de seda sale una gran cabeza muerta y de la cabeza muerta un cielo con luna.
18
La luna se corta y aparece un dibujo de una cabeza que vomita y abre y cierra los ojos y se disuelve sobre
19
dos niños que avanzan cantando con los ojos cerrados.
20
Cabezas de los niños que cantan llenas de manchas de tinta.
21
Un plano blanco sobre el cual se arrojan gotas de tinta. (Todos estos cuadros rápidos y bien ritmados.) Aquí un letrero que diga No es por aquí.
22
Puerta
23
Sale un hombre con una bata blanca. Por el lado opuesto viene un muchacho desnudo en traje de baño de grandes cuadros blancos y negros.
24
Gran plano del traje sobre una doble exposición de un pez.
25
El hombre de la bata le ofrece un traje de arlequín pero el muchacho rehúsa. Entonces el hombre de la bata lo coge por el cuello, el otro grita, pero el hombre de la bata le tapa la boca con el traje de arlequín.
26
Gran plano de manos y traje de arlequín apretando con fuerza.
27
Se disuelve sobre una doble exposición de serpientes de mar del aquárium y éstas en los cangrejos del mismo aquárium y éstos en otros peces con ritmo.
28
Pez vivo sostenido en la mano en un gran plano hasta que muera y avance la boquita abierta hasta cubrir el objetivo.
29
Dentro de la boquita aparece un gran plano en el cual saltan, en agonía, dos peces. Éstos se convierten en un caleidoscopio en el que cien peces saltan o laten en agonía.
30
Letrero: Viaje a la Luna.
Habitación. Dos mujeres vestidas de negro lloran sentadas con las cabezas echadas en una mesa donde hay una lámpara. Dirigen las manos al cielo. Planos de los bustos y las manos. Tienen las cabelleras echadas sobre las caras y las manos contrahechas con espirales de alambre.
31
Siguen las mujeres bajando los brazos y subiéndolos al cielo.
32
Una rana cae sobre la mesa.
33
Doble exposición de la rana vista enorme sobre un fondo de orquídeas agitadas con furia. Se van las orquídeas y aparece una cabeza enorme dibujada de mujer que vomita que cambia de negativo a positivo y de positivo a negativo rápidamente.
34
Una puerta se cierra violentamente y otra puerta y otra y otra sobre una doble exposición de las mujeres que suben y bajan los brazos.
Al cerrarse cada puerta saldrá un letrero que diga: Elena Helena elhena eLHeNa.
35
Las mujeres se dirigen rápidamente a la puerta.
36
La cámara baja con gran ritmo acelerado las escaleras y con doble exposición las sube.
37
Triple exposición de subir y bajar escaleras.
38
Doble exposición de barrotes que pasan sobre un dibujo: Muerte de Santa Rodegunda.
39
Una mujer enlutada se cae por la escalera.
40
Gran plano de ella.
41
Otra vista de ella muy realista. Lleva pañuelo en la cabeza a la manera española. Exposición de las narices echando sangre.
42
Cabeza boca abajo de ella con doble exposición sobre un dibujo de venas y granos gordos de sal para el relieve.
43
La cámara desde abajo enfoca y sube la escalera. En lo alto aparece un desnudo de muchacho. Tiene la cabeza como los muñecos anatómicos con los músculos y las venas y los tendones. Luego sobre el desnudo lleva dibujado el sistema de la circulación de la sangre y arrastra un traje de arlequín.
44
Aparece de medio cuerpo. Y mira de un lado a otro. Se disuelve sobre una calle nocturna.
45
Ya en la calle nocturna hay tres tipos con gabanes que dan muestras de frío. Llevan los cuellos subidos. Uno mira la luna hacia arriba levantando la cabeza y aparece la luna en la pantalla, otro mira la luna y aparece una cabeza de pájaro en gran plano a la cual se estruja el cuello hasta que muera ante el objetivo, el tercero mira la luna y aparece en la pantalla una luna dibujada sobre fondo blanco que se disuelve sobre un sexo y el sexo en la boca que grita.
46
Huyen los tres por la calle.
47
Aparece en la calle el hombre de las venas y queda en cruz. Avanza en saltos de pantalla.
48
Se disuelve sobre un cruce en triple exposición de trenes rápidos.

49
Los trenes se disuelven sobre una doble exposición de teclados de pianos y manos tocando.
50
Se disuelve sobre un bar donde hay varios muchachos vestidos de esmoquin. El camarero les echa vino pero no pueden llevarlo a su boca. Los vasos se hacen pesadísimos y luchan en una angustia de sueño. Entra una muchacha casi desnuda y un arlequín y bailan en ralentí. Todos prueban a beber pero no pueden. El camarero llena sin cesar los vasos que ya están llenos.
51
Aparece el hombre de las venas gesticulante y haciendo señas desesperadas y movimientos que expresan vida y ritmo acelerado. Todos los hombres se quedan adormilados.
52
Una cabeza mira estúpidamente. Se acerca a la pantalla y se disuelve en una rana. El hombre de las venas estruja la rana con los dedos.
53
Sale una esponja y una cabeza vendada.
54
Se disuelve sobre una calle. La muchacha vestida de blanco huye con el arlequín.
55
Aparece una cabeza que vomita. Y en seguida toda la gente del bar que vomita.
56
Se disuelve sobre un ascensor donde un negrito vomita. La muchacha y el arlequín suben en el ascensor.
57
Suben en el ascensor y se abrazan.
58
Plano de un beso sensual.
59
El muchacho muerde a la muchacha en el cuello y tira violentamente de sus cabellos.
60
Aparece una guitarra. Y una mano rápida corta las cuerdas con unas tijeras.
61
La muchacha se defiende del muchacho, y éste con gran furia le da otro beso profundo y pone los dedos pulgares sobre los ojos como para hundir los dedos en ellos.
62
Grita la muchacha y el muchacho de espaldas se quita la americana y una peluca y aparece el hombre de las venas.
63
Entonces ella se disuelve en un busto de yeso blanco y el hombre de las venas la besa apasionadamente.
64
Se ve el busto de yeso con huellas de labios y huellas de manos.
65
Vuelven a salir las palabras Elena elena elena elena.
66
Estas palabras se disuelven sobre grifos que echan agua de manera violenta.
67
Y estos grifos sobre el hombre de las venas muerto sobre periódicos abandonados y arenques.
68
Aparece una cama y unas manos que cubren un muerto.
69
Viene un muchacho con una bata blanca y guantes de goma y una muchacha vestida de negro. Pintan un bigote con tinta a una cabeza terrible de muerto. Y se besan con grandes risas.
70
De ellos surge un cementerio y se les ve besarse sobre una tumba.
71
Plano de un beso cursi de cine con otros personajes.
72
Y al final con prisa la luna y árboles con viento.3
Lorca, neste argumento, mistura todo o pictorismo herdado de sua relação com Dalí, ao onírico, a sua nova influência surreal. Explodem no argumento: peixes, serpentes, vermes, luas, um arlequím, ou, um homem vestido de arlequim em uma fantasia que já não lhe cabe (inadequação à idade adulta), mãos, cabeças (corpo mutilado), vômitos, caimbra, escadas, corredores vazios e escuros, um mundo em ruínas, violento. O texto tem um substrato mítico na representação da morte, na tragédia da passagem da infância para a idade adulta, e a relutância em assumir estes papéis impostos socialmente, representado por cadeias, pelos corredores negros (subconsciente, id x ego). Pode se relacionar este roteiro escatológico, com o Lorca do poema do Lago Eden (infância feliz), no qual Adão fecunda peixes e Eva come formigas, no roteiro de Viagem à lua, de um Lorca pictórico e surrealista, passa uma multidão que vomita, é o nojo, a nâusea na vida.
Lorca recebe a influência do círculo Nova Iorquino, das mensagens modernas da grande metrópole e dos intelectuais avant garde, e a fase em que se vê mais nitidamente seus problemas de identidade com relação à homossexualidade: Ode a Walt Whitman, considerado um ícone gay. O arlequím que não cabe na fantasia, o adulto na roupa de adulto representaria o agon da vida, a inadequação sexual, a angústia, e logo o vômito, a escatologia. O argumento, segundo seus biógrafos, tem influência do cinema de Keaton e Chaplin, que Lorca assiste nesta época, e das telas e da convivência com Salvador Dalí. É um roteiro polissêmico que só foi filmado na década de 90, e que expressa toda contradição e angústia da poesia Lorquiana.

O CRIME FOI EM GRANADA

Dalí e Lorca foram representantes de uma Espanha que estava em luta consigo mesmo, em luta mortal, com milhões de vítimas. Ambos tinham obsessão pela morte, Lorca, chegou a ser seu cultor, namorava com a morte, em seus poemas, como que cantando a sua beleza. Será que adivinhava seu fim trágico e precoce, com a fascista e idiota sentença de ser fuzilado por ser "rojo y maricas"? Seu fim trágico lhe dá um ar mítico, de profeta sacrificado por seu próprio povo, por espalhar as verdades que antecedam seu tempo. O mais genial escritor do século XX na Espanha, que não era um militante político, foi julgado e condenado pela excelência e o alcance de suas obras, estas sim, um ariete poderosa contra uma Espanha conservadora, ultracatólica e feudal. Dentre as muitas homenagens prestadas, citamos aqui a que achamos mais pungente e comovedora, para atestar que burlando-se da morte, mesmo fuzilado, Lorca vive:
El crimen fue en Granada - Antonio Machado4
A Federico García Lorca
I

EL CRIMEN

Se le vio, caminando entre fusiles
por una calle larga,
salir al campo frío,
aún con estrellas, de la madrugada.
Mataron a Federico
cuando la luz asomaba.
El pelotón de verdugos
no osó mirarle a la cara.
Todos cerraron los ojos;
rezaron: ¡ni Dios te salva!
Muerto cayó Federico
sangre en la frente y plomo en las entrañas—.
... Que fue en Granada el crimen
sabed —¡pobre Granada!—, ¡en su Granada!...


II

EL POETA Y LA MUERTE

Se le vio caminar solo con Ella,
sin miedo a su guadaña.
Ya el sol en torre y torre; los martillos
en yunque, yunque y yunque de las fraguas—.
Hablaba Federico,
requebrando a la Muerte. Ella escuchaba.
«Porque ayer en mi verso, compañera,
sonaba el eco de tus secas palmas,
y diste el hielo a mi cantar, y el filo
a mi tragedia de tu hoz de plata,
te cantaré la carne que no tienes,
los ojos que te faltan,
tus cabellos que el viento sacudía,
los rojos labios donde te besaban...
Hoy como ayer, gitana, muerte mía,
qué bien contigo a solas,
por estos aires de Granada, ¡mi Granada!»

III

Se les vio caminar...
Labrad, amigos,
de piedra y sueño, en el Alhambra,
un túmulo al poeta,
sobre una fuente donde llore el agua,
y eternamente diga:
el crimen fue en Granada, ¡en su Granada!
CONCLUSÃO

Esta dissertação objetivava fazer a relação entre o poético e o pitagórico, a correlação entre a poesia de Federico Garcia Lorca e os quadros de Salvador Dalí. Mostrou-se como, de forma efetiva, não só a poética, mas a convivência de Dali com Lorca o ajudou a aperfeiçoar sua arte, mas que a mistura estética e temática, a inter-relação de temas e cânones, acabaram por enriquecer de um lado as telas de Dalí, de outro a poesia de Lorca. A fase "Lorca" de Dalí preparou seu salto para o surrealismo, na verdade, muitos dos temas que ficaram permanentemente presentes nos quadros do pintor surrealista já estavam pintados nos poemas de Lorca: a morte, a agonia, a solidão, o desespero, a noite, o onírico, o subconsciente. De outro lado, Lorca tentou transpor para sua poesia a objetividade da pintura, vários dos poemas narram cenários, sem que haja a intervenção do poeta, sem impressões subjetivas, como se ele fora apenas o espectador de um cenário.
A relação contraditória, e por vezes antagônica com Buñuel, a ruptura entre Lorca e Dalí, também acabou virando proposta estética e temática. O filme Cão andaluz é um marco não só para Buñuel, mas para Dalí, que a partir deste ponto é considerado um dos integrantes do movimento surrealista, e também para Lorca, que em seu exílio voluntário em Nova Iorque, reage ao filme modificando sua estética nos poemas e até realizando um roteiro. Contraditoriamente, a ruptura pessoal não levou a uma ruptura artística e temática, Lorca incorporará os temas surrealistas a sua poesia, ainda que estes já estivessem de forma inata, em germen nela. Lorca, em que pese seu grande talento formal, é um poeta intuitivo, e escreve sobre temas que a poesia da própria Geração de 1927 não ousava tocar. Uma geração que começa querendo uma poesia limpa, sem arroubos, e que depois vai se aproximando do coloquial e dos temas populares e políticos (Lorca também fez este caminho). Mas Federico vai além, insere no movimento os temas da pulsão, da libido, do subconsciente, da angústia, da morte, da agonia, da loucura. Nenhum outro poeta desta geração teve temática tão ampla ou mergulhou tão profundamente neste temas.
Assim, concluímos que a relação entre ambos artistas acabou por diluir as fronteiras da poesia e das artes plásticas, o manifesto anti-artístico de ambos, acabou resultando numa arte por excelência, de extremo apuramento, numa estética de contra-cultura, do bizarro, do feio, do vômito, da escuridão, do medo, do escatológico, da homossexualidade e da repressão sexual, da pulsão, da morte, do id e do ego. Feliz encontro artístico que nos legou obras, em que vemos o pictórico de Dalí nos poemas de Federico Garcia Lorca, e a poética de Lorca nos quadros de Salvador Dalí.
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LORCA, Federico Garcia; 1929, Viaje a la Luna, retirado da internet do blog aqui citado: http://federicogarcialorca.net/obras_lorca/viaje_a_la_luna.htm
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MORETI, Franco; 2009, A cultura do Romance, tradução Denise Bottmann, São Paulo, Cosacnayf.
NERUDA, Pablo; 2005, Confieso que he vivido, Pehuén, Santiago.





1LORCA, 1999
2LORCA, 1999
3LORCA, 1929

4Antonio Machado, 1936 - http://www.abelmartin.com/LG/am-01.html

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