A
poética panteísta e revolucionária de Pablo Neruda - Roberto
Ponciano
RESUMO
O
objetivo desta dissertação é fazer um roteiro poético do poeta
Pablo Neruda, desde os primóridos da sua poesia e de seus influxos
românticos e panteísticos, até a viragem da sua poética, "uma
gota de sangue caiu em minha poesia", dirá o poeta após a
Guerra Civil Espanhola e o assassinato de seu amigo íntimo, Federico
Garcia Lorca. O objetivo é mostrar que a poesia pode pegar em armas,
sem virar arte utilitarista ou de baixo padrão estético. Vida e
obra de um poeta peregrino, retirante, um cidadão do mundo se
confundem. Vamos fazer um panorama evolutivo da sua arte poética
para demonstrar que a poesia pode estar inserida na realidade e na
vida social, sem com isto se empobrecer ou virar apenas discurso
político. Neruda, mesmo na sua mais ativa militância no Partido
Comunista Chileno, nunca reduziu a poesia a um panfleto político, e
mesmo no seu momento mais panfletário, a Guerra Civil Espanhola, ela
foi poeticamente candente e artístico, como o quadro Guernica de
Picasso.
The
objective of this dissertation is to make a poetic script of the poet
Pablo Neruda, from beggining of his poetry and his romantic and
pantheistic influence until the turn of his poetics, "a drop of
blood fell on my poetry," the poet say after the Spanish Civil
War and the murder of his close friend, Federico Garcia Lorca. The
aim is to show that poetry can take up arms without turning
utilitarian esthetic standard or low art. Life and work of a pilgrim
poet, migrant worker, a citizen of the world are confused. Let's do a
rolling panorama of his poetic art to demonstrate that poetry can be
inserted in reality and in social life, though this is only
impoverish or turn political discourse. Neruda, even in its most
active militancy in the Chilean Communist Party, poetry never reduced
to a political pamphlet, and even at its most pamphleteer moment, the
Spanish Civil War, she was burning poetic and artistic, like
Picasso's painting Guernica.
Palavras-chave:
Guerra Civil Espanhola; Mudança estética; Mudança temática;
A
POÉTICA PANTEÍSTA E REVOLUCIONÁRIA DE PABLO NERUDA
Ricardo
Neftali Eliézer Reyes Basoalto, o cidadão do mundo Pablo Neruda
terá várias mudanças em sua vida, a mais significativa, sem
sombra de dúvida, será a sofrida durante sua passagem na Espanha
Republicana, que passará pela Guerra Civil. Nosso trabalho mostrará
como a vida social pode transformar a poesia sem empobrecê-la,
usaremos como lapso temporal principal a mudança poética temática
e estética de Neruda, face à Guerra Civil Espanhola e a morte de
seus amigos, em especial Federico Garcia Lorca.
Lorca e Neruda
foram amigos desde a chegada de Neruda a Madrid, chegarão a
trabalhar juntos na criação da revista Caballo
Verde. O cerne do
trabalho é expor como Espanha se entranhará na obra do poeta
chileno, a ponto de ser o lugar com mais citações em sua obra,
depois do Chile, uma segunda pátria, adotiva, que deixará uma
marca indelével na obra poética posterior nerudiana.
OS
PRINCÍPIOS DA POESIA DE PABLO NERUDA
Pablo Neruda é,
antes de chegar à Espanha, na construção inicial de sua poesia,
um poeta metafísico, panteísta (com alguma influência de sua
mestra na infância, a também prêmio Nobel de literatura, Gabriela
Mistral), com inspiração na natureza e na mulher, com muito
talento, mas com pouca preocupação com a temática social. Como
exemplo, o texto abaixo, de Proêmio,
poesia de Cadernos de
Temuco (Neruda; 1998,
p.27): “Uma
rota de sol e uma luz e um roseiral./ Nada mais eu pedia e naquela
inquietude/ pousaram as sedas da minha branda canção”.
O poema referido
reflete as preocupações iniciais do jovem Neruda. Um poeta pobre,
que parte para Santiago para estudar literatura (contra a vontade
paterna, que o queria engenheiro), que é extremamente tímido e
avesso às badalações, que veste roupas negras e escreve versos
ora místicos, ora panteístas, ora românticos, extremamente
exagerados em seus arroubos líricos. Não há nenhum traço que
indique que ele será um poeta militante, engajado política e
socialmente, como em sua história pessoal das décadas posteriores,
de militância política assumida no Partido Comunista Chileno, do
qual chega a ser senador e candidato à Presidência. Ricardo
Neftali Eliézer Reyes Basoalto, um jovem que para escrever poesia
vai cunhar um pseudônimo transformado depois em nome, Pablo Neruda.
Como o pai de Ricardo não o queria estudando poesia ou escrevendo
poemas, por conta desta reprovação paterna, o jovem poeta vai
tomar de empréstimo o nome de um poeta checo. O interessante desta
anedota real é que o Neruda original não chegou a ter a metade da
fama daquele que lhe tomou de empréstimo o nome. Neruda não tem
atividaades políticas neste momento, ele não se infiltra em nenhum
movimento de protesto organizado, nenhuma marcha de trabalhadores,
nenhum ato socialista, nenhuma greve, não toma parte em sindicatos
ou partidos políticos, o máximo que faz é escrever poemas em
jornais estudantis de cunho anarquista.
Está bem distante
de ser o poeta subversivo do futuro, é antes um jovem absorto na
literatura e procurando publicar seus livros e fazer sucesso com
eles. Suas obras vão refletir, nesta época, as leituras
apaixonadas de poetas espanhóis como Gôngora e Quevedo, Bécquer,
Garcilaso de La Vega e de hispano-americanos como Rubén Darío,
Gabriela Mistral. Numa dualidade entre o misticismo panteísta e o
lirismo-romântico, a obra nerudiana ainda não tem a marca do
político-social em seus primeiros livros.
Amadurecimento
da visão do mundo
Nesta
época da juventude do poeta, nos anos 20 do século passado, Neruda
é de uma poesia primaveril, juvenil, onírica e panteísta. Neste
tempo o poeta vive principalmente as sensações mais diretas que
vida lhe dá, numa relação direta com a natureza, absorto na
contemplação dos ritmos vitais, da música do universo. Na década
de 20, Neruda não tem nenhum posicionamento filosófico definido e
nenhum engajamento político social, o máximo que Neruda se permite
é uma aproximação a círculos estudantis anarquistas em Santiago.
A natureza e as mulheres são seu principal material inspirador;
dotado, que era, de uma sensibilidade incomum e sensualidade sempre
constante, forte, com uma ousadia acima da moral da época. No texto
supramencionado vislumbramos um pouco do lirismo do poeta, ainda
que, em Cadernos
de Temuco,
ele seja pouco mais que um adolescente. A poética nerudiana,
todavia, amadurecerá, florescendo pouco a pouco. Já no livro Vinte
poemas de amor e uma canção desesperada,
vê-se um poeta que, ainda que continue não engajado em lutar por
mudanças sociais, em termos de forma, vive uma grande maturidade na
parte estética. Não parece o livro de um jovem escritor, ainda
principiante nas letras, mas sim a obra de um poeta seguro
esteticamente em seus experimentos e ousadias na linguagem e na
forma. Com este livro, Neruda alcançará, ainda muito jovem, fama e
prestígio literário, mesmo entre os críticos mais exigentes, que
vislumbram no jovem poeta um talento inato.
Vejamos
este outro texto lírico, no qual não se oculta o panteísmo, na
comparação da mulher com a natureza, em um livro artisticamente
bem mais elaborado, que é o Vinte
poemas de amor e uma canção desesperada.
“Casi
fuera del cielo ancla entre dos montañas la mitad de la luna.
Girante, errante
noche, la cavadora de ojos.
A ver cuántas
estrellas trizadas en la charca.
Hace una cruz de
luto entre mis cejas, huye.
Fragua de metales
azules, noches de las calladas luchas,
mi corazón da
vueltas como un volante loco.
Niña venida de tan
lejos, traída de tan lejos,
a veces fulgurece
su mirada debajo del cielo. ”
(Neruda; 1999, p.
23):
Estes versos
mostravam um Neruda que não era pior que o Neruda Pós-Espanha. Os
versos de Vinte poemas
estão dentre os melhores de Neruda, ainda que neles cantem traços
românticos tardios, gongóricos (Gôngora fora um dos poetas
prediletos de Neruda na adolescência), com jogos de palavras e
exagero de figuras de linguagem, com um panteísmo esotérico.
Neruda não era um católico praticante, seu panteísmo não se
traduziu numa religiosidade confessa, como o de Gabriela Mistral,
sua evocação da natureza antes, traz a marca do divino sem definir
claramente a figura de uma determinada divindade. Se Deus está na
poesia da Neruda, em nenhum momento ele expressa isto claramente,
mas o ritmo que o poeta capta na natureza é um ritmo que transcende
um mero naturalismo narrativo e explode em cores místicas, de um
esoterismo que busca o metafísico, os significados esotéricos,
para além da matéria. Neruda traz em toda sua obra a marca de sua
infância passada no interior do Chile, quando passeava com seu pai
de locomotiva, não só por Temuco, mas por toda a cordilheira
andina chilena e encantava-se com a imponência da selva andina.
Esta vivência, afastado das grandes cidades, isolado no interior do
país, em contato permanente com uma América ainda indomada, vai
brotar por toda a vida do poeta em seus escritos, mesmo em sua fase
mais militante.
Para
José Carlos Rovira, um dos mais importantes e respeitados
nerudistas, a
infância de Neruda em Temuco, o contato estreito com a natureza
selvagem chilena vai imprimindo no poeta a impressão fortíssima de
uma natureza selvagem e indomada, na qual explodem fenômenos de
raríssima beleza, dentro da selva andina. Veja no anexo, o texto
extraído de Rovira,
José Carlos;
Para
leer a Pablo Neruda, 1991, do qual retiramos um pequeno trecho.
En
el principio fue la soledad de Temuco, la estación de ferrocarril
donde trabajaba su padre, la costa cercana de puerto Saavedra, la
naturaleza deshabitada, la flor del copihue, el ruido de los trenes
o su silencio, el rumor del mar o todos los sonidos de la
naturaleza, agolpados a las palabras que se van aprendiendo para
llamar a cada cosa por su nombre. (...) La infancia en Temuco es un
aprendizaje de soledad y naturaleza; (...) En Confieso que he vivido
narró el poeta ampliamente todas las sorpresas de aquella infancia:
la naturaleza que le provoca «una especie de embriaguez», los
pájaros y su canto, los insectos, o los juegos infantiles. (...)
(Rovira;
1991,
p. 57).
Nota-se
nas palavras deste importante crítico que a construção poética
inicial de Pablo Neruda, de Cadernos
de Temuco até Vinte poemas de amor,
tem uma unidade essencial, baseada na natureza, na busca do eu
interior, no fascínio e na exaltação pela mulher. É um poeta em
desenvolvimento, em busca insaciável, vivendo a vida com
intensidade interior e a registrando em seus poemas. Há uma linha
condutora, com o desenvolvimento dos mitos poéticos iniciais
realizados no tempo dos seus amores juvenis, intensificada no
momento essencial da passagem dele em Santiago, quando começa a
tomar contato com uma outra realidade, que não a vivida em sua
infância em Temuco. Pablo Neruda crava seus primeiros acordes, em
seus poemas iniciais há a falta ainda das notas político-sociais,
mas as outras notas não são menos belas ou impressionam menos,
pela força e pela vivacidade da poesia. O poeta carrega consigo
Temuco e a natureza do Chile, é o que ele mesmo diz em Confieso
que he vivido:
“El
copihue rojo es la flor de la sangre, el copihue blanco es la flor
de nieve... En un temblor de hojas atravesó el silencio la
velocidad de un zorro, pero el silencio es la ley de estos
follajes... Apenas el grito lejano de un animal confuso... La
intersección penetrante de un pájaro escondido... El universo
vegetal susurra apenas hasta que una tempestad ponga en acción toda
la mística terrestre.
Quien no conoce el
bosque chileno, no conoce este planeta.
De aquellas
tierras, de aquel barro, de aquel silencio, he salido yo a andar, a
cantar por el mundo (Neruda; Julio de 2005, p 12).
Nestas
palavras do próprio poeta sobre o bosque chileno, tiramos a prova
concreta das matizes panteístas e místicas do Neruda inicial que,
combinadas com a lírica sensual-erótica da exaltação à mulher
são a base no qual são estruturadas as suas primeiras obras. Em
1924 a editorial Nascimento,
de Santiago, publica os Vinte
poemas de amor e uma canção desesperada,
no qual se vislumbra uma sensibilidade visceral, pós romântica,
numa relação direta com o leitor que o tempo haveria de aprimorar,
com influências que vão de Gabriela Mistral a Gôngora e Quevedo.
Ainda não é o Neruda moderno e pós-moderno que nascerá no livro
Espanha
no Coração. Evolução
realizada em livros como Memorial
de Isla Negra
e Residência
na Terra III,
como o próprio reconhece em
Confieso que he vivido:
El mundo ha cambiado y mi poesía ha cambiado. Una
gota de sangre caída en estas líneas quedará viviendo sobre
ellas, indeleble como el amor (Neruda, Pablo, 2005, p.37).
Ainda
não haviam lágrimas, nem dores no caminho de Neruda antes de sua
ida a Espanha. O jovem poeta, já famoso e popular, começa a dar
os primeiros passos na vida cultural em Santiago, aproveita-se de
suas amizades iniciais e de seu prestígio de jovem prodígio para
conseguir uma colocação como Cônsul e é designado para a
Birmânia, país no qual viverá praticamente no ostracismo, recluso
na pequena localidade para o qual foi mandado e onde terminará os
livros Residência na Terra I e Segunda Residência na Terra,
altamente místicos e, poderíamos dizer, existencialistas, no
sentido mais formal do termo, já que a preocupação do poeta é
com sua “vida interior”, com seu “eu interior” apenas e tão
somente. Esta é a tríade que caracteriza a fase inicial de Neruda:
Lirismo, baseado na figura da mulher; panteísmo, com adoração da
natureza e, por último, esta preocupação mística-esotérica, num
torvelinho, num turbilhão de emoções que a solidão num país com
uma cultura completamente diferente (a qual Neruda não tentou
desvendar ou compreender) vai levar o poeta.
O
poeta e sua passagem pelo Oriente
Neruda
já tinha lançado quatro livros em 1926: Crepusculario.
Santiago,
Ediciones Claridad, 1923; Veinte
poemas de amor y una canción desesperada.
Santiago, Nascimento, 1924; Tentativa
del hombre infinito.
Santiago, Nascimento, 1926; El
habitante y su esperanza.
Novela.
Santiago, Nascimento, 1926. Como o próprio poeta falava, ele se
refugiava nos livros com a ferocidade de um tímido, mas conseguiu
algum prestígio, fama e certo reconhecimento nos meios literários
e culturais, principalmente com os Vinte
Poemas,
que serão fartamente premiados. Como já citado, o poeta pobre e
interiorano vai usar do prestígio e do conhecimento alcançados
para começar uma carreira diplomática. Seus amigos intercederam
por ele junto ao Ministro das Relações Exteriores do Chile e o
poeta será nomeado Cônsul do Chile em Rangoon, uma região extrema
da Birmânia, onde passará uma obscura vida de burocrata, reduzido
a assinatura de pequenos papéis relativos a exportação de chá do
Chile para o Oriente. Ainda que Neruda houvesse abraçado uma
carreira que tem relação com a política, isto não o levou a
criar uma consciência social, na verdade o diplomata era mais um
burocrata responsável por assinar os papéis de importação de chá
para a Birmânia do que um representante político chileno. Suas
funções consulares à época eram bastante reduzidas e ele se
entregou a uma experimentação, que esteve bem longe de ser
mística. Neruda terá experiência com várias mulheres orientais
e, nos momentos em que a sua carreira diplomática deixava, viajava
e explorava os povoados do Oriente, em busca não de experimentações
místicas, mas de contato humano. Estas visitas não tinham caráter
esotérico ou religioso, é impressionante a dicotomia que há na
poesia desta época, com arroubos místicos e a visão materialista
direta do mundo. Neruda não se encanta com o Oriente, só consegue
ver miséria, tristeza, abandono, no lugar no qual outros poderiam
ver o fervor místico. Pelo contrário, o cônsul vai fazer uma
relação de efeito-causa e vai depreender o misticismo dos povos
orientais de uma necessidade de filosofia estóica de vida, para
sobreviver se submetendo a tanta miséria. Isto não o leva a uma
atitude de revolta ou de contestação, mas o fato de ele romper as
cortinas místicas e enxergar a realidade material concreta,
determinada socialmente e não religiosamente, já é o primeiro
passo que possibilitará o nascimento do Neruda engajado e militante
do futuro. Veja o que Rovira, José Carlos, fala da poesia Nerudiana
desta época:
En
1927 comienza la biografía consular del poeta. A través de ella,
otra naturaleza, la de Oriente, se pone ante sus ojos, para ser la
base de una nueva experiencia poética. En 1927, es nombrado cónsul
en Batavia (Java); en el 31, en Singapur. Son cuatro años que
configuran una nueva construcción en el quehacer literario de
Neruda, años de viajes, naturaleza, amores, y años, sobre todo, de
definición de un mundo profundamente original que hace entrar al
poeta en una dimensión diferente.” (Rovira,
1991, p. 34).
A
poesia de Neruda desta época, Residência
na Terra
e parte de Segunda
Residência na Terra, será
ainda mais mística, esotérica, interiorizada, preocupada em
definir o poeta como um ser humano em busca de sua essência
existencialista, que não está, de maneira nenhuma, relacionada a
um papel social coletivo, pelo contrário, prefere caminhar pelos
labirintos da busca mística, do onírico, do panteísmo, ainda que
mantenha um traço lírico erótico que vai perdurar como linha
tênue de costura em toda a poesia de Neruda que fala do amor. Como
já observado, há uma dicotomia entre o cônsul que já divisa a
miséria no meio do fervor místico e o poeta que se interioriza e
constrói um pensamento individualista, como uma forma de proteção
àquele Oriente que o assusta, o atemoriza. Pablo Neruda, em nenhum
momento vai conseguir se adaptar à vida na Birmânia. Ao contrário
do que aconteceu na Espanha, Neruda será apenas um trabalhador,
obrigado a fazer uma passagem pelo Oriente, vendo tudo com olhos de
turista acidental, em nenhum momento ele vai conseguir se inserir no
contexto daquela realidade tão diferente da que havia em sua terra
natal
Alguns
críticos, como Saul Yurkievich vão considerar esta obra de Neruda
no Oriente, Residência
na Terra,
como obra de vanguarda, nela o poeta começará a fazer a ruptura
com o passado, já que haverá uma renovação profunda das
concepções e formas, com relação a seus primeiros poemas. Seu
isolamento no Oriente fará com que ele busque no místico e na
interiorização das emoções, nas imagens anímicas, o suporte
para sua poesia, o que vai diferenciar bastante de sua anterior
poesia lírica panteísta. Vejamos o que diz um crítico, Saúl
Yurkievich, in A
través de la trama.
Residencia
en la tierra integra, junto con Trilce de César Vallejo y Altazor
de Vicente Huidobro, la tríada de libros fundamentales de la
primera vanguardia literaria en Hispanoamérica. Posee todos los
atributos que caracterizan a la ruptura vanguardista. Surge
íntimamente ligado a la noción de crisis generalizada y, promueve
un corte radical con el pasado. Participa en la renovación profunda
de las concepciones, las conductas y las realizaciones artísticas.
Cambio de percepto y cambio de precepto van a la par.
(Yurkievich,
Santiago, 1984, p 5). Veja
o restante do texto, nos anexos.
Assim,
Residência
na Terra pode
ser considerado até certo ponto um livro niilista, porque fala do
vazio, do ser submergido no mistério da existência, do naufrágio
da vida. O poeta cônsul na Birmânia escreve uma obra com cunho
existencialista sem ter aderido a nenhuma escola de vanguarda. Esta
obra de Neruda, assim como a primeira parte da Segunda
vão
fazer parte da evolução de sua arte, ainda que não ficassem entre
as obras pelas quais ele tinha mais apreço, o próprio poeta as
considerava mais como indicativas das mudanças temáticas e
estéticas do que propriamente como obras cruciais na sua
trajetória, marcos de mudança essenciais apenas para que sejam
captadas as guinadas que serão promovidas, ocorridas entre a fase
que vai dos poemas iniciais até a primeira parte da
Segunda Residência e,
depois, a virada estética temática que vai acontecer a partir da
segunda parte desta mesma obra. É o poeta vivenciando a experiência
do Oriente de forma desencontrada e desesperadora. Ao mesmo tempo em
que viaja misticamente em suas poesias, refletindo o orientalismo ao
redor, é a fase de maior confusão sentimental na vida do poeta,
uma fase promíscua na qual ele se submerge numa volúpia carnal, se
aproveita das delícias da milenar arte do sexo cultuada pelo
oriente. Terá um caso passional com uma nativa, que o abandonará
numa cena tragicômica, mas terá uma série de outros casos e, ou
relações sexuais sem grande ligação afetiva. Assim, com esta
vida altamente erotizada, não é de se estranhar que mesmo na fase
mais orientalista de seus textos, não deixe de aparecer a face
sensual em seus poemas, mas numa sensualidade sórdida, como
assevera Saúl Yurkievitch, na obra já citada:
Con
referencia a la escala humana, Neruda opera un rebajamiento hacia
los seres y actividades sin prestigio, practica un rescate poético
de lo prosaico, de la experiencia ordinaria, de lo basto y grueso y
hasta de lo degradante. En el plano de las manifestaciones
corporales, ese descenso se presenta como crudeza somática, como
ampliación descarada del decible corporal, como franqueza física y
sobre todo sexual. (Yurkievitch,
Santiago, 1984).
Constata-se
que há uma clara relação da vida conturbada de Neruda no Oriente,
de sua reação psicológica de interiorização para se defender do
mundo que considera hostil (ainda que, contraditoriamente participe
ativamente deste mundo) e da poesia que escreve nesta época. Não é
mais o texto lírico do poeta adolescente e pós-adolescente, é o
texto de um homem maduro que tomou contato com o lado escuro do
mundo, com o submundo, com as perversões e que as transcreveu em
seus poemas, como o fizeram Walt Whiltman, James Joyce e Baudelaire.
Com isto, Pablo Neruda consegue, com seus poemas escritos no
Oriente, colocar-se ao lado da vanguarda mais progressista, em
termos estéticos, em todo o mundo, mesmo que alijado
geograficamente da revolução cultural que acontece na Europa. A
experiência orientalista de Neruda o deixa pronto para o próximo
passo na sua evolução poética.
NERUDA
E SUA PASSAGEM PELA ESPANHA
O
poeta Pablo Neruda, ou melhor, o cônsul Ricardo Eliézer, chega a
Espanha em 1934, para um cargo em Barcelona. Em Madri travará
contato com vários poetas da geração de 27, entre eles Alberti,
García Lorca, Aleixandre, Miguel Hernández, Gerardo Diego,
Cernuda, e, ainda que fosse chileno, portanto, estrangeiro; sua
estreita amizade com eles o fará participar ativamente das mudanças
estéticas, culturais e sociais patrocinadas pelos inovadores poetas
de Espanha como se mais um poeta nativo fosse.
Depois
da terrível solidão por que passou no Oriente, o poeta chileno vê
a Espanha como um lar, uma nova pátria, um lugar que adotou e pelo
qual foi adotado. Em sua biografia, Neruda diz repetidamente que em
Madrid, na sua casa da rua do Mercado, foi feliz. Veja
esta citação do próprio poeta:
Pocos poetas han
sido tratados como yo en España..." confidencia Neruda a
Alfredo Cardona Peña "Encontré una brillante fraternidad de
talentos y un conocimiento pleno de mi obra. Y yo, que había sido
durante muchos años martirizado por la incomprensión de las
gentes, por los insultos y la indiferencia maliciosa, drama de todo
poeta auténtico en nuestros países me sentí feliz." (Apud,
Citación del libro de E. Rodríguez Monegal, "El Viajero
Inmóvil", Yurkievich, p. 15).
O
encontro com Garcia Lorca e a amizade iniciada com ele em 1933,
depois a estada de Neruda em Madrid, a partir de 1934, vão
carinhosamente ganhar um lugar perpétuo na alma de Neruda. A
estética de Espanha começará, pouco a pouco a mudar a poesia
dele, e o poeta chega ao ponto de fundar e dirigir uma revista,
Caballo
Verde,
na qual escreverão os principais poetas, tanto da geração de 27
já citada, como os da geração de 98, como Antônio Machado, este
também amigo pessoal do poeta chileno. Segundo
López de Abieda:
Las editoriales de
la revista Caballo Verde para la Poesía demuestran la íntima
correspondencia entre Neruda y los surrealistas españoles. La
imaginación de Neruda se arrebola arrebatada por la vehemencia
española. El cambio de registro, que también tiene que ver con el
cese de la temporada infernal, la superación del ensimismamiento
angustioso, la recuperación del gozo vital y de la solidaridad
humana, es notorio en la parte final de Residencia en la tierra
(Abieda, López de, 1986, p 15).
Neruda, um chileno,
dirige uma publicação espanhola com a nata dos poetas nativos.
Além de ser influenciado pelos espanhóis, Neruda irá também
fazer escola e influenciar jovens poetas como Miguel Hernández.
Espanha e Neruda se confundem e se mesclam, em determinados
momentos, o poeta que aprende Espanha, começa também a ensinar
Espanha e é adotado por ela, fazendo parte de seu destino comum,
sem se negar a participar dele, inclusive tomando partido na época
da Guerra Civil.
Fica
claro que, quer seja na biografia escrita por terceiros, quer seja
em sua autobiografia, Neruda jamais nega, antes reafirma e incorpora
a Espanha Republicana e seus poetas como Lorca, Miguel Hernández,
Antonio Machado, como influências palpáveis do caminho poético de
Pablo Neruda. Lorca, em especial foi influência avassaladora. Ao se
conhecerem, se identificaram um com outro, nascendo uma amizade com
grande convívio, só interrompida com o assassinato do poeta
andaluz Lorca. A vida de Lorca, com sua poética ligada aos
andaluzes (Cancionero Gitano), aos ciganos, aos oprimidos, aos
bandoleiros, aos marginalizados, às mulheres reprimidas; assim como
a companhia de teatro mambembe que dirigiu, enfim, tudo fará com
que o poeta andino modifique a sua maneira de ver a poética, seus
temas tornar-se-ão menos herméticos e líricos e se “contaminarão”
de povo, da gente do cotidiano. Para ratificar, na citada obra de
López de Abiada, há uma carta de Neruda, entregue em Paris, a
Angela Figueira Aymerich, na qual o poeta descreve como a Espanha
faz parte de sua vida, de sua alma, de seu coração, como a Espanha
está em seus sonhos. segue
um pequeno trecho desta carta:
Queridos
poetas españoles, aquí me tienen muy cerca de la tierra española
y lleno de sufrimientos por no verla y tocarla. Soy un desterrado
especial, vivo soñando con España, con la grande y la mínima, la
del mapa y la de las callejuelas, soñando con todo el amor que
entre vosotros dejé, un desterrado que sólo puede acercarse al
aire que perdió (...) (Abiada, 1984, p. 12).
Em outra
entrevista, com Antonio Collinas, Neruda voltará a falar da
Espanha, e se mostra aborrecido porque alguns poetas espanhóis o
tenham tachado de anti-espanhol (uma alusão a acusações de
Panero, Ridruejo e Rosales, escritores espanhóis não simpáticos à
República, que criticaram a poesia de Neruda, Espanha
no Coração, como se
ela fosse contra o povo espanhol e não contra Franco, posição
esta tomada por eles, certamente motivada por questões
ideológicas), já que havia tomado partido pró República. Na
verdade, a crítica feita de um suposto antiespanholismo de Neruda,
resume-se a uma crítica política, já que Neruda era na verdade
antifranquista e ser contra Franco não representava ser
anti-Espanha.
A
influencia da obra de Federico Garcia Lorca (principal poeta
republicano espanhol, covardemente fuzilado pelos fascistas, por
supostamente ser “rojo y maricas” – referência à amizade de
Lorca com os republicanos e ao homossexualismo – e depois jogado
numa vala coletiva) é confessada por ele mesmo em Para
Nascer Nasci:
Garcia
Lorca era o antiesteta, neste sentido de encher sua poesia e seu
teatro de dramas humanos originais do mistério poético. (...)Seu
antiesteticismo é, talvez a origem de sua enorme popularidade na
América. Desta geração brilhante (...) ele foi, talvez, o único
sobre o qual a sombra de Gôngora não exerceu o domínio que em
1927 esterilizou esteticamente a poesia jovem da Espanha. (Neruda,
Pablo, 1987, p 87).
Antiesteticismo
que Neruda adotará desde então, que fará o poeta espanhol
escrever odes às cebolas e aos gatos, poemas sobre sinos e uvas, um
livro inteiro de poemas não metrificados, dentre os mais
importantes de sua obra, que foi o Canto
Geral,
fica, então, claro que Neruda adotou positivamente esta oposição
antiesteticista e com soluções bem à Lorca, libertou seus poemas
das grades anteriores dos esteticismos pré-modernistas.
Esta admiração
confessa de Neruda pelo grande amigo, Federico Lorca, refletirá na
vida de Neftali, na temática (popular, por vezes mesmo mitológica
e lendária, indianista) e na poesia (livre, solta, descompromissada
em métrica e rima, por vezes; outras, musical, como o Romancero
Gitano de Lorca):
Si vinieron los
gitanos,
harían con tu
corazón
Collares y anillos
blancos
Niño dejadme que
baile.
(...)Huye luna,
luna, luna
Que ya siento sus
caballos.
Niño, dejadme, no
pises/Mi blanco almidonado. (Lorca, p. 134, 1999)
Compare-se
com a Barcarola:
Ai, canta guitarra
do sul na chuva, no sol lancinante
Que lambe os
carvalhos queimados pintando-lhes as asas.
Ai, canta racimo de
selvas, a terra empapada, os rápidos rios,
O inacabável
silêncio da primavera molhada. (Neruda, 2001, p. 204).
Vemos, em ambos os
textos, a mesma musicalidade, o mesmo ritmo pulsante, vivo, a mesma
liberdade poética e estética, também a mesma liberdade temática.
Se no Cancionero
Gitano, Garcia Lorca
destaca as façanhas dos ciganos, povo perseguido na Espanha,
Neruda, na Barcarola,
vai cantar as peripécias de um bandoleiro, de um justiceiro
popular. As duas obras vão exaltar a vida fora dos padrões morais
e legais normais. Este consideramos o melhor exemplo da influência
temática de obra de Neruda, sem falar na poética musicada, muito
semelhante.
O Cante
Jondo, a viola cigana
de Lorca, continua ressoando na viola chilensis de Neruda.
Transportada da Andaluzia para os Andes, ganhou nova roupagem, novo
tempero, novo ritmo, mas nunca renegou sua ascendência. Não só no
anti-esteticismo. Vejam a musicalidade de ambos os poetas. Se o
poema de Lorca parece a viola de um cantor andaluz, o violão de
Neruda não fica atrás, como uma zamba chilena ressonante. Ambos os
textos parecem cantados, não é um anti-esteticismo que apela para
soluções sempre não rimadas, os versos de ambos tem uma
musicalidade intrínseca que dá a unidade e o formato aos poemas.
Neruda em seus versos cantará, assim como cantava, em seus versos,
Lorca, a musicalidade é mais um dos traços de Espanha que o poeta
chileno carregará para o resto da vida.
Para Ático Villas
Boas da Silva, importante crítico brasileiro de Federico Garcia
Lorca:
Lorca estava acima
de todos os seguidores dos ismos estéticos literários, pelo
simples fato de se postar acima das camisas-de-força de cada um
daqueles movimentos. Versátil, sabia aproveitar praticamente as
lições de quase todas as tendências e escolas literárias para
desembocar no artesanato da palavra, seu ofício maior. (Ático,
1999, p. 10).
Da mesma maneira,
Neruda, seu amigo e companheiro, vai percorrer o mesmo caminho, de
ecletismo acima dos movimentos literários da época, usando e
abusando deles, sem se render a nenhum, vanguardas como dadaísmo,
cubismo, surrealismo, futurismo, aproveitando o exemplo precursor de
Federico. O que se notará no Neruda de então é não só a mudança
na temática, com o comprometimento político do poeta com a Guerra
Civil Espanhola e com os temas populares, tomados de empréstimo à
Lorca; mas também, na forma: os versos cada vez mais soltos,
livres, quase em prosa, por vezes, outras musicais, como o Cante
Jondo. Um Neruda modernista, claramente influenciado pelos
modernistas espanhóis, capaz de compor um poema elogioso a um
bandido (Joaquim Murieta, na Barcarola), numa inspiração bem clara
de Federico Garcia Lorca e suas elegias à vida fora da lei dos
ciganos. O Neruda anterior, místico e panteísta, lírico e sensual
continuará a existir, mas não será mais determinante, aparecerá
ora aqui, ora ali nos poemas. Sua temática existencialista anterior
cederá passo a uma temática mais popular, mais próxima do homem
do povo, do cotidiano, do dia a dia, dos problemas sociais; assim
como a forma se livrará das influência anteriores de maior rigor
formal, já que Neruda fora árduo leitor de Gôngora e Quevedo e de
outros poetas formalistas, ou de derramamentos de figuras de
linguagem bem românticas, caminhando para um texto mais direto,
quase coloquial, espécie de poema-prosa, inventário das estórias
e dos anseios do povo chileno, como no Canto Geral; de outras vezes,
surgem poemas musicais, que embora não estruturados em rima,
possuem uma dinâmica musical intrínseca que os fazem ser espécies
de canções a serem declamadas em ritmo musicado, da mesma maneira
que fazia, anteriormente, o poeta andaluz, Federico Garcia Lorca.
O
sofrimento do poeta com o choque da guerra
Vimos
que a imaginação de Neruda será arrebatada pela efervescência
cultural da Espanha de então. Uma mudança estética que tem que
ver com o fim de sua solidão no Oriente, a superação das
angústias religiosas, uma recuperação do gozo da vida e da
solidariedade humanas.
Neruda,
nesta época da Espanha Republicana, pré-Guerra Civil, era um homem
feliz, absorvido por seus trabalhos literários, entre eles a
direção da revista Caballo
Verde
e pelas amizades espanholas, que o carregavam de um café para
outro, como se ele fora um animal raro trazido de uma terra
distante, mas que o envolviam com uma terna e profunda amizade. Veja
como o próprio poeta fala desta época, em Confieso
que he vivido:
"Toda
esa época de antes de la guerra tiene para mí un recuerdo como de
racimo cuya dulzura ya se va a desprender, tiene una luz como la del
rayo verde cuando el sol cae en el horizonte marino y se despide con
un destello inolvidable.".(Neruda, 2001, p. 75).
Entretanto, toda
esta felicidade sucumbirá diante das primeiras noticias que
simbolizam para o poeta, e para todo o povo espanhol, a origem de
toda a grande tragédia da Guerra Civil: estala uma insurreição
encabeçada por Franco; logo no início da Guerra, com apenas um mês
de começada, Federico Garcia Lorca é assassinado, fuzilado em sua
Granada que tanto amou (até hoje o corpo do grande poeta não foi
encontrado), o poeta e dramaturgo, irmanado com Neruda através de
uma amizade profunda e eterna. Esta execução bestial, fascista,
irracional, de um dos maiores escritores do século XX, representa
bem a insanidade da guerra feita pelos fascistas comandados por
Franco contra a república eleita pelo voto democrático. Era a
velha espanhola, ultraconservadora, realista, que não queria
morrer, era o velho se levantando contra o novo e assassinando,
nesta rebelião, toda uma geração pensante de uma nova Espanha que
se erguia. A vitória de Franco levará a Espanha a um atraso de
décadas que colocará o país como um dos últimos em termos de
desenvolvimento na Europa (ainda hoje em dia, Espanha se recente dos
anos de ditadura franquista que brecaram o seu desenvolvimento).
Nestes
dois grandes acontecimentos trágicos interligados, o Assassinato de
Federico Garcia Lorca e a Insurreição franquista, que dá início
à Guerra Civil, está a raiz de España
en Corazón,
livro escrito por Pablo Neruda durante a Guerra Civil, livro de
combate, impresso no front e proibido na Espanha Franquista, e que
assinala a grande viragem, a grande metamorfose do jovem Neruda sem
grandes compromissos sociais para o Neruda maduro, profundamente
comprometido com as causas sociais. Este livro é um grito de dor e
espanto. Neruda não fica neutro, desde o início da guerra, o
Cônsul Ricardo Reyes, como é chamado na correspondência oficial
da época se transforma no poeta Pablo Neruda e não pede permissão
oficial para tomar partido a favor dos republicanos nesta guerra.
Lorca foi fuzilado; Miguel Hernández, preso em combate, morre no
cárcere; Antônio Machado, exilado, morre ao chegar à França. Os
amigos de Neruda estão sendo presos, mortos em combate, ou mesmo
assassinados, fuzilados. Em meio a esta situação brota a obra já
citada, de tomada de posição política e mudança de temática,
com total comprometimento social, Espanha
no Coração:
(...)pero
de cada niño muerto sale un fusil con ojos,/pero de cada crimen
nacen balas/que os hallarán un día el sitio del
corazón./(...)Preguntaréis: ¿por qué su poesía/no nos habla del
sueño, de las hojas,/de los grandes volcanes de su país
natal?/¡Venid a ver la sangre por las calles,/venid a ver la sangre
por las calles!(Neruda, 2001, p 92).
Uma gota de sangue
havia caído na poesia de Pablo Neruda e far-se-ia indelével,
acompanhando o poeta para todo o sempre. O consulado do Chile em
Madrid é fechado pelo governo de Arturo Alessandri, Ricardo Eliézer
será afastado de suas funções diplomáticas por ter tomado
partido, mas não desiste de lutar. Junto com outros escritores e
intelectuais funda uma aliança de ajuda à causa republicana, em
Paris. Realiza vários congressos de ajuda e recolhe dinheiro pelo
mundo à fora. Viaja várias vezes para Espanha, correndo o risco de
ser preso e se compromete como verdadeiro combatente, como
“brigadista”, como eram chamados os voluntários republicanos na
guerra contra Franco. Com a entrada da Luftware alemã, a aviação
hitlerista do lado franquista, e de 50 mil soldados vindos de
Marrocos, transportados por barcos fascistas para o estreito de
Gilbratar, a guerra pende para o lado fascista e os republicanos,
acuados, entre as tropas franquistas e o mar parecem destinados ao
fuzilamento.
Neste
meio tempo, as condições políticas mudam no Chile. A frente
popular ganha as eleições, com o professor radical Pedro Aguirre
Cerda à frente, como presidente da república e recoloca Neruda
como responsável novamente pelas funções diplomáticas na
Espanha. O
Cônsul Ricardo Eliézer até hoje tem a gratidão eterna do povo
espanhol. É ele que toma o problema do exílio nas mãos e consegue
refúgio para mais de 40 mil espanhóis republicanos derrotados,
cujo destino era a morte certa. Toda esta experiência traumática
de dor, morte, perda, solidariedade, comprometimento, faz com que
Neruda reveja suas posições diante do mundo. A Guerra Civil
Espanhola será a ante-sala da Segunda Grande Guerra, nela os
fascistas treinarão os métodos de combate usados para assolar a
Europa, nela também os resistentes treinarão sua resistência nas
brigadas voluntárias internacionais. O mundo depois se dividirá em
duas durante a grande guerra, mas, durante a época do grande
confronto, Neruda já terá tomado uma posição enérgica, terá se
tornado um poeta militante e carregará isto não só para a sua
vida prática, mas também para os seus textos, que incorporarão na
sua temática a nova opção marxista que ele fará.
MUDANÇA
IDEOLÓGICA – NERUDA VIRA À ESQUERDA
Neruda não se
torna comunista ou marxista na Espanha, embora observe com simpatia,
a movimentação do PSOE (na época o partido marxista), que lhe
pareceu o partido mais organizado e com mais condições de comandar
a resistência ao franquismo. Fala com algum desdém dos
anarquistas, a quem classifica de desorganizados e sem comando, e
caminha, então, para uma futura definição político e filosófica,
o que mudará completamente sua vida e seus versos.
Pablo Neruda, como
veremos, tornar-se-á, ao chegar ao Chile, depois da Guerra Civil
Espanhola, marxista, militante do partido comunista, senador chileno
e candidato à presidência da república. Só que esta virada não
acontecerá de uma só vez. Seus amigos espanhóis não eram
propriamente militantes, com exceção de Miguel Hernández, que foi
preso ao combater e morreu na prisão. Ela se dará paulatinamente,
conforme iam sucedendo os combates na Espanha e Neruda ia se
envolvendo com os republicanos e, dentre estes, mostrando simpatia
pelos comunistas. Isto o leva a ter uma imagem muito positiva do
movimento comunista internacional, de tal forma que Neruda
considerava os comunistas os únicos a estarem realmente em
condições de se baterem com sucesso contra Franco. O que não
aconteceu no entanto. Neruda em sua biografia joga a culpa nas
outras organizações republicanas que, para ele, não estariam à
altura do enfrentamento da guerra, muito descentralizadas, sem
comando, sem uma ideologia firme. Era, sem ele saber, o passo
definitivo para a sua futura decisão de se tornar não mais um
simpatizante, mas um ativo membro do movimento comunista
internacional.
Federico
Garcia Lorca, ainda que tivesse uma concreta simpatia pelos
republicanos, jamais militou em nenhuma organização política,
será preso em casa e fuzilado sem julgamento, de maneira sumária,
em uma praça de sua querida Granada. Antônio Machado, outro amigo
do poeta chileno, também simpático aos republicanos, não toma
parte na guerra, procura o exílio, caminhando ao largo dos
combates, mas acaba morrendo doente, ao chegar à fronteira com a
França. Neruda não terá nenhuma militância político-partidária
na Espanha, seu trabalho de militância dar-se-á através de seus
escritos, do livro Espanha
no Coração,
numa sociedade de defesa da República Espanhola, que coleta fundos
no mundo inteiro para a guerra contra Franco. Depois, na parte final
da guerra, de volta ao trabalho consular, é ele que consegue o
transporte e os vistos para exilar 40 mil combatentes espanhóis
junto com suas famílias. Estes combatentes teriam perecido, não
fosse a intervenção do Cônsul Ricardo Eliézer, já que
praticamente derrotados, viam-se cercados entre o mar e as tropas de
Franco. A ida para o Chile, que os acolherá como segunda pátria,
os salva do pelotão de fuzilamento, em massa.
Biógrafos
críticos de Neruda como José Manuel López de Abiada, nos mostram
que Neruda, na época da guerra, publicou seu primeiro poema
politicamente comprometido, na revista Azul,
bancada pela
Aliança de Intelectuais Antifascistas e dirigida por Rafael Alberti
e María Teresa León. Por causa de sua opção republicana foi
alijado do seu cargo diplomático e passou a residir na França,
para defender publicamente a República. Neruda fundou e dirigiu, ao
regressar ao Chile, a Aliança dos Intelectuais para a Defesa da
Cultura. Sua poesia sofre uma mudança significativa de forma,
tornara-se quase coloquial para ser instrumento de transmissão de
suas idéias, de maneira que fosse clara para todos os homens do
povo, ou seja, os trabalhadores e os despossuído (o proletariado,
como fala Marx, aqueles que possuem única e tão somente a sua
força de trabalho para sobreviver, como os metalúrgicos, os
mineiros, os ferroviários). O cotidiano passa a ser tema de sua
obra. Nesta fase se observa um grande humanismo, a sede de justiça,
o descuidar de seus próprios sofrimentos e a solidariedade com os
padecimentos alheios, principalmente o da classe trabalhadora,
explorada. Mas Neruda ainda não é o comunista do PCC, ele diz em
uma entrevista para o Morales Álvares, ao chegar ao Chile em 1937:
No
Yo no soy comunista. Ni
socialista. Ni nada. Soy, simplemente, escritor. Escritor libre, que
ama la libertad con sencillez. Amo al pueblo. Pertenezco a él
porque de él vengo. Por ello soy antifascista. Mi adhesión al
pueblo no peca de ortodoxia ni de sometimiento. (Manuel,
1984, apud, Abiada, 1987, 232).
Nesta
época, a sua amizade com comunistas assumidos como Alberti,
González Tuñón, Serrano Plaja e Prados, terá uma paulatina e
constante influência. Influência esta que nos permite afirmar que
o poema “España
pobre por culpa de los ricos”
é um exemplo evidente da nova concepção marxista nascente: a
violência, a grosseria da linguagem e as imprecações condicionam,
em boa parte, os argumentos materialistas dialéticos: O
materialismo dialético, uma filosofia que casa a dialética
hegeliana, do movimento das contradições como ferramenta de
evolução do progresso, com o materialismo antigo; tentando superar
as limitações que o antigo materialismo possuía, de ver a matéria
como algo mecânico e não explicar, por exemplo, filosoficamente o
pensamento, as idéias. Assim o materialismo dialético tenta
harmonizar o melhor de duas escolas de pensamento, a dialética, que
vem da Grécia e que antes era a arte de argumentar, que vai se
transformar em Hegel no movimento dos contrários, tese-antítese em
permanente superação, mas que sempre esteve a serviço da escola
idealista de filosofia; com a escola marxista de pensamento, Neruda
adere completamente ao materialismo, ainda que sua poesia carregue
sempre traços de metafísica, pelo panteísmo de seus versos.
O materialismo
dialético por sua vez leva ao materialismo histórico, que é uma
concepção filosófica que leva a crer que as leis econômicas são
as que regem a sociedade, e que o restante, o jurídico, o
administrativo, a arte, tudo, em última instância se submete à
maneira pela qual uma sociedade está organizada em sua forma e modo
de produção. Que a exploração do homem pelo homem não é
natural, mas dada social e historicamente na sociedade de classe, e
que é possível então se fazer uma passagem para uma sociedade sem
classes através de uma revolução da classe dos despossuídos
(proletariado) contra a classe possuidora (burguesia). Esta
revolução então levaria a uma nova forma de produção,
socialismo, cujo objetivo final é uma sociedade sem classes,
comunismo. Neruda aderiu a estas idéias e passou a defendê-las não
só em seus discursos e escritos políticos, mas, algumas vezes em
suas próprias poesias (Canto Geral).
Nos
poemas de Terceira
Residência na Terra,
estes elementos já se encontram presentes no poema Espanha
pobre por culpa dos ricos. É
esta evolução, já presente na passagem de Neruda pela Espanha,
que vai se cristalizar, quando o poeta regressar ao Chile e começar
uma prolífica atividade de militante político, os seus livros e
seus poemas farão parte ativa desta militância e Neruda será
perseguido então não só por sua atividade como parlamentar, mas
também por sua atividade artística. O Canto Geral, por exemplo,
ficará, durante anos, proibido no Chile. Por isto neste trabalho
chamamos atenção para a simbiose completamente única, de um poeta
que se plasma panteísticamente na natureza, como em Alturas
de Machu Pichu
em Canto
Geral, mas
que no mesmo livro, usa a temática revolucionária e comunista.
A
estética social e socialista de Pablo Neruda
Há o Neruda
pré-Espanha e o Neruda pós-Espanha. Já estudamos a vida e a obra
do poeta anteriormente à sua estada em Madri, depois vimos o drama
da guerra e a confluência poética com os jovens poetas
republicanos, agora estamos desenvolvendo o Neruda marxista, já na
sua volta ao Chile, para entendermos como e qual profundamente foi
mudada a poesia nerudiana.
Neruda,
logo após retornar para o Chile, depois de vivenciar e presenciar a
Segunda
Grande Guerra,
na Europa, ver a devastação e o papel da resistência comunista ao
nazi-fascismo, toma definitivamente partido. Filia-se ao PC chileno.
Antes de se filiar, em 4 de março de 1944, Neruda é eleito senador
chileno pelas províncias de Tarapacá e Antofagasta, filia-se ao
Partido Comunista em junho, antes, em maio, havia recebido o prêmio
nacional de literatura do Chile. Em setembro escreve Alturas
de Macchu Pichu,
parte integrante do seu afamado Canto Geral. Este poema, é um dos
mais interessantes do livro, já que nele podemos confrontar ambos
os Nerudas, o velho e o novo, que convivem nele. Na natureza
exuberante de Macchu Picchu o poeta sente que chegou ao ventre do
planeta, se deixa seduzir pelo magnetismo da última cidadela inca.
Então, o poema de resistência, em um livro de militância é
escrito com exuberante panteísmo, lembrando os versos mais
primaveris do Neruda que andava de locomotiva em Temuco.
Nesta época viaja
por toda América Latina, não só como escritor, mas já como
militante comunista, dando conferências e palestras, participa do
comício de Luís Carlos Prestes em São Januário. Não é mais
simplesmente o poeta Pablo Neruda que participa de atividades
políticas, é agora o senador comunista, o militante Pablo Neruda
que também é escritor. Uma tomada de posição radical que o poeta
manterá até o fim da vida, militando no PC chileno até a morte,
logo após a morte de Salvador Allende, o poeta morre de câncer na
próstata, clamando, nos seus delírios, por seus companheiros
assassinados pela ditadura recém construída de Augusto Pinochet.
As
poesias nerudianas desta época, como Canto
Geral, As Uvas e o Vinho, Barcarola, Versos do Capitão,
terão uma temática social, por vezes mesmo socialista, motivos
populares, elegias de heróis anônimos do povo, uma ligação
afetiva com a classe operária, a louvação de todos os heróis e
mártires latino-americanos (Canto
Geral),
e chegarão a uma simplificação estética que levara Neruda quase
ao coloquial. Isto terá uma resposta negativa de parte da crítica,
que acusa o poeta de não fazer arte, mas simplesmente discurso
político. Neruda responde trabalhando, com mais afinco e, consegue,
mesmo levando à frente uma árdua militância política, continuar
a publicar novos poemas e livros. Canto
Geral,
foi escrito em meio a uma grande perseguição política, já que em
1948, o Partido Comunista Chileno foi proibido e Neruda teve sua
prisão decretada. Na fuga do Chile, foi escondido por anônimos
heróis do povo, ficando meses escondido na casa de um simples
operário, em Valparaíso. Depois escapou pelos Andes, com auxílio
de militantes do PC Chileno e traficantes. Terminou sua obra no
exílio, publicando o seu livro mais famoso, Canto
Geral,
no México em 1950. O livro terá uma recepção calorosa em toda a
América e será vendido no Chile clandestinamente como um desafio à
ditadura.
Devemos,
todavia, notar que mesmo no livro de poemas mais famoso de Neruda,
Canto
Geral,
o poeta mantém a exuberância das figuras de linguagem e, ainda que
se declarasse materialista, por ser marxista, dentro desta mesma
obra militante vemos de maneira bem clara o panteísmo vivo de
Alturas de Macchu Pichu, ou dos poemas sobre a origem da América e
um lirismo apaixonado quando fala das mulheres que lutaram pela
liberdade da América. O Neruda marxista, materialista dialético,
comunista, o “velho Neruda”, não vai jamais abrir realmente mão
de todo o manancial lírico do jovem Neruda, os traços do Neruda
inicial vão se manter como raízes da árvore frondosa que se
tornou o Neruda maduro. Este é o grande encanto da poesia
nerudiana, manter o frescor da juventude, das figuras de linguagem,
da retórica inicial, não abrir mão da musicalidade e da beleza,
mesmo quando fala de coisas duras, de agruras como a vida dos
mineiros de carvão de Antofagasta.
Isto
levará a que Neruda seja amado pelo povo chileno e visto como algo
mais do que um simples escritor. Sua indicação ao prêmio nobel
foi festejada por todos os chilenos, mesmo os reacionários, não
era somente o poeta das mulheres, mas o poeta de uma nação, que
cantava as alegrias e dores dela, a beleza de sua natureza, a
esperança de um futuro mais justo, a denúncia dos crimes e das
injustiças, um profeta que percorreu todo o Chile para fazer o
levantamento de suas dores e que tentou, a sua maneira, diminuir o
lamento dos trabalhadores. Veja este belo exemplo de sua dedicação
ao povo chileno, extraído de Canto
Geral:
Soy nada más que
un poeta: os amo a todos,
ando errante por el
mundo que amo:
en mi patria
encarcelan mineros
y los soldados
mandan a los jueces.
Pero yo amo hasta
las raíces
de mi pequeño país
frío.
Si
tuviera que morir mil veces allí quiero morir:
si
tuviera que nacer mil veces, allí quiero nacer,
(...)No quiero que
vuelva la sangre
a
empapar el pan, los frijoles,la música: quiero que venga conmigo el
minero, la niña, el abogado, el marinero,
el fabricante de
muñecas,
que
entremos al cine y salgamos a beber el vino más rojo.
Yo no vengo a
resolver nada.
Yo vine aquí para
cantar y para que cantes conmigo. (Neruda, 2001, p. 345).
Ironicamente,
Neruda que viu Espanha ser assassinada pelos franquistas, passará
por um processo semelhante na sua terra natal. Em 1973, Salvador
Allende seu amigo pessoal, presidente do Chile é assassinado no
Palácio la Moneda, defendendo o mandato presidencial (a versão
oficial fala que Allende se suicidou). Neruda já estava bastante
debilitado e doente. Neruda já estava debilitado e doente, por esta
razão havia renunciado a seu cargo de embaixador, designado fora
antes pelo amigo Allende, em favor de sua também amiga, Gabriela
Mistral. O golpe militar contra Allende agravou o estado de saúde
de Neruda, que, no entanto, continuou a trabalhar escrevendo
denúncias contra o golpe (que foram salvos da repressão de
Pinochet pela esposa de Neruda, Matilde Urrutia). Com a morte dos
amigos amados e esta atividade forçada sua doença piorou e, nos
estertores, em delírio, clamava pelos amigos assassinados e dizia,
los matam a todos! O funeral de Neruda foi a última manifestação
livre no Chile do já generalíssimo Pinochet. A ditadura não ousou
reprimir a manifestação popular de carinho pelo poeta que era o
retrato do Chile, milhares de pessoas acompanharam o poeta que, como
em seu desejo manifestado em seu poema, foi enterrado no amado solo
chileno, onde mil vezes desejava morrer, onde mil vezes desejava
nascer, eternamente chileno, tesouro nosso, todavia, de todos os que
são povo, pueblo, latino-americano.
CONCLUSÃO
Neste trabalho
ficaram expostas, de forma cronológica, as várias fases do poeta
Pablo Neruda, e como elas se refletiram na sua obra. Mas não só
isto, pois senão cairíamos num biografismo estreito, nosso trabalho
é de análise da poética na obra de Neruda. Mostramos também as
influências poéticas, as escolas, os movimentos de vanguarda da
época que vão influenciar a forma e a estética de Neruda.
Todavia,
uma experiência é central na vida do Poeta. Esta experiência é
sua estada na Espanha, vai demonstrar uma transformação radical,
uma mudança tanto na estética quanto na temática do poeta, uma
nova tomada de rumo. Ligado à Espanha não só pelas amizades; da
qual Garcia Lorca fora preponderante, já que Neruda o considerava
irmão de coração; mas pela arte, Neruda participará, como se
espanhol fora, nos destinos literários da Geração de 27, chegando
mesmo, ele que era chileno, a dirigir uma das mais importantes
publicações modernistas da Espanha, junto com Rafael Alberti, a
revista Caballo
Verde.
Esta experiência
estética de mesclar sua poesia latino-americana (que já havia sido
influenciada por Gôngora e Quevedo, leituras juvenis do poeta) com a
poesia mais revolucionária (tanto na forma, quanto no conteúdo) da
Espanha, levará a que os textos nerudianos se aproximem muito, com
relação à forma do poema, aos textos dos escritores vanguardistas
espanhóis. Dentre estes escritores de vanguarda espanhóis, o mais
significativo e influente era, exatamente, o melhor amigo de Neruda,
seu irmão de coração: Federico Garcia Lorca. Desta amizade, na
vida real e literária, surgirá uma influência mútua. De Lorca,
Neruda tomará a poética popular e de cunho social (ainda que a obra
de Garcia Lorca não tivesse cunho socialista), mas também tomará o
verso livre e branco, a musicalidade, o elogio às heróis anônimos
do povo. Como o próprio Neruda falou, a guitarra de Andaluzia de
Lorca continuará a tocar depois da morte do poeta espanhol, já que
seus versos influenciarão toda a sua geração. Neruda, chileno de
nascimento, é espanhol, todavia, em grande parte de sua poética.
Lorca não influenciará somente a Neruda; a Geração de 27 da
Espanha, com certeza ecoará no florescimento da nova poesia
latino-americana, não por coincidência, que acontecerá quase
concomitantemente a esta época.
Ficou
explícito na dissertação que o grande marco na vida do poeta, a
estada na Espanha, a Geração de 27, a poesia e a amizade de Lorca,
a Guerra Civil, são catalisadores de uma mudança que desembocará
num Neruda Múltiplo. O Neruda dos Vinte
Poemas
não é um Neruda menor ou pior do que o Neruda de A
Uva e o Vento,
é somente um poeta mais completo, um poeta que agregou à face
lírica uma outra face, social e política. Não há como deixar de
se emocionar com a beleza estética na forma e no conteúdo dos
versos dos Vinte
Poemas,
ainda que neles não fique caracterizada nenhuma militância social.
Mas a face lírica, panteísta, interiorizada de Neruda não sumirá,
somente trabalhará em conjunto, em textos como os do Canto
Geral,
já que o tempo inteiro Neruda cantará a natureza com riqueza de
adjetivos e com uma profundidade metafísica.
Ao
contrário do que diziam alguns críticos, a nova face, social e
socialista, de Neruda, herdada da Guerra Civil Espanhola, não
restringiu a visão do poeta; ele não se tornou restrito ou apenas
utilitarista, conseguiu manter o capricho na forma. Continuou a
escrever sobre a mulher, o desejo, a natureza, constantes na sua
temática e ainda acrescentou outras faces, numa poesia realmente de
vanguarda, em odes que foram capazes de louvar até a cebola, uma das
paixões do poeta andino. Pablo Neruda, vimos pela dissertação aqui
apresentada, se transforma, se completa, amadurece com a Espanha e
com a influência de Lorca e da Geração de 27, tornando-se o poeta
latino-americano mais influente do século XX, trazendo sempre, em
sua natureza chilena, em seu panteísmo revolucionário, Espanha no
coração.
España
en el corazón - Pablo Neruda
Explico
algunas cosas
Preguntaréis:
¿Y dónde están las lilas?
¿Y
la metafísica cubierta de amapolas?
¿Y
la lluvia que a menudo golpeaba
sus
palabras llenándolas
de
agujeros y pájaros?
Os
voy a contar todo lo que me pasa.
Yo
vivía en un barrio de Madrid, con campanas,
con
relojes, con árboles.
Desde
allí se veía el rostro seco de Castilla
como
un océano de cuero.
Mi
casa era llamada la casa de las flores,
porque
por todas partes estallaban geranios:
era
una bella casa con perros y chiquillos.
Raúl,
¿te acuerdas?
¿Te
acuerdas, Rafael?
Federico,
¿te acuerdas debajo de la tierra,
te
acuerdas de mi casa con balcones en donde
la
luz de junio ahogaba flores en tu boca?
¡Hermano,
hermano!
Todo
eran grandes voces, sal de mercaderías,
aglomeraciones
de pan palpitante,
mercados
de mi barrio de Argüelles con su estatua
como
un tintero pálido entre las merluzas:
el
aceite llegaba a las cucharas,
un
profundo latido de pies y manos llenaba las calles,
metros,
litros, esencia aguda de la vida,
pescados
hacinados,
contextura
de techos con sol frío
en
el cual la flecha se fatiga,
delirante
marfil fino de las patatas,
tomates
repetidos hasta el mar.
Y
una mañana todo estaba ardiendo
y
una mañana las hogueras
salían
de la tierra devorando seres,
y
desde entonces fuego,
pólvora
desde entonces,
y
desde entonces sangre.
Bandidos
con aviones y con moros,
bandidos
con sortijas y duquesas,
bandidos
con frailes negros bendiciendo
venían
por el cielo a matar niños,
y
por las calles la sangre de los niños
corría
simplemente, como sangre de niños.
¡Chacales
que el chacal rechazaría,
piedras
que el cardo seco mordería escupiendo,
víboras
que las víboras odiarían!
¡Frente
a vosotros he visto la sangre
de
España levantarse para ahogaros en una sola ola
de
orgullo y de cuchillos!
Generales
traidores:
mirad
mi casa muerta,
mirad
España rota:
pero
de cada casa muerta sale metal ardiendo en vez de flores,
pero
de cada hueco de España sale España,
pero
de cada niño muerto sale un fusil con ojos,
pero
de cada crimen nacen balas
que
os hallarán un día el sitio del corazón.”
Preguntaréis:
¿por qué su poesía no nos habla del sueño, de las hojas,
de
los grandes volcanes de su país natal?
¡Venid
a ver la sangre por las calles,
venid
a ver la sangre por las calles,
venid
a ver la sangre por las calles!
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