Federico
Garcia Lorca e Salvador Dali, o poético e o pictórico - O mel é
mais doce que o sangue
Resumo
O
objeto desta dissertação é mostrar é fazer a correlação entre
as influências que o principal poeta espanhol da Geração de 1927,
Federico García Lorca era receber do movimento surrealista, e
principalmente do pintor Salvador Dalí, e as influências que por
sua vez o grupo de poetas de 1927, e principalmente Lorca, irão ter
sobre o grande pintor surrealista espanhol. As relações de mão de
dupla entre a estética poética e pictórica, os temas comuns como:
subconsciente, morte, escatologia (evocativo de passividade anal),
noite, agonia, dor, sonho, ritmo, musicalidade.
A
idéia principal é discutir o papel do pictórico na poesia, e como
o poema, que se relaciona com o onírico e a imagem mais que a prosa,
pode ser expressão escrita de uma pintura, ou mesmo de um filme -
Buñuel, O
cão andaluz. Buñuel,
e principalmente Dalí deixarão marcas indeléveis na obra artística
de Federico García Lorca.
The
object of this dissertation is to show is to correlate the influences
that the main Spanish poet of the Generation of 1927, Federico García
Lorca was receiving the surrealist movement, and especially the
painter Salvador Dalí, and which in turn influences the group of
poets 1927, and especially Lorca, will have on the great Spanish
surrealist painter. Relations between handheld dual poetic and
pictorial aesthetics, common themes as: subconscious, death,
eschatology, night, agony, pain, dream, rhythm, musicality.
The
main idea is to discuss the role of pictorial poetry, and how the
poem, which relates to the dream and the image more than prose,
written expression can be a painting, or even a movie - Buñuel, The
Andalusian Dog . Buñuel, Dalí and mostly leave indelible marks on
the artistic work of Federico García Lorca.
Palavras-chave:
Poética, Pictórico, Mudança estética; Mudança temática; Dali,
Lorca.
INTRODUÇÃO:
Federico
Garcia Lorca é o principal poeta da geração de 27 na Espanha,
Geração que foi a mais fecunda do século XX, em que pese estar
espremida entre as duas grandes guerras e uma Guerra Civil (que foi o
prólogo da Segunda Grande Guerra Mundial, e onde Hitler pode ensaiar
suas táticas de Guerra Relâmpago, foi na Guerra Civil Espanhola que
a força aérea alemã ensaio suas estratégias de bombardeio aéreo).
Esta geração de 27 esteve dividida entre a tradição e a
modernidade, entre a agonia da perdida glória espanhola, e a busca
de novos arquétipos humanísticos, artísticos e estéticos. O marco
de princípio desta geração é a comemoração do nascimento de
Luis de Gôngora, poeta cultista tradicional, representante da glória
perdida espanhola, e o elogio ao passado espanhol perdido; de outro
lado, a busca de uma poesia mais direta, que recebesse influência da
estética modernista e seus experimentalismo, como o verso branco sem
rimas, ou a temática popular e a pesquisa da linguagem coloquial
popular e vulgar.
Lorca
foi, sem dúvida, o mais avançado destes vanguardistas na poesia,
recebendo influxo fortíssimo da poesia dos povos marginalizados da
Andaluzia, inclusive dos ciganos, e da arte pictórica, sendo o
grande poeta surrealista da Espanha, que foi a maior ousadia
vanguardista desta geração, incorporar o movimento da pintura e do
cinema, a sinestesia do sonho e do subconsciente, e os temas
agônicos, a morte, a perda, a dor, a loucura, o desespero. Na
formação surrealista de Lorca destaca-se sua amizade e vida em
comum com Salvador Dali na residência dos estudantes. A influência
recíproca e os experimentos vanguardísticos que ambos fizeram
juntos, nossa dissertação vai trabalhar a relação entre o
pictórico e o poético na obra de Lorca, a influência que o
movimento surrealista e os experimentalismos feitos em conjunto com
Salvador Dali vão implementar em sua obra.
Neste
texto, vamos brevemente elucidar o que foi a Geração de 27 para
entrarmos no tema principal, que é um dos influxos mais fertéis na
criação de Lorca, que foi a influência do surrealismo de Dalí em
sua temática e estética.
Vamos
trabalhar a relação temática recíproca, além da ideia Lorquiana
de transformar a poesia em imagem, não só pictórica, mas do
movimento, incorporando a novidade da época que era o cinema,
recordando que além da Dali, Buñuel fazia parte do círculo de
amizades de Lorca, ainda que não desfrutasse da mesma amizade,
perspassando para a relação de temas recorrentes de Federico/Dali:
morte, lua, amor trágico, dor, pesar, lua, escatologia, passividade
anal, masturbação, homossexualismo, caveiras, subconsciente, sonho,
sono. A relação entre os dois poetas, inclusive amorosa em que
ninguém sabe efetivamente a que ponto houve o envolvimento. As
cartas e os depoimentos, a convivência em comum, levam a supor que
houve um envolvimento amoroso. Todavia, é controverso até que ponto
chegou esta relação. Para Lorca a homossexualidade sempre foi
percebida de forma contraditória e conflitiva. Para alguns, Lorca e
Dalí nunca teriam chegado a um encontro amoroso, a efetivamente
terem uma relação sexual. Baseando-se nos relatos de Dalí, Lorca
estaria disposto a relação amorosa, mas Dalí tería fugido de suas
incursões. Os quadros masturbatórios de Dalí, e a própria relação
que ele teve com sua mulher por toda a vida, Gaia, em que não há a
posse amorosa, mas somente a atividade onanista, deixam dúvidas
sobre efetivamente qual era o grau de envolvimento erótico entre
ambos. E a própria crítica das obras, com o tema da
homossexualidade latente, com idealização do corpo feminino,
escatologia masturbatória, levam a inflexão de que Dalí
desempenhou um papel homossexual passivo por toda sua vida, tendo ou
não tido relações amorosos homossexuais. Ressaltamos que como a
temática homossexual vai se refletir no pictórico e no poético, é
de extrema necessidade citá-la na relação de amizade e influência
entre os dois, mas dizer que efetivamente, com as documentações
existentes, com os relatos e cartas, nada além do envolvimento
afetivo se pode afirmar categoricamente, não há provas contudentes
das práticas eróticas entre Dalí e Lorca.
LORCA,
DALI E A GERAÇÃO DE 1927
Afinal,
o que foi a Geração de 27 na Espanha, qual seu significado? Optamos
por definir a Geração de 1927 como um conjunto de escritores,
pintores e até cineastas (Buñuel, por exemplo) que nasceram em anos
próximos, tiveram formação intelectual com influências
semelhantes e tiveram por base guias canônicos comuns. Lorca é
desta geração o escritor mais influente, ao mesmo tempo que é o
mais espanhol por sua temática e seu destino, é o mais local, o que
mais absorve a temática regional, de sua terra natal, Andaluzia
incluindo o idioma dos ciganos em seu Cante Jondo. Andaluzia é um
dos locais de maior influência árabe na Espanha, assim, na poética
de Lorca, também há, de forma indireta, reflexos do arabismo
andaluz, da cultura árabe que durante séculos dominou a Península
Ibérica, e que refletirá na poesia de Lorca não só no léxico,
mas no ritmo e na temática. Não à toa, Lorca será o poeta
espanhol da Geração de 27 que mais influenciará os árabes.
O
significado da Geração de 27 na Espanha transcende a questão
meramente estética, é uma geração de intelectuais que busca
entender o lugar da nação, após a perda da hegemonia da antiga
metrópole e império colonial. É chamada de Geração de 27, por
terem nascido em anos próximos, terem recebido formação
intelectual com influência semelhante, e tiveram por base literária
ícones comuns, o espanhol Gôngora e o latino-americano Rubem Dario.
Como eram todos jovens, renovaram a linguagem literária, com o uso
do coloquial e do popular, ao mesmo tempo que iam buscar palavras
perdidas ou não descobertas da Espanha popular, e criaram cânones
libertários e renovadores não só na poesia, mas também no teatro,
com o próprio Lorca, no cinema com Luis Buñuel e nas artes
plásticas com Salvador Dalí. A geração constitutuiu-se como tal
após o manifesto da comemoração do nascimento de Luis de Góngora
e Argote, que foi considerado o poeta por excelência, pela limpidez
de seu verso, focado no equilíbrio sem os exageros románticos. Esta
geração criou relações pessoais e políticas, tinham consciência
de serem um grupo, criando e escrevendo em revistas literárias
comuns – Caballo Verde, Revista Sevillana Grecia, etc – e em
atitudes estéticas e políticas coletivas, assim, a temática
popular e espanholista era comum a obra de quase todos.
Temáticas
da geração de 27: esta geração, ao mesmo tempo que fazia a
apologia do equilíbrio e da simplicidade, acabou enovelada em
contradições do seu próprio tempo, em que a dialética marxista
causava grande impacto na estética literária (ainda que o grupo não
tivesse nenhum escritor que seguisse uma estética de influência
marxista), é que a confrontação de classes sociais e as revoltas
populares, que inspiraram inclusive a República, acabavam por se
impor no tom de crítica social de muitas obras, e no inconformismo
dos costumes, tanto na atitude anti-burguesa pessoal e de vida,
quanto no experimentalismo estético. Assim, eram temas da geração
de 27, sempre em contradição:
1)
o equilíbrio e a contradição; de um lado o equilíbrio buscado na
poesia de Góngora, um verso límpido, fluido, sem os exageros
românticos; de outro lado as contradições que assolam a própria
Espanha, em suas lutas para sair da influência feudal e se
modernizar, com a pressão da classe trabalhadora, que elege um
governo socialista.
2)
o intelectual e o sentimental; De um lado a busca de um equilíbrio
e da eliminação das influências românticas, vistas como
decadentes e burguesas; de outro lado, o retorno do lírico, na
transcrição dos cantos populares.
3)
Pureza de sentimentos e revolução (inclusive política); De um lado
a busca de sentimentos estáveis e sem arroubos, de outro os
sentimentos revolucionários, inclusive os trágicos (presença
recorrente da morte);
4)
Cânon culto e influência estética e linguística popular; Uma das
maiores contradições da Geração de 27, que se inaugura como
corrente fazendo a apologia do Góngora e do cultismo; logo em
seguida, até pelos compromissos políticos, esta geração vai se
contaminar dos temas e da estética popular, o que era completamente
estranho ao cânon culto original;
5)
Universalismo e internacionalismo versus o espanholismo (ultraísmo),
ou seja a busca de uma glória e de uma identidade perdida que na
verdade ninguém sabia onde buscar, apologia de Mancha e Andaluzia,
do local e do particular universalizados, devido à debilidade da
classe dominante, da burguesia espanhola, a nova identidade era
buscada na vida e na linguagem das classes populares e
marginalizadas;
6)
Tradição e respeito aos clássicos e renovação e experimentalismo
nos modelos literários; A Geração de 1927 vai chegar ao
experimentalismo extremo com a mescla entre a pintura de Dalí, o
cinema de Buñuel e a pintura de Lorca, o pictorismo e o surrealismo
expressos na poesia, o surrealismo será o avant
garde
dos experimentalismos desta geração.
Vê-se
que o movimento se move em contradição hegeliana, na negação da
negação, sempre em tensão dialética entre o passado e o futuro, a
ruptura e a tradição, a busca de um novo caminho e o reconhecimento
do ser espanhol. Isto, em lugar de levar a uma estagnação, levou a
uma grande riqueza de formas, já que todos os eânones não eram
fixos, havia um experimentalismo em busca do que seria esta nova
identidade. Na verdade, o movimento refletia o momento da própria
Espanha, um signo de uma contradição de um sentimento nostálgico
de um passado perdido, e as rupturas revolucionárias que acabarão
por gestar a República, o tragicismo dos poemas de Lorca, acabariam
profeticamente por prenunciar a tragédia a qual sucumbirá a jovem
República e a própria tragédia pessoal do jovem escritor.
Em
Dalí, um pintor, nem todas as características da Geração de 1927
são expressas, das características da Geração, só o
experimentalismo, a busca de uma nova estética para esta nova
geração espanhola. Dalí vai do impressionismo e do dadaísmo,
cubismo, em rápida e franca evolução, para o surrealismo. Nele as
características sociais são extremamente frágeis, mesmo os quadros
com temas mais "políticos", pintados durante a Guerra
Civil e que retratariam o horror, são mais surrealistas do que
propriamente quadros de uma temática realista social. Dalí trilha
um caminho estético diferenciado com relação à estética da
Geração de 1927, e vai ser influência, marco, para os poetas que
vão influenciar a ruptura temática e de formas através do
surrealismo.
Influências
e modelos literários da Geração de 27
A
geração de 27 receberá a influência passadista de Góngora e do
cultismo, ou seja, de limpeza e elegância nos versos, de jogos de
palavras sem arrebatamento românticos; contraditoriamente, receberá
também a influência de Gustavo Adolfo Bécquer, e sua poesia pós
romántica, que ainda que tenha lirismo, tem comedimento em seu
sentimentalismo e influência da poesia francesa pós romântica; por
último, Ruben Dario e as inovações pós modernas, o poeta
latino-americano que mais influenciou Espanha, mas que dialogava com
toda a vanguarda europeia.
A
Geração de 27 também sofreu a influência de Antônio Machado e da
assim chamada Geração de 98, geração esta que também vivia a
contradição entre o ultraísmo e a busca de um novo cânone
espanhol. Geração está que influenciará muito a geração de 27
por vários fatores, a maiores destes poetas está vivo e conviverá
com os novos poetas de geração de 27, vivem as mesmas contradições
históricas da Espanha no início do século XX e enfrentam problemas
estéticos de renovação e de temática semelhantes. Além de
Antônio Machado, irão influenciar a Geração de 27 Ortega e
Gasset, Ramón Gomes de la Sierra, Juan Ramón Jimenez. Assim, a
elegância e a limpeza nos versos, musicais e sem exageros ou
desesperos românticos é síntese de todas estas influências.
A
geração de 1927, a partir destas influências vai cada vez mais
fazendo uma poesia mesclada, “impura”, para além dos cânones
que a inspiraram, se distanciando das vanguardas e dos
experimentalismos e se aproximando do engajamento e do compromisso
Político (Lorca, Miguel Hernández). Também surge o surrealismo,
aproximando a poesia da pintura, mas também do subconsciente, do
onírico, do pictórico, há o casamento da geração literária com
o cinema e a pintura através das relações estéticas e da amizade
(as vezes agressiva e contraditória) entre Lorca, Dali e Buñuel,
que moraram juntos na residência dos estudantes em Madrid, em 1920,
há rumores e evidências inclusive de um caso de amor entre Lorca e
Dalí, a homossexualidade de Lorca tão discutida, teria expressão
trágica na sua poesia (Ode a Walt Whitman), dado que ele sofreu todo
tipo de perseguição e constrangimento por conta dela, e foi citada
inclusive na sua execução - morto por ser "rojo y maricas"
pelos fascistas . O surrealismo será o experimento mais vanguardista
da Geração de 27, incorporando à estética espanhola o onírico, o
subconsciente, o sonho, a agonia, o diálogo com Thanatos e Eros.
O
grupo se reuniu como Geração no natalício dos 300 anos de
falecimento de Luis de Gôngora, a partir daí começou a influenciar
toda a literatura e a arte espanhola. Em Málaga, resultado deste
encontro e manifesto, a revista Litoral, dirigida por Emílio Prados
e Manuel de Altolaguirre, publicou um número especial em homenagem a
poesia deste grupo de poetas. Por conta desta revista, Ignácio
Sánchez Mejía, famoso toureiro espanhol, os convida a ir a Sevilha
ler seus poemas numa tertúlia literária aberta ao público.
Compareceram neste evento: Federico Garcia Lorca, Rafael Albertí,
Jorge Guillén, Dámaso Alonso e Gerardo Diego. A partir daí o grupo
se torna conhecido e influente em toda Espanha e lança várias
revistas, seus livros obtém relativo sucesso e a Geração de 1927
passa a ditar o novo cânone literário, através das revistas
literárias e de suas obras, passam a ser a estética a ser seguida a
partir daí.
Importante
ressaltar que esta geração não se fixou somente na poesia, foi uma
geração que trabalhou em todas as áreas das artes. Além do
trabalho de poesia, houve ensaístas como Damaso Alonso (também
prolífico poeta), Pedro Salinas, dramaturgos como García Lorca y
Alejandro Casona; Buñuel, que era cineasta e artistas plásticos,
influenciados por estes poetas com os quais conviveram na residência
de Madrid: Almada Negreiros, Manuel Ángeles Ortiz, John Armstrong,
Maurice Asselin, Rafael Barradas, Juan Bonafé, Francisco Bores,
Norah Borges, Pancho Cossío, Salvador Dalí, Robert y Sonia
Delaunay, Francesc Domingo, Apelles Fenosa, Pedro Flores, Luis Garay,
Federico García Lorca, Gabriel García Maroto, Ramón Gaya, Ismael
González de la Serna, Juan Gris (muere en 1927), Marcel Gromaire,
José Gutiérrez Solana, Wladislaw Jahl, Cristóbal Hall, Manolo
Hugué, Maruja Mallo, Joan Miró, José Moreno Villa, Jesús
Olasagasti, Santiago Ontañón, Benjamín Palencia, Joaquín Peinado,
Santiago Pelegrín, Pablo Picasso, Gregorio Prieto, Pere Pruna, Olga
Sacharoff, Alberto Sánchez, Ángeles Santos, Pablo Sebastián, Josep
de Togores, José María Ucelay, Adriano del Valle, Daniel Vázquez
Díaz, Esteban Vicente y Hernando Viñes.
Os
artistas plásticos que foram influenciados ou tiveram relação com
esta geração se moveram entre o cubismo, o neo-clasicismo, a
figuração líricas, os realismos de novo tipo e o surrealismo,
estes "ismos", nas palabras de Eugenio Carmona, são como
«um repertorio de que podem extrair soluções específicas para
problemas concretos». Com nomes relacionais a geração de 27 como
os de Dalí, Miró e Picasso, mostram a extensão e a influência
desta geração. Sendo que no caso específico de Dalí, por suas
relações extreitas com Lorca, tanto Dalí vai tentar transplantar a
poesia para os quadros: o onírico, o subconsciente, a morte, o
trágico, a escatologia, a solidão; quanto Lorca vai tentar
transplantar o pictórico para a poesia: o movimento, a poesia como
imagem ora estática, ora movimento (cinema Buñuel-Dali, o Cão
Andaluz), a
poesia retratando o movimento sem disfarces. Formas e temas
confundem-se na fase surrealista de Lorca.
1936
– 1939 – GUERRA CIVIL ESPANHOLA
Em
1936 estala a Guerra Civil Espanhola, através de um golpe de cunho
fascista, conservador-monarquista e de direita, contra a República
Democraticamente eleita. De um lado, os Republicanos, socialistas,
anarquistas e comunistas, que haviam sido eleitos democraticamente,
lutam para manter o Governo legítimo. Do outro lado, monarquistas,
falangistas (um movimento de cunho fascista) e golpistas
conservadores de todos os matizes se organizam para dar um golpe
militar. Os dois lados se enfrentam numa guerra civil de 3 anos, que
dividirá a Espanha em duas, e será a antessala da Segunda Grande
Guerra Mundial. Hitler pode treinar livremente sua tática de
Blietkrieg (Guerra Relâmpago), bombardeando cidades indefesas:
Guernica, obra-prima de Picasso, é retrato trágico e genial deste
período, a tragédia traduzida na pintura (o que também é
revolucionário em estética e como temática: o horror e a dor
expressos como estética plástica, a arte como arma de luta social).
Pela primeira vez na história há o uso de bombardeios aéreos e a
luftwalf alemã pode impunemente atacar posições não só
militares, mas também civis dos republicanos. Soldados fascistas
italianos entram regularmente na Espanha e lutam ao lado de Franco.
Do outro lado os republicanos recebem o apoio das brigadas
internacionalistas, voluntários socialistas e comunistas do mundo
inteiro que se entregam de corpo e alma em defesa da jovem república
assassinada, é que é uma das mais belas páginas de solidariedade
da história da humanidade.
A
maior parte da Geração de 1927 posicionou-se ao lado da República,
não que todos fossem miliantes políticos, mas a própria estética
deste período levava a que muitos poetas deste período fossem
identificados com a nova Espanha, por exemplo, Lorca e seu teatro
mambembe. Lorca é assassinado, Miguel Hernández baleado em combate,
morre na prisão; Antônio Machado (da Geração de 98) morre a
caminho do exílio, num campo de concentração francês. Salinas,
Cernuda e Emílio Prados, exilados, morrerão fora da sua terra
natal; Rafael Albertí volta no fim de sua vida. Apenas Aleixandre,
Damaso Alonso e Gerardo Diego permanecerão na Espanha. Lorca foi a
vítima mais famosa da Ditadura Fascista que seria instalada por
Franco. Como dissemos anteriormente, Lorca fora identificado com a
República, por conta de seus inúmeros amigos socialistas e de seu
grupo teatral popular, “La Barraca”, que interpretava peças para
o povo de forma mambembe, durante a República. Ainda que não fosse
um militante político, havia em seus livros um claro compromisso
estético com ideais de emancipação. Quando estalou a Guerra Civil,
fugiu de Madrid por achar que ficaria mais seguro em sua terra natal,
Andaluzia. Ledo engano, à sua finca foram dois estranhos que o
vigiavam, por conta desta incursão, ele fugiu e se escondeu na casa
de um amigo falangista. Depois de dois dias escondido, foi delatado e
capturado por um grupo de milícia fascista, levado a um terreno
baldio, acredita-se atrás do cemitério da cidade, foi sentenciado a
morte sem julgamento, por ser “rojo y maricas” e executado com
uma gurpo de militantes sócialistas. Foi a morte mais famosa da
crueldade fascista dos golpistas franquistas. Até hoje não foi
encontrado o corpo do mais famoso e mais talentoso dos poetas da
Geração de 1927.
A
República resistirá ainda três anos em luta contra o fascismo, mas
o isolamento da República, com a retirada inclusive da ajuda
soviética, por conta da pressão internacional, decidirá a guerra
para o lado dos golpistas. A tragédia franquista da Espanha
prenuncia a tragédia que se abaterá por toda a Europa, a tentativa
de um governo democrático socialista derrubado a força, fará com
que a Espanha entre num período de isolamento político-econômico,
e que refletirá em suas artes, A maior parte dos grandes artistas
desta geração viverá no exílio, alguns só retornarão à Espanha
após a morte de Franco. As décadas de isolamento levarão ao atraso
não só no campo econômico, mas durante o período de Franco, não
haverá uma geração tão fértil e criativa capaz de tornar Espanha
universal, como foi a Geração criada no início do século XX.
DALI
E LORCA, O PCTÓRICO E O POÉTICO - O MEL É MAIS DOCE QUE O SANGUE
Lorca
e Dalí influenciaram-se reciprocamente. Ambos se conheceram na
residência dos estudantes em 1922. Dalí, mais novo, tinha 19 anos,
Lorca, mais velho e socialimente mais desenvolto tinha 23, uma forte
atração recíproca os aproximou. O poeta era brilhante socialmente
e logo ficou fascinado pelo pintor tímido que usava roupas de dândi
inglês, ambos se tornaram companheiros inseparáveis entre 1923 e
1928. Relação expressa no poema Ode
a Salvador Dalí
e no quadro, O
mel é mais doce que o sangue. Quando
ambos se conheceram, Lorca já era um poeta conhecido, que vinha da
interpretação fracassada da sua peça Malefício
da Mariposa,
mas que não afetará seu prestígio poético. Dalí ainda é um
poeta iniciante, praticamente desconhecido, saindo da fase
impressionista e entrando no cubismo. Faziam parte de um grupo social
mais amplo de amigos, inclusive de boemia, que incluía ainda Pepín
Bello e Buñuel.
Lorca
e Dalí vão estreitar amizade e passar alguns verões juntos entre
1923-1925. Neste período Lorca escreva a peça Mariana
Piñeda
e o Romancero
Gitano, que
só farão aumentar seu prestígio. Dalí, por sua vez, pintará
Natureza
morta
e Convite
ao sono,
obra esta que já conta com os valores surrealistas que o farão
famoso. Em 1926, Dalí adere de vez ao surrealismo, mas esta pasagem,
se dá em convívio pessoal com Lorca, e ambos se influenciaram
mutuamente na temática, assumiram compromisso com o experimentalismo
e ir mais além dos limites da arte formal. Além da amizade e da
relação erótico-amorosa entre ambos, os une na vida e na arte, a
temática da morte. Tanto um quanto outro tinham fixação por ela,
Lorca, a cantará continudamente em seus versos, e chegará a simular
seu próprio funeral desfilando num féretro em Andaluzia, fazendo
mesmo da obsessão da morte um culto. Dalí ficou famoso por sua
obsessão e medo da morte, ao pintar era uma forma catártica de
desafiá-la, por isto também a obsessão com o tempo, cronos, que
inevitavelmente vai corroendo a natureza e a nossa vida. Vejamos um
poema sobre a morte, de Lorca, que exemplifica bem o que dissemos.
La
luna y la muerte1
La
luna tiene dientes de marfil.
¡Qué
vieja y triste asoma!
Están
los cauces secos,
los
campos sin verdores
y
los árboles mustios
sin
nidos y sin hojas.
Doña
Muerte, arrugada,
pasea
por sauzales
con
su absurdo cortejo
de
ilusiones remotas.
Va
vendiendo colores
de
cera y de tormenta
como
un hada de cuento
mala
y enredadora.
O
que se nota no poema, além da recorrência da morte, da lua, da
noite, da tormenta, é a naturalidade com relação à morte. Ainda
que a morte tenha um absurdo cortejo, ela passeia por salgueiros
(árvore associada a cemitérios), mas o ritmo curto e musical do
poema, a forma, contrasta com o ritmo curto, telegráfico quase
elétrico, nos poemas de Lorca a morte vibra, e só falta cantar e
dançar. O tragicismo da morte, contrasta com seu colorido, ainda que
um colorido de tormentas. Vemos claramente que os temas que
aparecerão na poesia de Dalí já se encontram plasmados na poesia
de Lorca, quase como quadros não pintados. Em 1926 Dalí adere
definitivamente ao surrealismo. O contato entre eles, mesmo quando
distantes, através de cartas, é constante e continuado. Dalí está
em Figueiras e Lorca em sua amada Granada. Em 1927, Lorca Dalí
voltam a se encontrar em Figueiras e Cadaques, na casa dos pais de
Dalí, logo após, Mariana Piñeda é encenada e o cenário é
desenhado por Salvador Dalí. Cabeça de Dalí sobreposta a de Lorca
faz parte do cenário, como se ambas fossem uma única, este é um
tema recorrente que aparece até na pintura de Dalí e que também é
desenhado por Lorca (que faz vários desenhos, alguns ilustram seus
livros de poesia). Estas cabeças sobrepostas são interpretadas como
amizade e influência recíproca, mas também são vistas por muito
biógrafos como retratos do envolvimento amoroso de ambos, é fato
que tanto Dalí é fascinado pela poesia e pela figura de Lorca, da
qual confessou em sua biografia sentir uma certa inveja pelo brilho
social; quanto Lorca é fascinado pela arte e também pela figura,
incluindo o corpo do jovem Dalí. Em sua auto-biografia Dali relata
que teria resistido a várias investidas de Lorca.
Entre
1928 e 1929 acontecerá a ruptura entre ambos. Dalí vai se encontrar
com Buñuel, e vai ser incentivado por este a desprezar Lorca. Buñuel
tem um irmão homossexual, o homossexualismo numa Espanha
conservadora e ultra-católica pode se transformar num drama social,
Buñuel despreza e hostiliza Lorca por sua homossexualidade e
encoraja Dalí a fazer o mesmo. Em 1928, Dalí vai fazer uma crítica
atacando o Romancero Gitano de Lorca, por seu 'populismo' artístico;
por sua vez, Lorca vai se aproximar, em sua viagem a Nova Iorque do
artista plástico Aladrén. Dalí critica Lorca por esta aproximação
por considerar Aladrén um artista "sofrível", todavia,
alguns biógrafos consideram que razões também sentimentais teriam
levado à crítica tão feroz de Dalí. Em 1929, Dalí e Buñuel
filma o Cão
andaluz, filme
que levará ao afastamento entre Lorca e Dalí. Ainda que Buñuel não
admita, o nome de Cão
andaluz
é uma referência feroz e direta à Lorca, que estaria sendo
hostilizado e ridicularizado por Buñuel por ser o poeta ser gay. Cão
era o apelido que os estudantes madrileños perjorativamente davam,
na residência dos estudantes, aos vindos do sul. Lorca e Dalí só
se veriam após 1929 em 1935, um ano antes da morte do poeta. Depois
de tão prolongada e intensa convivência, é óbvio que este
afastamento atesta uma ruptura da proximidade e da intimidade entre
ambos. Quando se reveem em 1935, Lorca conhece Gala, mulher de Dalí,
a peça Yerma é encenada, com ruidoso sucesso. Gala fica
impressionada com Lorca e o convida para ir a París estar com eles,
mas Lorca recusa. Depois, este episódio será lembrando com remorsos
por Dalí, que não se conforma por não ter insistido para que Lorca
fosse com eles para París, e sente culpa pela morte de Lorca, a quem
considera um de seus mortos queridos, Dalí considera que se tivesse
insistido talvez o poeta tivesse ido a París e isto teria evitado
sua morte. É lógico que esta conjectura de Dalí é apoiado mas no
sentimento de estima e até de amor que sentia por Lorca, que por
qualquer fato objetivo, Dali não tem absolutamente nada que ver com
a morte de Federico. Mas Dalí dizia que "Lorca for fuzilado por
engano. O caos espanhol me transtornou e os monstros da Guerra Civil
invadiram minha tela". Aqui, duas observações nossas, a
primeira, não concordamos que Lorca tenha morrido por engando, ele
foi uma vítima intencional trágica de uma ditadura de cunho
fascista que o odiava duplamente: por seus pendores socialistas e por
ser gay. O segundo, já prenunciamos, a de que mesmo no auge da
Guerra Civil espanhola a pintora de Lorca continuou sendo mais
surrealista que engajada, a guerra civil entrou mais como monstro,
terror e morte do que como guerra, realidade social, Dalí tomava o
lado das vítimas, não o lado de uma das facções em disputa, como
outros artistas tomaram.
Para
entender melhor a relação entre o pictórico e o poético, vamos
fazer uma comparação das figuras estéticas inscritas tanto no
poema, Ode
a Salvador Dali,
quanto no quadro, O
mel é mais doce que o sangue, que
foram feitas, ambas as obras, no auge da relação íntima de amizade
e ou amorosa dentre ambos, que confluiu para uma relação de
parceria estética. Vejamos o poema:
Una
rosa en el alto jardín que tú deseas.
Una
rueda en la pura sintaxis del acero.
Desnuda
la montaña de niebla impresionista.
Los
grises oteando sus balaustradas últimas.
Los
pintores modernos en sus blancos estudios,
cortan
la flor aséptica de la raíz cuadrada.
En
las aguas del Sena un ice-berg de mármol
enfría
las ventanas y disipa las yedras.
El
hombre pisa fuerte las calles enlosadas.
Los
cristales esquivan la magia del reflejo.
El
Gobierno ha cerrado las tiendas de perfume.
La
máquina eterniza sus compases binarios.
Una
ausencia de bosques, biombos y entrecejos
yerra
por los tejados de las casas antiguas.
El
aire pulimenta su prisma sobre el mar
y
el horizonte sube como un gran acueducto.
Marineros
que ignoran el vino y la penumbra,
decapitan
sirenas en los mares de plomo.
La
Noche, negra estatua de la prudencia, tiene
el
espejo redondo de la luna en su mano.
Un
deseo de formas y límites nos gana.
Viene
el hombre que mira con el metro amarillo.
Venus
es una blanca naturaleza muerta
y
los coleccionistas de mariposas huyen.
*
* *
Cadaqués,
en el fiel del agua y la colina,
eleva
escalinatas y oculta caracolas.
Las
flautas de madera pacifican el aire.
Un
viejo dios silvestre da frutas a los niños.
Sus
pescadores duermen, sin ensueño, en la arena.
En
alta mar les sirve de brújula una rosa.
El
horizonte virgen de pañuelos heridos,
junta
los grandes vidrios del pez y de la luna.
Una
dura corona de blancos bergantines
ciñe
frentes amargas y cabellos de arena.
Las
sirenas convencen, pero no sugestionan,
y
salen si mostramos un vaso de agua dulce.
*
* *
¡Oh,
Salvador Dalí, de voz aceitunada!
No
elogio tu imperfecto pincel adolescente
ni
tu color que ronda la color de tu tiempo,
pero
alabo tus ansias de eterno limitado.
Alma
higiénica, vives sobre mármoles nuevos.
Huyes
la oscura selva de formas increíbles.
Tu
fantasía llega donde llegan tus manos,
y
gozas el soneto del mar en tu ventana.
El
mundo tiene sordas penumbras y desorden,
en
los primeros términos que el humano frecuenta.
Pero
ya las estrellas ocultando paisajes,
señalan
el esquema perfecto de sus órbitas.
La
corriente del tiempo se remansa y ordena
en
las formas numéricas de un siglo y otro siglo.
Y
la Muerte vencida se refugia temblando
en
el círculo estrecho del minuto presente.
Al
coger tu paleta, con un tiro en un ala,
pides
la luz que anima la copa del olivo.
Ancha
luz de Minerva, constructora de andamios,
donde
no cabe el sueño ni su flora inexacta.
Pides
la luz antigua que se queda en la frente,
sin
bajar a la boca ni al corazón del bosque.
Luz
que temen las vides entrañables de Baco
y
la fuerza sin orden que lleva el agua curva.
Haces
bien en poner banderines de aviso,
en
el límite oscuro que relumbra de noche.
Como
pintor no quieres que te ablande la forma
el
algodón cambiante de una nube imprevista.
El
pez en la pecera y el pájaro en la jaula.
No
quieres inventarlos en el mar o en el viento.
Estilizas
o copias después de haber mirado,
con
honestas pupilas sus cuerpecillos ágiles.
Amas
una materia definida y exacta
donde
el hongo no pueda poner su campamento.
Amas
la arquitectura que construye en lo ausente
y
admites la bandera como una simple broma.
Dice
el compás de acero su corto verso elástico.
Desconocidas
islas desmiente ya la esfera.
Dice
la línea recta su vertical esfuerzo
y
los sabios cristales cantan sus geometrías.
*
* *
Pero
también la rosa del jardín donde vives.
¡Siempre
la rosa, siempre, norte y sur de nosotros!
Tranquila
y concentrada como una estatua ciega,
ignorante
de esfuerzos soterrados que causa.
Rosa
pura que limpia de artificios y croquis
y
nos abre las alas tenues de la sonrisa
(Mariposa
clavada que medita su vuelo).
Rosa
del equilibrio sin dolores buscados.
¡Siempre
la rosa!
*
* *
¡Oh,
Salvador Dalí de voz aceitunada!
Digo
lo que me dicen tu persona y tus cuadros.
No
alabo tu imperfecto pincel adolescente,
pero
canto la firme dirección de tus flechas.
Canto
tu bello esfuerzo de luces catalanas,
tu
amor a lo que tiene explicación posible.
Canto
tu corazón astronómico y tierno,
de
baraja francesa y sin ninguna herida.
Canto
el ansia de estatua que persigues sin tregua,
el
miedo a la emoción que te aguarda en la calle.
Canto
la sirenita de la mar que te canta
montada
en bicicleta de corales y conchas.
Pero
ante todo canto un común pensamiento
que
nos une en las horas oscuras y doradas.
No
es el Arte la luz que nos ciega los ojos.
Es
primero el amor, la amistad o la esgrima.
Es
primero que el cuadro que paciente dibujas
el
seno de Teresa, la de cutis insomne,
el
apretado bucle de Matilde la ingrata,
nuestra
amistad pintada como un juego de oca.
Huellas
dactilográficas de sangre sobre el oro,
rayen
el corazón de Cataluña eterna.
Estrellas
como puños sin halcón te relumbren,
mientras
que tu pintura y tu vida florecen.
No
mires la clepsidra con alas membranosas,
ni
la dura guadaña de las alegorías.
Viste
y desnuda siempre tu pincel en el aire
frente
a la mar poblada de barcos y marinos.
Este
poema, composto em versos alexandrinos clássicos, ainda que sem
rima, atestam o ideal artístico inovador de Lorca, para a época. No
poema, ainda que haja apologia de Dalí, impresiona a ausência de
sentimentalismo e a fluidez da forma "desnuda a montanha de
névoa impressionante", a poesia como arte plástica, pictórica,
e o verso como pinceladas. O poema, em versos, o que é no quadro, o
manifesto anti-artístico de Dalí, a "santa objetividade",
do jovem Dalí, anterior ao surrealismo. A arte despida de
sentimentos (que mostramos anteriormente está nos ideais da Geração
de 1927 desde o manifesto gongórico), razão-luz-geometria (que
efetivamente, na fase surrealista seriam superados pelo
inconsciente-noite-disformismo). Fase ainda de formação do que
viria a ser o Dalí surrealista, o quadro já inclui componentes que
apontam para o surrealismo, analisemos o quadro, que exibiremos
abaixo:
A
crítica não apreciou a tela, que tem uma história baseada na amiga
louca de Dalí chamada Lídia. Dalí em Lorca estavam em Cadaques,
local idílico em litorâneo, em companhia de Lídia e do artista
Eugênio d´Ors. O filho de Lídia levou Eugênio, que tinha fobia a
alto-mar, a uma pescaria em alto mar. Eugênio voltou mareado e
assustado. Lídia brigou com o filho, que revoltou-se, dizendo que a
mãe defende alguém que não era do seu sangue, ela disse a frase
que denominou o quadro: "o mel é mais doce que o sangue".
A presença de Lídia, que por vezes ficava completamente fora da
realidade, já que era esquizofrênica, serviu de pano de fundo para
exercitar o surrealismo tanto em Dalí quanto em Lorca, uma arte para
além da objetividade.
O
quadro, que não agradou a crítica, é um Dalí pré-surrealista,
mas já margeando esta temática, com influência cubista, é
dividido numa diagonal com um plano de fundo montanhoso, agulhas
fincadas produzem a impressão de espelhos, um corpo feminino
escultório remete à metafísica, a figuração do quadro nos faz
lembrar Miró. Aliás, Miró considera esta obra a primeira obra
surrealista de Dalí. Alguns críticos preferem catalogar esta obra
como a fase "Lorca", de Dalí, aparecem superpostas as
cabeças de Lorca e Dalí (o que era muito comum nos desenhos de
ambos deste período), sugerindo a ligação, confluência
intelectual e relação erótica entre ambos. A cabeça de Lorca
aparece como um busto caído na área, sugerindo decepação e morte
(temática recorrente de ambos). Lorca é comparado nas pinturas de
Dalí a São Sebastião, o que tem um componente erótico sádico
homossexual, o corpo nu e flechado do santo, como referência a
auto-imolação martírico (o que no caso de Lorca resultaria
profético). As cabeças justapostas sugerem também que são almas
gêmeas, o envolvimento amoroso, platônico ou erótico, ninguém
sabe ao certo. A morte explode no carro, com cadáveres de burro em
putrefação, esqueleto de burro, as cabeças decepadas, a angústia,
o agon da morte para quem vive, que além de ser um tema recorrente,
é um tema surrealista, já que dialoga com as pulsões freudianas,
libido, Eros x Thanatos. Dalí e Lorca tinham paixão pela temática
da morte, assim como pavor de morrer, esta obsessão/fobia, chegaria
ao ponto de Lorca representar seu funeral pelas ruas de Granada, uma
forma de catarse artística da morte, amor/obsessão pelo objeto de
fobia.
Dalí
seria no quadro Pólux, o imortal dos dióscuros, mas jorram
fios-de-sangue da cabeça de ambos. Lorca em seu poema fará a
apologia da obra de Dalí, e se referencia neste quadro, na mulher
morta (e a obsessão edipiana de ambos pelo corpo feminino sem chegar
à posse sexual). A mulher morta representa o conflito
erótico-sexual, da mulher interditada que não deve ser possuída, a
própria relação de Lorca com Gala, que vai ser após sua mulher da
vida inteira, e a quem Dalí se submete, sem que haja posse sexual da
mulher. A partir desta obra, Dalí volta-se para a pesquisa do
inconsciente e mergulha no surrealismo. Logo após esta obra surge o
grande masturbador (1929), é uma fase fálica e escatológica, que
estão relacionados à tensão que surgiu da relação de ambos sobre
a posse sexual. Se não sabemos ao certo até onde chegou a ligação
erótica, os quadros poderiam ser uma catarse da relação sexual não
concretizada, e os quadros refletiriam também a fixação onanista
de Lorca, que na relação amorosa com Gala não chegava à posse
sexual, mas à visão do corpo da esposa, sucedia a masturbação.
Esta fase escatológica/onanista foi criticada pelos próprios
surrealistas, que temiam uma crítica negativa ao movimento, Gala,
que na época era esposa de Paul Eluard, teve como missão, pedir a
Dali que suavizasse sua obsessão escatológica (que sugere o caráter
sexual passivo anal).
Todos
estes conflitos eróticos de Dali e Lorca são aqui relatados não
como dados biográficos, mas porque são refletidos em suas obras, e
tem função tanto na junção dos dois, quanto na separação
contenciosa que se deu. Após Dali filmar O
Cão Andaluz
com Buñuel, que instigou a Dalí a rejeitar Lorca por conta das
investidas homossexuais deste, ridicularizando as características
homossexuais de Lorca, houve um rompimento na amizade, com reflexos
traumáticos para Lorca. Além da rejeição, Dalí ridicularizava o
antigo parceiro de arte e convívio afetivo/erótico. Nas memórias
de Dalí, ele relata que Lorca o procurava sexualmente e este sempre
o rejeitava. Não sabemos até que ponto o relato unilateral é
fidedigno, só podemos ir até onde a documentação nos deixa
chegar.
A
partir de 1930, já em París, para se juntar aos surrealistas Renê
Margrite, Paul Eluard, e Gala (que nesta época era esposa de
Eluard), Dalí vai se juntar ao movimento, mergulhando na pesquisa do
subconsciente, do sono e do sonho, dos estados oníricos da alma.
Como já relatamos. Gala tem, como já relatamos, a missão de freiar
a obsessão escatológica de Dali nos quadros. Dalí se apaixona por
Gala e faz tudo para seduzi-la. A relação é como o movimento,
surrealista. Gala, linda, acaba abandonando Eluard (que continua
amigo e vai conviver com ambos) por um jovem Dalí que é, segundo
ele mesmo relata, virgem em relação a sexo com mulheres. O
contraditório da relação, é que a ligação edipiana é bem
nítida. Gala e Dalí não são um casal em que há o ato sexual,
pelo menos não o de posse, como relatado na sua arte e em sua
biografia, Dalí se excita com gala, mas chega ao êxtase através da
masturbação, e é Gala quem conduz o casal, administrando a arte e
a carreira de Dalí. A vida imitou a arte neste caso. A figura
feminina reincidente nos quadros de Dalí, seriam a interiorização
em si do feminino, do desejo de ser como a mulher.
Em
París e com Gala Dalí faz a passagem completa para o surrealismo,
que não é o objeto deste estudo e termina sua fase de influência
lorqueana, que, todavia, estará em sua obra o resto da vida (noite,
sono, soño, morte), já que na temática de Lorca já estão muito
dos temas caros aos surrealistas e a Dalí em especial. Fora a
ligação afetiva-amorosa que marcará a obra de ambos.
Como
resposta à obra O
cão andaluz,
Lorca realizou, na sua fase Nova-iorquina, com Emílio Armero, o
roteiro para o filme Viagem
à lua. Um
roteiro para um filme completamente incomum, que só foi redescoberto
na década de 80, nos Estados Unidos, junto aos pertences do mexicano
Emilio Armero. O roteiro do filme ganhou sua primeira edição
crítica, na Espanha, só em 1994. Foi filmado, pouco depois, em duas
diferentes versões: a de Javier Martín Domínguez, de 1997, e a de
Frederic Amat, de 1998. Neste trabalho faremos a crítica somente do
roteiro, sem entrar na polissemia das versões filmadas.
Segue
o roteiro:
Viaje
a la Luna
(1929)
1
Cama
blanca sobre una pared gris. Sobre los paños surge un baile de
números 13 y 22. Desde dos empiezan a surgir hasta que cubren la
cama como hormigas diminutas.
2
Una
mano invisible arranca los paños.
3
Pies
grandes corren rápidamente con exagerados calcetines de rombos
blancos y negros.
4
Cabeza
asustada que mira fija un punto y se disuelve sobre una cabeza de
alambre con un fondo de agua.
5
Letras
que digan Socorro Socorro Socorro con doble exposición sobre un sexo
de mujer con movimientos de arriba abajo.
6
Pasillo
largo recorrido por la máquina con ventana de final.
7
Vista
de Broadway de noche con movimientos de tic-tac. Se disuelve en el
anterior.
8
Seis
piernas oscilan con gran rapidez.
9
Las
piernas se disuelven sobre un grupo de manos que tiemblan.
10
Las
manos que tiemblan sobre una doble exposición de un niño que llora.
11
Y
el niño que llora sobre una doble exposición de una mujer que la da
una paliza.
12
Esta
paliza se disuelve sobre el pasillo largo otra vez, que la máquina
recorre con rapidez.
13
Al
final un gran plano de un ojo sobre una doble exposición de peces, y
se disuelve sobre el siguiente.
14
Caída
rápida por una montaña rusa en color azul con doble exposición de
letras de Socorro Socorro.
15
Cada
letrero de Socorro Socorro se disuelve en la huella de un pie.
16
Y
cada huella de pie en un gusano de seda sobre una hoja en fondo
blanco.
17
De
los gusanos de seda sale una gran cabeza muerta y de la cabeza muerta
un cielo con luna.
18
La
luna se corta y aparece un dibujo de una cabeza que vomita y abre y
cierra los ojos y se disuelve sobre
19
dos
niños que avanzan cantando con los ojos cerrados.
20
Cabezas
de los niños que cantan llenas de manchas de tinta.
21
Un
plano blanco sobre el cual se arrojan gotas de tinta. (Todos estos
cuadros rápidos y bien ritmados.) Aquí un letrero que diga No es
por aquí.
22
Puerta
23
Sale
un hombre con una bata blanca. Por el lado opuesto viene un muchacho
desnudo en traje de baño de grandes cuadros blancos y negros.
24
Gran
plano del traje sobre una doble exposición de un pez.
25
El
hombre de la bata le ofrece un traje de arlequín pero el muchacho
rehúsa. Entonces el hombre de la bata lo coge por el cuello, el otro
grita, pero el hombre de la bata le tapa la boca con el traje de
arlequín.
26
Gran
plano de manos y traje de arlequín apretando con fuerza.
27
Se
disuelve sobre una doble exposición de serpientes de mar del
aquárium y éstas en los cangrejos del mismo aquárium y éstos en
otros peces con ritmo.
28
Pez
vivo sostenido en la mano en un gran plano hasta que muera y avance
la boquita abierta hasta cubrir el objetivo.
29
Dentro
de la boquita aparece un gran plano en el cual saltan, en agonía,
dos peces. Éstos se convierten en un caleidoscopio en el que cien
peces saltan o laten en agonía.
30
Letrero:
Viaje a la Luna.
Habitación.
Dos mujeres vestidas de negro lloran sentadas con las cabezas echadas
en una mesa donde hay una lámpara. Dirigen las manos al cielo.
Planos de los bustos y las manos. Tienen las cabelleras echadas sobre
las caras y las manos contrahechas con espirales de alambre.
31
Siguen
las mujeres bajando los brazos y subiéndolos al cielo.
32
Una
rana cae sobre la mesa.
33
Doble
exposición de la rana vista enorme sobre un fondo de orquídeas
agitadas con furia. Se van las orquídeas y aparece una cabeza enorme
dibujada de mujer que vomita que cambia de negativo a positivo y de
positivo a negativo rápidamente.
34
Una
puerta se cierra violentamente y otra puerta y otra y otra sobre una
doble exposición de las mujeres que suben y bajan los brazos.
Al
cerrarse cada puerta saldrá un letrero que diga: Elena Helena elhena
eLHeNa.
35
Las
mujeres se dirigen rápidamente a la puerta.
36
La
cámara baja con gran ritmo acelerado las escaleras y con doble
exposición las sube.
37
Triple
exposición de subir y bajar escaleras.
38
Doble
exposición de barrotes que pasan sobre un dibujo: Muerte de Santa
Rodegunda.
39
Una
mujer enlutada se cae por la escalera.
40
Gran
plano de ella.
41
Otra
vista de ella muy realista. Lleva pañuelo en la cabeza a la manera
española. Exposición de las narices echando sangre.
42
Cabeza
boca abajo de ella con doble exposición sobre un dibujo de venas y
granos gordos de sal para el relieve.
43
La
cámara desde abajo enfoca y sube la escalera. En lo alto aparece un
desnudo de muchacho. Tiene la cabeza como los muñecos anatómicos
con los músculos y las venas y los tendones. Luego sobre el desnudo
lleva dibujado el sistema de la circulación de la sangre y arrastra
un traje de arlequín.
44
Aparece
de medio cuerpo. Y mira de un lado a otro. Se disuelve sobre una
calle nocturna.
45
Ya
en la calle nocturna hay tres tipos con gabanes que dan muestras de
frío. Llevan los cuellos subidos. Uno mira la luna hacia arriba
levantando la cabeza y aparece la luna en la pantalla, otro mira la
luna y aparece una cabeza de pájaro en gran plano a la cual se
estruja el cuello hasta que muera ante el objetivo, el tercero mira
la luna y aparece en la pantalla una luna dibujada sobre fondo blanco
que se disuelve sobre un sexo y el sexo en la boca que grita.
46
Huyen
los tres por la calle.
47
Aparece
en la calle el hombre de las venas y queda en cruz. Avanza en saltos
de pantalla.
48
Se
disuelve sobre un cruce en triple exposición de trenes rápidos.
49
Los
trenes se disuelven sobre una doble exposición de teclados de pianos
y manos tocando.
50
Se
disuelve sobre un bar donde hay varios muchachos vestidos de
esmoquin. El camarero les echa vino pero no pueden llevarlo a su
boca. Los vasos se hacen pesadísimos y luchan en una angustia de
sueño. Entra una muchacha casi desnuda y un arlequín y bailan en
ralentí. Todos prueban a beber pero no pueden. El camarero llena sin
cesar los vasos que ya están llenos.
51
Aparece
el hombre de las venas gesticulante y haciendo señas desesperadas y
movimientos que expresan vida y ritmo acelerado. Todos los hombres se
quedan adormilados.
52
Una
cabeza mira estúpidamente. Se acerca a la pantalla y se disuelve en
una rana. El hombre de las venas estruja la rana con los dedos.
53
Sale
una esponja y una cabeza vendada.
54
Se
disuelve sobre una calle. La muchacha vestida de blanco huye con el
arlequín.
55
Aparece
una cabeza que vomita. Y en seguida toda la gente del bar que vomita.
56
Se
disuelve sobre un ascensor donde un negrito vomita. La muchacha y el
arlequín suben en el ascensor.
57
Suben
en el ascensor y se abrazan.
58
Plano
de un beso sensual.
59
El
muchacho muerde a la muchacha en el cuello y tira violentamente de
sus cabellos.
60
Aparece
una guitarra. Y una mano rápida corta las cuerdas con unas tijeras.
61
La
muchacha se defiende del muchacho, y éste con gran furia le da otro
beso profundo y pone los dedos pulgares sobre los ojos como para
hundir los dedos en ellos.
62
Grita
la muchacha y el muchacho de espaldas se quita la americana y una
peluca y aparece el hombre de las venas.
63
Entonces
ella se disuelve en un busto de yeso blanco y el hombre de las venas
la besa apasionadamente.
64
Se
ve el busto de yeso con huellas de labios y huellas de manos.
65
Vuelven
a salir las palabras Elena elena elena elena.
66
Estas
palabras se disuelven sobre grifos que echan agua de manera violenta.
67
Y
estos grifos sobre el hombre de las venas muerto sobre periódicos
abandonados y arenques.
68
Aparece
una cama y unas manos que cubren un muerto.
69
Viene
un muchacho con una bata blanca y guantes de goma y una muchacha
vestida de negro. Pintan un bigote con tinta a una cabeza terrible de
muerto. Y se besan con grandes risas.
70
De
ellos surge un cementerio y se les ve besarse sobre una tumba.
71
Plano
de un beso cursi de cine con otros personajes.
72
Y
al final con prisa la luna y árboles con viento.3
Lorca,
neste argumento,
mistura
todo o pictorismo herdado de sua relação com Dalí, ao onírico, a
sua nova influência surreal. Explodem no argumento: peixes,
serpentes, vermes, luas, um arlequím, ou, um homem vestido de
arlequim em uma fantasia que já não lhe cabe (inadequação à
idade adulta), mãos, cabeças (corpo mutilado), vômitos, caimbra,
escadas, corredores vazios e escuros, um mundo em ruínas, violento.
O texto tem um substrato mítico na representação da morte, na
tragédia da passagem da infância para a idade adulta, e a
relutância em assumir estes papéis impostos socialmente,
representado por cadeias, pelos corredores negros (subconsciente, id
x ego). Pode se relacionar este roteiro escatológico, com o Lorca do
poema do Lago Eden (infância feliz), no qual Adão fecunda peixes e
Eva come formigas, no roteiro de Viagem
à lua, de
um Lorca pictórico e surrealista, passa uma multidão que vomita, é
o nojo, a nâusea na vida.
Lorca
recebe a influência do círculo Nova Iorquino, das mensagens
modernas da grande metrópole e dos intelectuais avant garde, e a
fase em que se vê mais nitidamente seus problemas de identidade com
relação à homossexualidade: Ode
a Walt Whitman,
considerado um ícone gay. O arlequím que não cabe na fantasia, o
adulto na roupa de adulto representaria o agon da vida, a inadequação
sexual, a angústia, e logo o vômito, a escatologia. O argumento,
segundo seus biógrafos, tem influência do cinema de Keaton e
Chaplin, que Lorca assiste nesta época, e das telas e da convivência
com Salvador Dalí. É um roteiro polissêmico que só foi filmado na
década de 90, e que expressa toda contradição e angústia da
poesia Lorquiana.
O
CRIME FOI EM GRANADA
Dalí
e Lorca foram representantes de uma Espanha que estava em luta
consigo mesmo, em luta mortal, com milhões de vítimas. Ambos tinham
obsessão pela morte, Lorca, chegou a ser seu cultor, namorava com a
morte, em seus poemas, como que cantando a sua beleza. Será que
adivinhava seu fim trágico e precoce, com a fascista e idiota
sentença de ser fuzilado por ser "rojo y maricas"? Seu
fim trágico lhe dá um ar mítico, de profeta sacrificado por seu
próprio povo, por espalhar as verdades que antecedam seu tempo. O
mais genial escritor do século XX na Espanha, que não era um
militante político, foi julgado e condenado pela excelência e o
alcance de suas obras, estas sim, um ariete poderosa contra uma
Espanha conservadora, ultracatólica e feudal. Dentre as muitas
homenagens prestadas, citamos aqui a que achamos mais pungente e
comovedora, para atestar que burlando-se da morte, mesmo fuzilado,
Lorca vive:
El
crimen fue en Granada - Antonio Machado4
A
Federico García Lorca
I
EL
CRIMEN
Se
le vio, caminando entre fusiles
por
una calle larga,
salir
al campo frío,
aún
con estrellas, de la madrugada.
Mataron
a Federico
cuando
la luz asomaba.
El
pelotón de verdugos
no
osó mirarle a la cara.
Todos
cerraron los ojos;
rezaron:
¡ni Dios te salva!
Muerto
cayó Federico
—sangre
en la frente y plomo en las entrañas—.
...
Que fue en Granada el crimen
sabed
—¡pobre Granada!—, ¡en su Granada!...
II
EL
POETA Y LA MUERTE
Se
le vio caminar solo con Ella,
sin
miedo a su guadaña.
—Ya
el sol en torre y torre; los martillos
en
yunque, yunque y yunque de las fraguas—.
Hablaba
Federico,
requebrando
a la Muerte. Ella escuchaba.
«Porque
ayer en mi verso, compañera,
sonaba
el eco de tus secas palmas,
y
diste el hielo a mi cantar, y el filo
a
mi tragedia de tu hoz de plata,
te
cantaré la carne que no tienes,
los
ojos que te faltan,
tus
cabellos que el viento sacudía,
los
rojos labios donde te besaban...
Hoy
como ayer, gitana, muerte mía,
qué
bien contigo a solas,
por
estos aires de Granada, ¡mi Granada!»
III
Se
les vio caminar...
Labrad,
amigos,
de
piedra y sueño, en el Alhambra,
un
túmulo al poeta,
sobre
una fuente donde llore el agua,
y
eternamente diga:
el
crimen fue en Granada, ¡en su Granada!
CONCLUSÃO
Esta
dissertação objetivava fazer a relação entre o poético e o
pitagórico, a correlação entre a poesia de Federico Garcia Lorca e
os quadros de Salvador Dalí. Mostrou-se como, de forma efetiva, não
só a poética, mas a convivência de Dali com Lorca o ajudou a
aperfeiçoar sua arte, mas que a mistura estética e temática, a
inter-relação de temas e cânones, acabaram por enriquecer de um
lado as telas de Dalí, de outro a poesia de Lorca. A fase "Lorca"
de Dalí preparou seu salto para o surrealismo, na verdade, muitos
dos temas que ficaram permanentemente presentes nos quadros do pintor
surrealista já estavam pintados nos poemas de Lorca: a morte, a
agonia, a solidão, o desespero, a noite, o onírico, o
subconsciente. De outro lado, Lorca tentou transpor para sua poesia a
objetividade da pintura, vários dos poemas narram cenários, sem que
haja a intervenção do poeta, sem impressões subjetivas, como se
ele fora apenas o espectador de um cenário.
A
relação contraditória, e por vezes antagônica com Buñuel, a
ruptura entre Lorca e Dalí, também acabou virando proposta estética
e temática. O filme Cão
andaluz é
um marco não só para Buñuel, mas para Dalí, que a partir deste
ponto é considerado um dos integrantes do movimento surrealista, e
também para Lorca, que em seu exílio voluntário em Nova Iorque,
reage ao filme modificando sua estética nos poemas e até realizando
um roteiro. Contraditoriamente, a ruptura pessoal não levou a uma
ruptura artística e temática, Lorca incorporará os temas
surrealistas a sua poesia, ainda que estes já estivessem de forma
inata, em germen nela. Lorca, em que pese seu grande talento formal,
é um poeta intuitivo, e escreve sobre temas que a poesia da própria
Geração de 1927 não ousava tocar. Uma geração que começa
querendo uma poesia limpa, sem arroubos, e que depois vai se
aproximando do coloquial e dos temas populares e políticos (Lorca
também fez este caminho). Mas Federico vai além, insere no
movimento os temas da pulsão, da libido, do subconsciente, da
angústia, da morte, da agonia, da loucura. Nenhum outro poeta desta
geração teve temática tão ampla ou mergulhou tão profundamente
neste temas.
Assim,
concluímos que a relação entre ambos artistas acabou por diluir as
fronteiras da poesia e das artes plásticas, o manifesto
anti-artístico de ambos, acabou resultando numa arte por excelência,
de extremo apuramento, numa estética de contra-cultura, do bizarro,
do feio, do vômito, da escuridão, do medo, do escatológico, da
homossexualidade e da repressão sexual, da pulsão, da morte, do id
e do ego. Feliz encontro artístico que nos legou obras, em que vemos
o pictórico de Dalí nos poemas de Federico Garcia Lorca, e a
poética de Lorca nos quadros de Salvador Dalí.
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